O futebol “negócio” e o futebol “espetáculo” segundo José Saramago

Saramago não era exatamente um apaixonado por futebol, mas tinha visões interessantes sobre o esporte mais popular do mundo

“O que as vitórias têm de mau é que não são definitivas. O que as derrotas têm de bom é que também não são definitivas”. A frase poderia ter sido cunhada por um grande técnico de futebol. Um grande pensador do esporte. Na verdade, é atribuída a um dos maiores nomes da literatura em língua portuguesa. E teria sido dita por José Saramago em uma conversa informal com ninguém menos do que Luís Figo, após um infortúnio da seleção portuguesa. Aspas para qualquer jogador carregar pelo resto da vida.

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Saramago não era exatamente dos mais apaixonados do futebol, mas tinha sua relação com o esporte. Filho de um benfiquista fanático, chegou a ser sócio do clube, mas não frequentou as arquibancadas por tanto tempo. Com o passar dos anos, desanimou-se. Tanto com a espetacularização quanto com a mercantilização do jogo. Ainda assim, mostrava-se um daqueles que gostavam do futebol bem jogador.

Abaixo, reproduzimos alguns trechos da entrevista de Saramago à extinta “A Bola Magazine”, concedida em 1998 – logo após se tornar o primeiro escritor em língua portuguesa a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura. Fala sobre as suas visões sobre o esporte, assim como a presença do futebol nos livros. É óbvio, você não precisa concordar com tudo o que ele diz. Mas é sempre legal tentar entrar na mente de um dos maiores nomes da literatura dos últimos 100 anos, ainda mais em um assunto tão cotidiano. No dia em que a morte de Saramago completa cinco anos, fica a homenagem:

Porque é que o esporte em geral e o futebol em particular têm sido incompatíveis com a literatura? Quer dizer, o esporte não é propriamente um tema literário, pois não?
Aqui entre nós, não é. Mas na América Latina é, e muito. Tem-se escrito, e muitíssimo bem, sobre o mundo do futebol.

Mas qual o porquê de esse fenômeno ser tão localizado?
Não sei como responder-lhe a essa pergunta. No caso da América Latina poderíamos atribuir isso à terrível paixão com que o jogo é vivido por lá.

Aparentemente, por aqui também há paixão…
…mas talvez não haja.

Que me lembre, dos 94 Prêmios Nobel da Literatura que o precederam, apenas um, Camilo José Cela, escreveu assumidamente em redor do esporte no seu “Onze Contos de Futebol”. Alguma vez lhe passaria pela cabeça escrever contos sobre futebol?
Não… Não. E a razão é simples: trata-se de um mundo que não conheço. Em princípio, quem escreve deve ter muito cuidado e não meter-se por assuntos que não domina. Da mesma maneira que não seria capaz de escrever um romance ou um conto em que o personagem principal fosse um presidente do conselho de administração de uma empresa multinacional, também não seria capaz de meter-me na pele de um dirigente de um clube de futebol ou de um jogador de futebol.

José  Saramago  no  SESC

O distanciamento entre si e o esporte é assim tão grande?
Bom, eu joguei tênis durante muitos anos, vivia na Parede e tinha acesso fácil às quadras. Nado, como qualquer pessoa nada, pratiquei um esporte menos que amadorístico, as mudanças da minha vida afastaram-me da prática desportiva. Mas distanciamento não posso dizer que haja. Sou dos que assistem aos espetáculos confortavelmente sentados frente à televisão. Gosto de ver umas modalidades bem menos que outras. O salto em comprimento, por exemplo, aborrece-me porque é excessivamente repetitivo. Mas aprecio as corridas. As corridas que não são de longa distância, porque essas são excessivamente táticas, deixando a resolução para as últimas voltas, dando vontade de perguntar para que é que se correram todas as voltas anteriores. O futebol tem o velho problema: ou é bem ou mal jogado.

Tal como os livros. Ou são bem ou mal escritos…
E, da mesma maneira que um livro mal escrito se torna entediante, também me sucede estar a ver um jogo de futebol e deixá-lo a meio. Além disso, o futebol de hoje tem uma coisa que não suporto e que é o jogo violento. Não o jogo violento no sentido… razoável. Não é preciso embrulhar os jogadores em algodão-em-rama. Mas existe uma violência, assente na crueldade, que não aceito. Que me incomoda.

Já li, numa entrevista que deu, se não me engano ao Baptista-Bastos, que o futebol deixou de exercer em si qualquer atração. Qual foi o porquê da desilusão? Houve alguma razão especial para isso?
Não. Eu fui sócio do Benfica com os meus oito ou nove anos. Por influência do meu pai, claro, ele era um benfiquista ferrenho, no tempo do Estádio das Amoreiras. Mas depois as mudanças de vida levaram-me por outros caminhos. Não me apetecia estar a sair de casa para ver um jogo. Nunca fui suficientemente entusiasta para andar de bandeira e cachecol e toda essa parafernália que fez com que o espetáculo se tenha deslocado do campo para as arquibancadas. O que, aliás, está de acordo com os atuais costumes do mundo. Além do mais desagradei-me…

Também não quero estar aqui com a conversa saudosista do “antigamente é que era bom”. Mas a verdade é que, nessa época, o jogador tinha o seu clube, e clube e jogador estavam pegados um ao outro. A camisa era uma coisa respeitável. Quase como uma outra bandeira. E o Benfica viveu o orgulho de só ter jogadores portugueses… Num tempo não muito distante. E agora o que é que acontece? Caiu-se num exagero. Onde estão hoje o Benfica, o Sporting, o Porto? O futebol não passa de um negócio. Desapareceu uma certa solidariedade de grupo. Isso fez-me desinteressar pelo futebol, mas também é certo que nunca fui um grande aficionado.

saramagoAFP

É o autor do conceito do transiberismo, o que para a questão que lhe quero colocar vai dar ao mesmo. Quando se trata de uma Copa do Mundo, por quem torce: pelos portugueses, pelos ibéricos, pelos lusófonos?
Eu defendo que devemos sair deste pequeno quintal que é o nosso e pensarmos que estamos numa realidade maior que é a Península Ibérica. Mas também não é ficar por aí. Olhar para o outro lado do Atlântico, para a América, para a África. E esta recente cimeira Ibero-Americana fez-nos perceber que podemos esperar do futuro algumas coisas magníficas nesse domínio, logo veremos o quê. Quanto ao que me pergunta, enfim, eu continuo a ter uma forte costela patriótica. Agora se são, por exemplo, espanhóis a defrontar alemães, eu fico do lado dos espanhóis, naturalmente. O que também não significa muito, porque prefiro sempre aqueles que fazem o seu trabalho bem feito. E se uma boa equipe alemã joga com uma boa equipe portuguesa, vejo por vezes a minha preferência cair para aquele que está a jogar melhor, independentemente do patriotismo. Com uma exceção, em todo o caso: quando um pequeno joga com um muito grande, mesmo que jogue mal estou a favor do pequeno.

O poeta T. S. Eliot, por acaso também ele Nobel lá pelos idos de 48, dizia que “o futebol é um elemento fundamental da cultura contemporânea”. Que comentário lhe merece esta frase?
O comentário que essa frase me merece é o de que nem sempre os poetas têm razão. Essas coisas são sempre muito pessoais. E nada pior do que as citações dos escritores. Primeiro, porque correspondem a uma ideia pessoal; depois, porque as formulam como se fossem ideias universais. O futebol converteu-se num espetáculo e já nada tem praticamente de esporte. Apenas isso.