Este editorial é normalmente enviado exclusivamente aos nossos apoiadores. Entretanto, diante da gravidade da pandemia de Coronavírus, decidimos publicar também no site. A informação precisa ser disseminada o máximo possível, sem obstáculos.

Estamos vivendo uma pandemia do COVID-19, conhecido como Coronavírus, como foi confirmado pela Organização Mundial de Saúde (OMS), nesta quarta-feira. Enquanto isso, o meio do futebol bate cabeça sobre o que fazer. Na Itália, todas as atividades foram suspensas. A Espanha suspendeu a liga e várias atividades. A França restringiu, a Alemanha também. Jogos da Liga Europa foram cancelados, outros tiveram portões fechados. Na Argentina, medidas estão sendo tomadas para interromper atividades públicas – e isso afetará o futebol também. A Conmebol pediu a suspensão das Eliminatórias da Copa. Tudo isso, porém, ainda é pouco. O futebol precisa parar, e em todos os lugares.

Temos que parar de agir como se vivêssemos uma situação normal. Estamos em uma situação de pandemia de um vírus que se espalha rápido demais e que precisa ser contido com medidas fortes. Os países que demoraram a agir estão sofrendo consequências dramáticas, como a Itália. Na América do Sul, estamos em um estágio inicial, mas é justamente por isso que as medidas precisam ser tomadas com rapidez. Para evitar que tenhamos problemas maiores.

Mesmo na Europa, onde a situação já é bem mais grave, as autoridades ainda parecem não ter entendido a necessidade e gravidade da situação. Em Anfield, tivemos um jogo eletrizante com arquibancadas lotadas, com direito a torcida visitante vinda de Madri. Em Paris, embora a prefeitura tenha indicado portões fechados, autorizou que a torcida se reunisse do lado de fora para acompanhar o time, o que não faz sentido algum.

No mundo, já passamos de 127 mil casos, segundo dados da Universidade Johns Hopkins. Os países mais afetados, até agora, são China (mais de 80 mil casos) e Itália (12 mil). Irã (10 mil) e Coreia do Sul (quase 8 mil casos) vivem situações alarmantes. França (2.284), Espanha (2.227) e Alemanha (2.078) vivem aumentos exponenciais no número de casos. Os Estados Unidos têm, neste momento, uma das curvas de crescimento mais altas e já chegaram a 1.323 casos. A expectativa, porém, é que haja muito mais, porém, o número de exames realizados no país é o menor entre todos os afetados pelo vírus – por lá, não há Sistema Público de Saúde, o SUS, os exames são pagos, e os protocolos para ser realizado o exame são muito restritos. É possível que tenhamos muito mais casos, eles só não estão sendo examinados.

Um exemplo é que o estado de Nova York não parece estar preparado para fazer o número necessário de exames. Segundo o New York Times, o governo do Estado prometeu 1.000 exames por dia, mas ainda não conseguiu. O país não parece preparado para lidar com um surto, mesmo que ele já seja uma realidade por lá.

O Brasil tem, no momento, 69 casos confirmados. Pode parecer pouco, mas a expectativa, olhando para o que aconteceu nos outros países, não é nada boa. Na noite de quarta-feira, o Ministro da Saúde do Brasil, Luiz Mendetta, se reuniu com os presidentes da Câmera e do Senado e disse que, a partir da semana que vem, a contaminação pelo Coronavírus se dará em progressão geométrica, que a situação é alarmante e que o país tem que se preparar. A informação é da Rádio Senado, órgão oficial da casa. Mandetta fez um apelo pedindo recursos e disse que o SUS não vai suportar toda a demanda. Ele anunciou que a Agência Nacional de Saúde vai obrigar hospitais privados e planos de saúde a atenderem os pacientes e a lidarem com tudo o que diz respeito ao Coronavírus. Nesta quinta-feira, deve ser feita uma Medida Provisória que libera R$ 5 bilhões emergenciais para a saúde.

Países como Japão, Cingapura e Coreia do Sul conseguiram conter a explosão de casos com medidas efetivas de quarentena, ainda cedo. A América do Sul precisa aprender com isso, e, aparentemente, países como a Argentina aprenderam. O governo de Buenos Aires suspendeu atividades e definiu que os jogos da Copa da Superliga na região terão portões fechados por precaução.

A Uefa anunciou nesta quinta-feira uma discussão com seus acionistas e deverá em breve definir a suspensão das suas competições. A Conmebol, incrivelmente, parece também estar levando a sério as recomendações. Por isso mesmo, é bom que as competições sejam suspensas no continente. Viagens internacionais se tornaram um fator de risco para este momento. E o Brasil deveria avaliar se vale mesmo manter os jogos com público. É importante que todo mundo entenda que as medidas para conter o vírus serão mais eficazes se começarem cedo.

Deixamos vocês com o pronunciamento dado por Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, anunciando o quão sério é o COVID-19 e por que ele está sendo tratado como uma pandemia. E também deixamos o nosso apelo: governos e dirigentes responsáveis pelos campeonatos: tomem medidas urgentes, antes que tenhamos problemas maiores. O futebol tem que parar.

