Nos idos de 2012 eu era mais ou menos a mesma coisa que sou hoje: um jornalista preguiçoso, que acha que entende de futebol e gosta de arrumar confusão por assuntos bestas. A diferença é que naquela época eu tinha um blog na Trivela (e consequentemente no UOL) com o meu nome, e esse blog aumentava muito de audiência quando eu arrumava essas confusões. E isso, para quem gosta de confusão, é viciante.

LEIA TAMBÉM: Do nada às finais: a seleção feminina do Brasil 2004-08, da resistência e do brilho

Em 2012 eu era o que sou hoje: um homem branco heterossexual que sempre gostou de jogar futebol mas sempre foi muito, muito ruim. Em 2012 eu tinha duas filhas, hoje tenho três. Em 2012 eu morava em São Paulo, e, às vésperas de uma Olimpíada, escrevi que “futebol feminino é um saco”. Hoje eu moro fora de São Paulo, e tenho ingresso de temporada de um time de basquete feminino. E, às vésperas de outra Olimpíada, jamais escreveria uma bobagem dessas.

Este post aqui está sendo gestado faz tempo, percebe-se. Não desde 2012, porque em 2012 não estava claro para mim o papel do machismo no não desenvolvimento competitivo do esporte feminino. Ou talvez até estivesse, mas eu enxergava ali por um outro viés: se fosse bom, as pessoas assistiriam, e se as pessoas assistissem não haveria necessidade de apoio do poder público. Evidentemente, essa é uma conclusão obtusa, quase bisonha, porque considera o esporte apenas como produto de consumo. É, além de tudo, incoerente com o que a Trivela (e eu) sempre defendeu: investimento em esporte na base, para formar cidadãos e cidadãs, não para formar atletas de ponta.

Mas em 2012 eu escrevi isso aqui: “Aí o Brasil vai lá, ganha medalha e começa: “UM ABSURDO a CBF não apoiar o futebol feminino!”. Como se alguém assistisse algum jogo de futebol feminino. Como se futebol feminino não desse menos audiência que propaganda eleitoral gratuita.”

Bem, amigos, isso é uma bobagem. Uma inacreditável bobagem. Não interessa se alguém assiste futebol feminino, este não é, nem nunca foi o ponto. A CBF não tem que apoiar o que todos assistem, esses não precisam de apoio. Ela tem que apoiar justamente o que as pessoas não assistem. Por dois motivos: 1- porque precisa melhorar para ser mais assistido; 2- porque parte do motivo para as pessoas não assistirem é cultural, não tem a ver só com a qualidade do espetáculo, e isso também só vai mudar com o tempo – e com apoio.

Aí eu continuei assim: “Absurdo é o governo do Brasil, país com carências monstruosas, gastar dinheiro com esporte de alto rendimento. Ou então alguém achar que para não ser ‘machista’ tem que fingir que futebol feminino é legal.” Bem, em uma coisa eu concordo comigo mesmo: é um absurdo o governo gastar dinheiro com esporte de alto rendimento. Só que o futebol feminino, por mais alto que seja seu rendimento e ele é alto, não pode ser comparado com o masculino ou mesmo com o vôlei – masculino ou feminino. São muitíssimo poucas jogadoras que conseguem viver dele, e provavelmente não há 10 jogadoras brasileiras que estejam “ricas” com o futebol.

O segundo ponto, porém, é o mais importante: ninguém precisa “fingir que o futebol feminino é legal”. Ignorar, porém, as diferenças que fizeram com que o futebol – e o esporte – feminino seja muito menos competitivo do que o masculino é ignorar séculos de história em que os homens estiveram no centro de tudo e as mulheres relegadas à periferia.

Poucas pessoas vão dizer que assistir um jogo do New York Liberty, nesse momento um dos melhores times da WNBA, pode ser comparado com assistir um jogo do Golden State Warriors. Os homens erram menos, são mais atléticos, mais eficientes e mais competitivos. Mas façamos outra comparação: o New York Liberty, que briga pelo título, contra o New York Knicks da temporada passada, que era um time ruim e preguiçoso. Podemos usar o LA Sparks e o LA Lakers também. O time feminino é muito mais comprometido, tem chances de chegar ao título e seus jogos são muito mais interessantes porque atraem um público muito mais próximo, que realmente adora o time e o jogo, e não os turistas que lotam os jogos dos Knicks e aplaudem até “air ball”.

De modo que os dois argumentos centrais daquele texto deveriam causar vergonha a qualquer escriba – e causam a este aqui. Futebol feminino merece apoio mesmo que fosse ruim. E não é ruim, é só diferente.

TRIVELA FC: Conheça nosso clube, ganhe vantagens e faça a Trivela ainda mais forte