A notícia da morte de Kobe Bryant, vitimado em um acidente de helicóptero neste domingo, ao lado da filha Gianna e de outras sete pessoas, é daquelas que abalam em múltiplos sentidos. Dói saber a tragédia e dói ainda mais pensar em tudo o que o americano, aos 41 anos, poderia viver ao lado de sua família e de seus amigos. A perda se sente não apenas pela figura lendária que Kobe representa ao basquete, mas também por sua personalidade e por suas ações filantrópicas. O luto vai muito além das quadras. O legado do craque dos Lakers transcende a modalidade, se espalha por todos os esportes através do exemplo que fica – inclusive, a outras áreas da sociedade. O futebol igualmente lamenta, sobretudo pela paixão especial que o atleta tinha pela bola que rola nos gramados.

Kobe aprendeu a apreciar o futebol por interferência da carreira de seu pai. Joe Bryant também atuou na NBA, mas passou oito anos defendendo clubes de basquete italianos, a partir de 1984. No país, o jovem Kobe pôde acompanhar os anos áureos da Serie A e tomou gosto pelo novo esporte. Começou a jogar como goleiro, mas aprimorou sua habilidade o suficiente para avançar ao meio-campo. E, em sua opinião, os movimentos desenvolvidos no futebol o auxiliaram dentro das quadras de basquete.

Os anos vividos na Itália deixaram marcas perenes em Kobe Bryant. Por ter visto de perto o Milan de Arrigo Sacchi, o americano começou a torcer pelo clube. No entanto, o prazer pelo futebol-arte também o levou a adotar o Barcelona como time. Não negava ainda sua torcida à seleção americana, presente até na Copa do Mundo de 2014.

O astro do basquete, além do mais, emprestava sua imagem a ações publicitárias no futebol, participando de campanhas da Nike e da Panini. Sentia-se à vontade até para dar seus pitacos sobre a modalidade. E, há pouco mais de uma semana, chegou a expandir seus laços com a Major League Soccer, através de uma empresa da qual era investidor.

Tal paixão de Kobe o tornava também um personagem querido e relativamente frequente aqui na Trivela. Para homenageá-lo, relembramos texto de Bruno Bonsanti publicado em novembro de 2015, que detalhava como iniciou sua ligação com o futebol. Descanse em paz, lenda. E obrigado por todos os sonhos que alimentou.

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Kobe Bryant, da Major League Soccer (Foto: Divulgação)

O principal esporte no coração de Kobe Bryant é o basquete. O segundo é o futebol

Por Bruno Bonsanti, em 30 de novembro de 2015

Não que fosse segredo para alguém, mas Kobe Bryant, antes de agradecer aos torcedores do Los Angeles Lakers ou aos tantos companheiros que o acompanharam durante 20 anos de carreira na NBA, declarou o seu amor pelo próprio jogo. Com um poema, publicado no site The Player’s Tribune, fez tributo ao basquete, pelo qual deu tudo, “minha mente e meu corpo, meu espírito e minha alma”.

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A bola que pinga, bate na tabela e escorrega pelas redes é a grande paixão da sua vida. A que rola pelos gramados, pelo menos no âmbito dos esportes, é a segunda. Kobe é um confesso torcedor de futebol, graças aos oito anos em que passou morando na Itália quando era criança, acompanhando o pai que trocou a NBA pela liga italiana. “Quando eu aparecia no parque para jogar basquete, tinha aquelas traves de futebol. Tinha umas 12 crianças jogando futebol. Não ia voltar para casa”, disse, nessa entrevista abaixo.

Kobe começou a sua “carreira” de jogador de futebol no gol. Afinal, cometeu aquele erro crasso de quem quer se enturmar em uma pelada. “Perguntavam se eu sabia jogar, disse que não, então disseram: ‘ok, pernas longas, braços longos, fica no gol’. Foi assim por um ano e meio”, completou. À medida que foi aprendendo a tratar melhor a bola com os pés, avançou para o meio-campo.

“Eu não era nada espetacular. Eu tinha momentos em que fazia coisas loucas que realmente não eram de propósito. Eu fazia uma grande jogada sem intenção”, afirmou ao Chicago Tribune. Ele também contou como o futebol o ajudou a melhorar no basquete: “Eu fico confortável com a movimentação dos pés do basquete porque eu joguei futebol. Trocar de ritmo e de velocidade, ficar confortável com meu pé direito como apoio, ou com meu pé esquerdo como apoio”.

Kobe cresceu na época em que o Milan do trio de holandeses dominava a Itália, e naturalmente virou torcedor dos rossoneri, como deixou claro nessa visita a Milanello. “Quando eu era pequeno, via Gullit, Rijkaard, Van Basten, Maldini. Sempre foi meu time favorito. Em Los Angeles, eu tenho um cachecol do Milan e uma camiseta pendurados do meu armário no vestiário”, afirmou, nessa entrevista à TV do clube (clique no “cc” para legendas em inglês”).

Se bem que, em uma ação da revista ESPN, em 2011, Kobe admitiu também gostar bastante do Barcelona, e ainda se divertiu driblando crianças e dando uns chutes a gol.

Em 1991, a família Bryant voltou aos Estados Unidos, quando Kobe tinha apenas 13 anos. A situação na Filadélfia era contrária à da Itália: se fosse em busca de futebol, o mais provável é que encontrasse jovens jogando basquete. E passou a se dedicar totalmente ao esporte que o consagrou, mas sem esquecer o futebol. Veio ao Brasil para a Copa das Confederações e para a Copa do Mundo do ano passado (até colecionou o álbum). “É meu esporte favorito”, disse em entrevista ao site da Fifa.

Mais do que o basquete? Tá bom.

PS: Para mais momentos de Kobe Bryant com o futebol, sugerimos esse post do excelente Copa 90.