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“Não vamos esquecer de apontar seu passe errado que ofereceu uma chance de gol a Cristiano Ronaldo, até porque é preciso lembrar que ele tem defeitos.” Com esta descrição, o L’Équipe iniciou a justificativa da nota 8 dada a Bruno Guimarães na vitória do Lyon por 1 a 0 sobre a Juventus, pela ida das oitavas de final da Champions League. Palavras que servem perfeitamente para começar a dar dimensão do impacto do início de trajetória do brasileiro na França.

Após apenas três jogos, o meio-campista se transformou em xodó do futebol franceses, conquistando torcedores, companheiros de clube, técnico e jornalistas. Ao escolher o Lyon em detrimento de equipes como Atlético de Madrid, Arsenal e Benfica, Bruno Guimarães não poderia ter sonhado com melhor início em terras francesas.

O jogador acertou a transferência no final de janeiro, durante o mercado de inverno europeu. À época, estava no meio da disputa do Pré-Olímpico com a seleção brasileira sub-23. Pela concorrência de clubes tradicionais, o torcedor do Lyon se empolgou com a contratação, mas não sabia exatamente o que esperar. O alto nível de desempenho de Guimarães no Brasil, afinal, era quase impossível de se acompanhar na França, onde não há transmissão oficial dos torneios brasileiros – mesmo a Libertadores teve apenas a final transmitida na TV francesa, no canal do L’Équipe.

Os compilados de jogadas mostravam um atleta de bom posicionamento, envolvimento constante nas jogadas, passes cortantes entre as linhas adversárias e inteligência tática acima do nível esperado para competições sul-americanas. E, em seus três primeiros confrontos com a camisa do Lyon, Bruno Guimarães entregou uma versão redondinha de tudo isso.

O brasileiro fez sua estreia diante do Metz, pela Ligue 1, em 21 de fevereiro. Com 66 toques na bola, foi o segundo jogador de meio pra frente com mais ações de jogo, atrás apenas do ala Léo Dubois. Liderou o número de desarmes, com seis, e foi o que teve maior precisão nos passes (88% de acerto, com 39 passes certos). A atuação lhe rendeu o prêmio de melhor jogador da partida logo em sua estreia. Um aperitivo do que estaria por vir.

Sua segunda partida com a camisa do OL foi logo sua estreia na Champions League, contra um gigante europeu, a Juventus. A expectativa antes do jogo era de que, mesmo sem viver grande temporada, o time italiano saísse com a vitória, até mesmo pelo próprio desempenho do Lyon até aqui em 2019/20. Em vez disso, os franceses fizeram sua melhor partida da campanha, saíram com a vitória por 1 a 0, e muito do que deu certo veio de Bruno Guimarães. Aqui, o prêmio oficial de melhor da partida foi destinado a Aouar, autor de uma jogada magistral na armação do gol de Lucas Tousart. Porém, o argumento de que o brasileiro foi mais uma vez o melhor em campo não seria absurdo.

Guimarães foi o atleta com mais desarmes pelo Lyon (3), venceu sete de oito duelos por baixo, acertou o maior número de passes pelo time francês (44, com precisão de 86%) e foi o jogador de meio ou ataque que mais tocou na bola pelo OL (68 ações). Em um lance emblemático de sua compostura com a bola, teve Cuadrado na sua cola na tentativa de saída do campo de defesa e, com dribles precisos, deixou o colombiano na saudade e lançou a bola a um companheiro.

Por fim, chegamos à terceira partida de Bruno Guimarães, o Dérbi dos Rhône-Alpes, contra o Saint-Étienne, no último domingo. Dando sequência à excelente semana, o Lyon dominou o rival local, venceu por 2 a 0, e aqui, de novo, o brasileiro saiu com o prêmio de melhor em campo. Sua influência no jogo foi ainda mais notável, com 104 ações de jogo, dez bolas recuperadas, 90 passes e 93,2% de acerto quando os passes foram no campo adversário.

A atuação lhe rendeu uma descontraída entrevista ao vivo no bastante popular Canal Football Club, programa de pós-jogo do Canal+. Em meio a sorrisos e muito confortável, conquistou a bancada do semanário também pelo seu jeito em frente às câmeras. “Muito carismático”, pontuou um dos comentaristas.