“Boa tarde,

Nas últimas duas semanas, o número de casos de COVID-19 fora da China aumentou 13 vezes e o número de países afetados triplicou. Atualmente, existem mais de 118 mil casos em 114 países e 4.291 pessoas perderam a vida. Outras milhares estão lutando por suas vidas em hospitais.

Nos próximos dias e semanas, esperamos ver o número de casos, o número de mortes e o número de países afetados aumentar ainda mais. A OMS está avaliando esse surto 24 horas por dia e nós estamos profundamente preocupados com os níveis alarmantes de disseminação e gravidade e com os níveis alarmantes de falta de ação. Portanto, avaliamos que a COVID-19 pode ser caracterizada como uma pandemia.

Pandemia não é uma palavra a ser usada de forma leviana ou descuidada. É uma palavra que, se mal utilizada, pode causar medo irracional ou aceitação injustificada de que a luta acabou, levando a sofrimento e morte desnecessários.

Descrever a situação como uma pandemia não altera a avaliação da OMS sobre a ameaça representada por esse vírus. Não altera o que a OMS está fazendo e nem o que os países devem fazer.

Nunca vimos uma pandemia provocada por um coronavírus. Esta é a primeira pandemia causada por um coronavírus. E nunca vimos uma pandemia que, ao mesmo tempo, pode ser controlada.

A OMS está em modo de resposta completa desde que fomos notificados dos primeiros casos. E pedimos todos os dias que os países tomem medidas urgentes e agressivas. Tocamos a campainha do alarme alta e clara.

Como eu disse na segunda-feira, apenas analisar o número de casos e o número de países afetados não conta a história completa. Dos 118.000 casos notificados globalmente em 114 países, mais de 90% dos casos estão em apenas quatro países, e dois deles – China e República da Coréia – têm epidemias em declínio significativo.

Ao todo, 81 países não notificaram nenhum caso e 57 países notificaram 10 casos ou menos. Não podemos dizer isso em voz alta o suficiente ou com clareza ou frequência suficiente: todos os países ainda podem mudar o curso dessa pandemia.

Se os países detectam, testam, tratam, isolam, rastreiam e mobilizam sua população na resposta, aqueles com um punhado de casos podem impedir que esses casos se tornem clusters (aglomerados de casos) e esses clusters se tornem transmissão comunitária. Mesmo os países com transmissão comunitária ou grandes grupos podem virar a maré contra esse vírus.

Vários países demonstraram que esse vírus pode ser suprimido e controlado. O desafio para muitos países que agora estão lidando com grandes clusters (aglomerado de casos) ou transmissão comunitária não é se podem fazer a mesma coisa, mas se farão.

Alguns países estão lutando com a falta de capacidade. Alguns países estão lutando com a falta de recursos. Alguns países estão lutando com a falta de resolução. Somos gratos pelas medidas adotadas no Irã, na Itália e na República da Coreia para retardar o vírus e controlar suas epidemias. Sabemos que essas medidas trazem uma grande carga para as sociedades e economias, assim como na China.

Todos os países devem encontrar um bom equilíbrio entre proteger a saúde, minimizar as disrupções econômicas e sociais e respeitar os direitos humanos. O mandato da OMS é a saúde pública. Mas estamos trabalhando com muitos parceiros em todos os setores para mitigar as consequências sociais e econômicas dessa pandemia.

Esta não é apenas uma crise de saúde pública, mas uma crise que afetará todos os setores – portanto, todos os setores e indivíduos devem estar envolvidos nesta luta. Eu disse desde o início que os países devem adotar uma abordagem de todo o governo e sociedade, construída em torno de uma estratégia integral para prevenir infecções, salvar vidas e minimizar o impacto.

Deixe-me resumir em quatro áreas principais:

Primeiro, preparem-se e estejam prontos.

Segundo, detectem, protejam e tratem.

Terceiro, reduzam a transmissão.

Quarto, inovem e aprendam.

Lembro a todos os países que estamos pedindo que ativem e ampliem seus mecanismos de resposta a emergências;

Informem profissionais sobre os riscos e como podem se proteger – esse é um assunto de todos;

Encontrem, isolem, testem e tratem todos os casos, rastreando todos os contatos; Preparem seus hospitais;

Protejam e capacitem seus profissionais de saúde.

E vamos cuidar uns dos outros, porque precisamos uns dos outros.

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Houve muita atenção em uma palavra. Deixe-me apresentar outras palavras que importam muito mais e que podem resultar em ações:

Prevenção.

Preparação.

Saúde pública.

Liderança política.

E acima de tudo, pessoas.

Estamos juntos para fazer a coisa certa, com calma, e proteger os cidadãos do mundo. É possível.

Obrigado.”

[Nota 1: A tradução do pronunciamento foi feita pela Representação da Organização Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial da Saúde no Brasil a título informativo, não se trata de tradução oficial]

Leia a nota no site da OMS