O primeiro passo para resolver um problema é reconhecer que ele existe e, quando o assunto é racismo, o futebol italiano está fazendo exatamente o oposto. Da boca de dirigentes, jogadores, treinadores e torcedores, a reação a casos sérios de preconceitos tem sido normalizar um comportamento abjeto que, a esta altura da humanidade, já deveria ter sido erradicado, mas voltou a atacar no último fim de semana, contra Mario Balotelli, do Brescia, no jogo contra o Verona, e também na vitória da Roma sobre o Napoli.

O Verona publicou um comunicado no qual o seu presidente, Maurizio Setti, diz que pode “confirmar” que nada aconteceu. Em sua experiência, continuou Setti, os torcedores do clube que dirige são “irônicos, não racistas”. “Quando há episódios de racismo, somos os primeiros a condená-los, sempre o fizemos, mas é errado generalizar, falando de coros e fãs racistas, se em 20.000 pessoas entre público, uns dois podem ter, talvez, dito alguma coisa. Essas duas ou três pessoas, se existiram, estaremos prontos para pegá-las e puni-las porque condeno veementemente qualquer incidente desse tipo”, afirmou o dirigente.

Vídeos compartilhados nas redes sociais deixaram claro que eram mais do que “duas ou três pessoas” xingando Balotelli quando ele chutou uma bola em direção às arquibancadas e ameaçou abandonar a partida. Segundo o Guardian, jogadores do próprio Verona relataram o racismo ao árbitro e um observador independente presente no jogo incluiu os gritos preconceituosos em seu relatório.

Mas o treinador do time, Ivan Juric, seguiu a linha de que está tudo bem. “Não tenho medo de dizer que não houve gritos racistas. Eles podem ter vaiado ou tirado sarro de um grande jogador, mas não houve nada, nada. Eu já fui chamado de ‘maldito cigano’ várias vezes, e a Itália está caminhando à ideia geral de culpar estrangeiros por tudo, mas não foi o caso. Fico enojado com racismo, e serei o primeiro a condená-lo quando acontecer, mas não foi isso. Ele foi provocado com vaias e gritos sarcásticos, mas não eram racistas”, disse.

O discurso foi de mal a pior quando passou à boca do líder dos ultras do Verona, Luca Castellini. “Temos uma certa cultura. Somos uma torcida irreverente que tira sarro de jogadores carecas, com cabelos longos, do Sul e dos de cor, mas não o fazemos com instintos racistas ou políticos. É folclore, nada mais do que isso”, afirmou, antes de deixar florescer todos os seus instintos racistas ao questionar a nacionalidade de Balotelli: “Ele é italiano porque tem cidadania italiana, mas ele nunca será completamente italiano”.

Apenas o último dos exemplos

Moise Kean comemora gol pela Juventus contra o Cagliari (Foto: Getty Images)

Questionar o relato da vítima, creditá-las a apenas “uma ou duas pessoas” ou ter a cara de pau de dizer que as ofensas com cunho racial não têm “natureza racista”, porque são proferidas apenas para desestabilizar o adversário, ou minimizar o racismo de qualquer maneira, não são exclusividade do Verona.

No começo deste ano, Moise Kean foi alvo de ofensas racistas da torcida do Cagliari e, se esperava apoio do companheiro Leonardo Bonucci, recebeu uma repreensão. O experiente zagueiro, um dos líderes da Juventus, disse que o garoto tinha “50%” de culpa porque não deveria ter provocado os torcedores adversários ao comemorar um gol diante deles. O próprio Balotelli, na ocasião, disse que “a sorte de Bonucci é que eu não estava lá”.

No mesmo estádio, contra a mesma torcida, Romelu Lukaku foi recebido com imitações de macaco quando estava preparando-se para bater um pênalti contra o Cagliari e teve que ouvir dos seus próprios torcedores que, na Itália, o racismo não é um “problema real”. Em uma nota oficial, os ultras da Curva Nord continuaram dizendo que faz parte da cultura das arquibancadas italianas ser racista, não por racismo, mas para “desestabilizar o adversário”. E ainda tiveram a coragem de pedir, por favor, porque são babacas educados, que Lukaku encarasse aquela atitude dos fãs do Cagliari como “uma forma de respeito”.

O caso de Lukaku teve grande repercussão e motivou o presidente do Comitê Olímpico Italiano, Giovanni Malagò, a dizer que vaiar um jogador negro é errado, e se pelo menos ele tivesse parado por aí a declaração estaria perfeita, apesar de profundamente óbvia. “Mas erra ainda mais quem ganha 3 milhões de euros e se joga na área, talvez até feliz em conseguir o pênalti”, completou. Ou seja, racismo é chato, mas simular falta é que é realmente ruim.

Claudio Lotito, presidente da Lazio, clube frequentemente associado a movimentos de extrema-direita, talvez porque alguns de seus torcedores tenham o hábito de fazer saudações nazistas, chegou a dizer que “nem sempre gritos de macaco correspondem efetivamente a um ato discriminatório e racista” – corresponde, sim –  e que quando ele era pequeno pessoas com pele “normal” também eram alvo desse tipo de coisa para que “perdessem o gol à frente do goleiro”. E aí ficou um pouco mais difícil levá-lo a sério quando ele anunciou uma política de “tolerância zero” ao racismo, depois de 15 anos bastante tolerantes comandando o time da capital.

Chega, chega, chega

Mario Balotelli em atuação pela Itália (Getty Images)

Em 2013, Balotelli deu uma entrevista à Sports Illustrated. “Você não deleta o racismo. É que nem o cigarro. Você não pode parar de fumar se não quiser e você não pode parar o racismo se não quiser. Mas farei de tudo para ajudar”, disse. Nesses seis anos, o problema parece ter piorado no futebol italiano e atualmente acontece quase todas as semanas.

Balotelli, de volta à Itália após três anos na França, foi contundente ao responder às relativizações de Castellini, especialmente a parte em que diz que o jogador não é completamente italiano. “Aqui, meus amigos, não é mais sobre futebol. Está insinuando situações sociais e históricas maiores do que você. Você é muito baixo. Está enlouquecendo. Acorde, ignorante. Você é a ruína. Porque, quando Mario fazia, e garanto que continuará fazendo, gol pela Itália, tudo bem, certo?”, respondeu, por meio do Instagram.

O ato de chutar a bola às arquibancadas em uma explosão de raiva e quase abandonar a partida representa muito bem o que todos que querem ver o racismo erradicado sentem quando diferentes personagens do futebol italiano preferem minimizar, relativizar, justificar ou até ignorar o problema ao invés de atacá-lo com medidas enérgicas e punições mais rigorosas.

Porque o resultado orgânico desse discurso é que cada vez mais o racista se sinta confortável a expressar sua estupidez nos estádios da Itália porque ele sempre poderá se esconder na multidão ou haverá alguém para dizer que ele estava apenas tentando desestabilizar o adversário, mas não é realmente racista.

“Pessoas assim devem ser banidas da sociedade, não só do futebol. Chega de engolir. Chega de deixar para lá. Chega. Chega”, desabafou Balotelli.