Ao longo da década, o Atlético Mineiro aprendeu a lidar como poucos com a taquicardia incontrolável de um mata-mata. Não houve missão impossível que não se dobrasse aos pés do Galo durante aqueles meses doidos entre 2013 e 2014, com as conquistas da Libertadores e da Copa do Brasil. No Mineirão lotado, os atleticanos esperavam reviver esse sentimento nas semifinais da Copa Sul-Americana nesta quinta-feira. E a loucura até pareceu tomar o estádio em parte do duelo decisivo, embalado por mais de 45 mil vozes.

O coração dos anfitriões palpitou bastante pelo primeiro gol que não saía, e veio rasgando o peito ao final do primeiro tempo. Depois da derrota por 2 a 1 em Santa Fé, o Atlético conseguiu reviver e armou um contra-ataque perfeito para abrir dois gols de vantagem, o que deixava a equipe com a vaga na final em suas mãos. No entanto, há sensações que não se repetem. E os mineiros logo souberam que esta não seria a ponte com sua história vitoriosa. Na reta final do segundo tempo, os argentinos cresceram e arrancaram o gol no 2 a 1 revertido, que levava a definição aos pênaltis. Na marca da cal, de virada, o Colón ganhou o direito de experimentar a história. O triunfo por 4 a 3 vale uma decisão continental inédita aos santafesinos. Vale também a frustração ao Galo, diante do que pareceu tão próximo de acontecer e perdeu força no fim.

Rodrigo Santana promoveu mudanças importantes no time titular do Atlético. Luan acumulava um mês sem aparecer no 11 inicial, mas ganhou um voto de confiança no Mineirão. Além disso, um dos jogadores mais importantes do time na temporada, Jair retomava seu lugar na cabeça de área após passar as últimas semanas se recuperando de lesão. O Colón mantinha as suas principais peças, com destaque à tarimbada dupla de ataque formada por Wilson Morelo e Pulga Rodríguez.

O Galo começou a partida como se esperava: com imposição no campo de ataque. Os atleticanos pareciam dispostos a marcar o primeiro gol logo cedo e pressionavam bastante o Colón. As chances não demoraram a surgir. Réver desviou com perigo aos três, após cobrança de escanteio. Já aos cinco, Patric bateu firme e o goleiro Leonardo Burián se esticou para uma defesa providencial. O Mineirão jogava junto com os anfitriões, com um clima vibrante para empurrar o time em sua reação.

Era um Atlético extremamente elétrico, que se colocava no campo de ataque e contava com a boa movimentação de sua trinca de meias. Enquanto Cazares acelerava o jogo pelo centro, podia contar com a energia de Chará e Luan nas pontas. Os atleticanos martelavam. Iam arriscando os arremates que explodiam na entrincheirada zaga do Colón. Os argentinos tinham extremas dificuldades para sair e só levaram perigo aos 24. Pulga Rodríguez levantou a bola na área, o goleiro Cleiton soltou e, na sequência, Guillermo Ortíz cabeceou para Igor Rabello salvar os mineiros. O zagueiro tirou a bola com o ombro em cima da linha. Os santafesinos ainda reclamaram de um pênalti, corretamente negado após revisão do VAR.

O breve susto foi só um respiro do Colón. O Atlético Mineiro era todo ataque nesse momento e empurrava os visitantes contra a parede. Buscava os espaços contra um adversário que se fechava, mas faltava acertar os cruzamentos. O grito de gol pareceu ficar preso aos 37, quando Chará desperdiçou uma chance incrível. O colombiano recebeu de Patric e, na pequena área, fez o mais difícil ao mandar por cima do travessão. Ao menos, o alívio atleticano logo surgiu no ataque seguinte. Cazares fez o levantamento na área, Luan brigou com a marcação e a bola ficou limpa para Di Santo chutar. O centroavante bateu como deu e venceu o goleiro Burián.

A vitória por 1 a 0 já seria suficiente ao Atlético Mineiro, mas o time buscava seu sossego. Elias poderia ter marcado o segundo na sequência, mas o chute desviado rendeu uma defesa excelente de Burián. O Galo terminou o primeiro tempo com fôlego para conquistar uma classificação contundente, mas também com motivos para se preocupar. Motor no meio-campo, Jair sentiu a coxa e precisou deixar o campo no intervalo. José Welison o substituiu na volta para o segundo tempo.