Quanto a seu desempenho em campo, os elogios foram ainda mais efusivos. A aprovação era unânime na mesa redonda. “Ele faz os outros melhores. Está o tempo todo disponível. Tem uma excelente leitura de jogo e também excelente tomada de decisão. Isso dá confiança aos outros no meio de campo”, definiu um. “Guimarães regula o jogo defensivo e também o ofensivo. (…) O Lyon, até que enfim, é um time equilibrado”, completou outro, atribuindo ao novo recruta os méritos por conectar tão bem os jogadores entre si.

Este último ponto, sobretudo, foi fácil de identificar durante todas as três partidas realizadas por Guimarães até aqui. Jogando ao lado de Tousart como meia central, com aproximação ainda de Houssem Aouar, descia o tempo todo próximo à zaga para puxar a transição ofensiva. Com o time tendo a posse da bola no campo adversário, dava opções como nenhum outro para receber os passes. Em um frame específico, a TV francesa destacava como o brasileiro olhava diversas vezes ao seu redor antes de fazer o movimento ideal para receber a bola.

Também no campo adversário, foram constantes as enfiadas de bola para o ataque de que o torcedor do Athletico Paranaense tanto sente falta.

Sua influência nos jogos do Lyon têm sido tão clara que, nessas três partidas, o torcedor lyonnais sequer sentiu falta de Maxence Caqueret no time titular, o que não é exatamente pouca coisa. Afinal, o garoto, de apenas 20 anos, vinha sendo uma das poucas boas notícias no conjunto de Rudi Garcia por sua qualidade técnica, desenvolvendo um laço potencializado pela origem do jogador, nascido em Vénissieux, no subúrbio de Lyon, e cria da base do clube.

Os elogios seguiram mesmo dias após o triunfo no clássico do último fim de semana. A France Football escreve que “havia um Lyon sem o Bruno Guimarães, durante seis longos meses de competição, e agora há um novo, com um rosto muito mais atraente”. Na emissora RMC Sport, os predicados não cessaram: “Bruno Guimarães está em todos os cantos”, “dá passes que quebram as linhas”, “teve uma adaptação imediata”, “tem uma potência, um carisma, tem simplicidade em seu jogo”, “ele permite aos outros ir bem, porque dá fluidez ao meio”.

Este último ponto tem sido bastante tocado, especialmente. De fato, a presença de Guimarães parece estar potencializando sobretudo os homens de meio de campo, Tousart e Aouar, com destaque para o fim da sobrecarga criativa que existia em cima do segundo. A impressão ressoa também nas palavras do técnico Rudi Garcia, que vê o trio se complementar. “A relação é boa. O Houssem (Aouar) é capaz de se projetar, o Lucas (Tousart) faz um trabalho enorme, e o Bruno administra as ações lá atrás”, analisou o treinador, reservando também, é claro, elogios específicos ao brasileiro: “Ele vê rapidamente o jogo e executa, o que não acontece com todos. Tem uma qualidade de passe muito precisa e só toca para trás se for obrigado”.

Rudi Garcia: “Nós o contratamos por isso, porque ele é capaz de jogar em pequenos espaços, dar fluidez ao jogo, não perde muito a bola. Tem sido interessante também na movimentação defensivo, com suas interceptações.”

O início fulminante começa a render frutos não só a Guimarães e seus companheiros, mas também a Juninho Pernambucano. O diretor esportivo foi fundamental na contratação do brasileiro, como o próprio jogador pontuou, e a chegada do meia é o grande golpe de mestre do dirigente desde que assumiu a função no clube para esta temporada. Alvo de críticas pela escolha de Sylvinho, agora ouve os aplausos pela “achado” genial.

Juninho, inclusive, já fez sua defesa justa à presença de Bruno Guimarães na seleção brasileira. Após a estreia brilhante do camisa 39 pela Champions League, contra a Juventus, o diretor revelou ao microfone do Esporte Interativo que César Sampaio, da comissão técnica de Tite, esteve presente no Estádio Groupama para acompanhar o jovem. Questionado sobre uma possível liberação do atleta para as Olimpíadas, cravou: “Acho que hoje ele subiu de patamar e já tem que pensar na seleção principal”.

Independentemente de seu futuro na Seleção, uma história ainda a começar, a relação com o Lyon deve ser a prioridade de Bruno Guimarães neste momento. E, sob esse ponto de vista, tem conduzido bem seus primeiros passos na França. Não bastassem as atuações quase irrepreensíveis em campo, fora deles o jogador ainda tatuou um leão no braço direito, levando o encantamento da torcida a outro patamar, melhor expresso em um dos comentários no Twitter: “Chegou o príncipe tão esperado desde o rei Juninho”.