Outro susto aconteceu com Patric, que logo nos primeiros instantes da etapa complementar passou mal e vomitou no gramado. O Colón esboçava uma postura mais ofensiva, mas mal teve tempo de acuar o Galo. Aos quatro minutos, saiu o segundo gol, graças a um contra-ataque de manual. Após um escanteio dos argentinos, Cazares pegou a bola na entrada da própria área e aproveitou o campo aberto para acelerar. O meia avançou pela faixa central e descolou um excelente passe para Chará, abrindo pela esquerda. Então, o colombiano se redimiu do erro no primeiro tempo. Bateu cruzado e venceu o goleiro Burián. A situação dos atleticanos parecia ainda mais cômoda.

Entretanto, o Colón cresceu na partida. Viu o Atlético recuar um pouco mais, para tentar aproveitar os contra-ataques, e partiu para cima dos anfitriões. Pulga Rodríguez coordenava as ações ofensivas dos sabaleros, enquanto Chará e Cazares continuavam representando o principal perigo do outro lado. Numa combinação entre os dois, quase o equatoriano anotou o terceiro, mas a zaga atrapalhou seu arremate. Pouco depois, Luan seria substituído por Vinícius, ovacionado por todo o seu esforço na volta aos titulares, com uma grande atuação.

O problema é que a balança pendia ao Colón. Cada vez mais, os santafesinos sufocavam a defesa do Atlético e encontravam brechas para finalizar. Wilson Morelo teve um chute travado pela zaga e Pulga Rodríguez fez os atleticanos prenderem a respiração, ao quase marcar de letra. Aos 36, a tragédia anunciada aconteceria. Elias calçou Morelo dentro da área e o árbitro assinalou o pênalti. Na cobrança, Pulga Rodríguez deslocou Cleiton e recolocou os sabaleros no confronto. Com o placar de 2 a 1 repetido ao que se viveu no Cemitério de Elefantes, a partida seguiria aos pênaltis.

O nervosismo preponderou e nenhum dos times fez muito para alterar o placar no final. Rodrigo Santana tentou aumentar a velocidade do time com Geuvânio no lugar de Elias, o que pouco adiantou. Já o Colón se manteve mais à frente, sem o mesmo ímpeto para conseguir o empate. O relógio correria até o minuto 50, quando soou o apito final. O destino de brasileiros e argentinos seria realmente definido na marca da cal dentro do Mineirão.

O Colón começou cobrando os pênaltis. E o Atlético até experimentou a chance de ficar em vantagem. O veterano Morelo não bateu tão no canto, mas soltou uma pancada, que Cleiton espalmou. Fábio Santos marcaria para o Galo depois, criando esperança na torcida.  Ortíz fez aos santafesinos na sequência, assim como Vinícius aos mineiros. Chancalay e Di Santo também converteram na terceira série. A sorte mudou na sequência. Enquanto Olivera anotou de cavadinha o terceiro tento do Colón, Réver chutou mal e facilitou a defesa de Burián. Pulga Rodríguez não titubeou na quinta, dando a dianteira aos sabaleros. Por fim, quando Cazares precisava marcar para forçar as alternadas, Burián se agigantou e proporcionou aos santafesinos o maior momento de sua história.

O Atlético Mineiro lamenta a chance de ouro perdida na temporada que se esvai. O time fez um excelente primeiro tempo no Mineirão e ficou com a classificação encaminhada. Porém, se retraiu demais na sequência de jogo e pagou por sua postura. Não é um cenário de terra arrasada, mas o ânimo ao redor do time é mínimo neste momento, até pela péssima sequência recente no Brasileirão. O Galo precisará remar contra a maré para se recuperar na tabela e buscar a zona de classificação à Libertadores, que se distancia.

Do outro lado, o Colón desfruta um sentimento único à sua torcida. O clube de projeção modesta no Campeonato Argentino se tornou mais frequente nas competições continentais e chega ao seu ápice neste momento. Não é um time infalível e apresenta um futebol menos vistoso que o Independiente del Valle. Em contrapartida, conta com jogadores experientes e um treinador que já mostrou sua capacidade de reverter situações adversas. Em ambas as partidas contra o Galo, os sabaleros cresceram para buscar o resultado. E, na decisão única em Assunção, certamente contarão com o apoio da maioria nas arquibancadas, com a esperada invasão dos torcedores. A chance é única e os santafesinos agarram.