“Eu fundei o British Ladies Football Club com o intuito de provar ao mundo que as mulheres não são as criaturas ‘ornamentais e inúteis’ que os homens têm pintado. Devo confessar que, sobre todos os assuntos em que os sexos estão tão divididos, minhas convicções são pela emancipação. Espero pelo momento em que as mulheres se sentarão no Parlamento e terão voz nas negociações, especialmente nas principais”.

Em 1894, as mulheres criaram o seu primeiro clube de futebol. E as palavras de Nettie Honeyball, a ativista feminista responsável pela formação do British Ladies Football Club (e pseudônimo de Mary Hutson, capitã e secretária do time), seguem atuais 120 anos depois. O futebol feminino também representa uma busca por igualdades. Afinal, o simples direito de praticar a modalidade foi negado por décadas às mulheres. Inclusive no Brasil, onde o futebol feminino só deixou de ser proibido por lei em 1979. O que deveria ser uma liberdade simples sofria com o preconceito assinado pelo próprio poder público.

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A participação das mulheres nos estádios de futebol brasileiro se dá desde os primórdios. Não à toa, o termo “torcida” foi cunhado a partir das damas que, ansiosas com o jogo que rolava em campo, torciam as suas finas luvas nas arquibancadas. Entretanto, se a elitização do futebol dentro e fora de campo não durou muitos anos, o empecilho para que as mulheres pudessem calçar chuteiras perdurou por décadas. Até os anos 1980, as iniciativas de futebol feminino no Brasil eram raras e, pior do que isso, marginais perante a legislação desportiva.

A formação do Canarinhos na década de 1960
A formação do Canarinhos na década de 1960

O registro de partidas femininas é pontual, datado desde 1913. Eram amistosos e jogos beneficentes, que muitas vezes dependiam de comunidades religiosas, e mesmo assim eram tratados de maneira curiosa ou repreendidos pelo moralismo. Um dos raros times que perdurou foi o Canarinhos, fundado em 1965 na Ilha do Governador, no Rio de Janeiro. Segundo o pesquisador Laércio Becker, no livro ‘Do Fundo do Baú’, a equipe chegou a excursionar por algumas cidades do Sudeste, disputando confrontos entre os seus próprios quadros. Contudo, o clube acabou fechando as portas três anos depois.

O Canarinhos, aliás, atuava na completa ilegalidade. Em 1940, o interesse pelo futebol feminino começava a aflorar no país. Em maio, um amistoso entre cariocas e paulistas chegou a ser disputado no recém-inaugurado Pacaembu, causando intenso debate na imprensa entre os veículos que apoiavam a iniciativa e os que pregavam o moralismo. Já o Rio de Janeiro contava com 10 equipes amadoras no subúrbio. No entanto, o anúncio publicado no Correio da Manhã pelo Primavera Futebol Clube, convocando moças de 15 a 25 anos para compor o seu elenco, incomodou alguns grupos da sociedade. A ponto de endereçarem uma carta ao gabinete presidencial de Getúlio Vargas, conforme artigo do historiador Fábio Franzini.

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“Refiro-me, Senhor Presidente, ao movimento entusiasta que está empolgando centenas de moças, atraindo-as para se transformarem em jogadoras de futebol, sem se levar em conta que a mulher não poderá praticar esse esporte violento sem afetar seriamente, o equilíbrio fisiológico das suas funções orgânicas, devido à natureza que a dispôs a ser mãe. (…) Ao que dizem os jornais, no Rio já estão formados nada menos de 10 quadros femininos. Em São Paulo e Belo Horizonte também já estão constituindo-se outros. E, neste crescendo, dentro de um ano é provável que, em todo o Brasil, estejam organizados uns 200 clubes femininos de futebol, ou seja: 200 núcleos destroçadores da saúde de 2.200 futuras mães, que, além do mais, ficarão presas de uma mentalidade depressiva e propensa aos exibicionismos rudes e extravagantes”, dizia a carta, assinada por um cidadão de nome José Fuzeira.

O debate sobre o futebol feminino chegou à Divisão de Educação Física do Ministério da Educação e Saúde. E a visão apresentada na carta acabou ratificada pela Subdivisão de Medicina Especializada, assim como por outros setores conservadores. “Efetivamente, o movimento que se esboçou nesta capital para a formação de vários quadros femininos de futebol, e que tomou corpo com o apoio que alguns jornais cariocas deram, é desses que merecem a reprovação das pessoas sensatas, já pelo espetáculo ridículo que representa a prática do ‘association’ pelas mulheres, como também pelas razões de ordem fisiológica, que desaconselham sumariamente um gênero de atividade física tão violento, incompatível mesmo com as possibilidades do organismo feminino”, escreveu o órgão estatal.

Radar, a primeira potência do futebol feminino no Brasil
Radar, a primeira potência do futebol feminino no Brasil

O preconceito se endossava a partir dos ideais de eugenia propagados na época. E chegou à legislação em abril de 1941, com o Decreto-lei que instituiu o Conselho Nacional de Desportos. O artigo 54 afirmava que “às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza, devendo, para este efeito, o Conselho Nacional de Desportos baixar as necessárias instruções às entidades desportivas do país”. A partir do decreto, o moralismo e o machismo se impuseram baseados em uma suposta base científica – a serviço do autoritarismo governamental. Impediram que o futebol feminino eclodisse quando começava a se popularizar o interesse.

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Raras exceções, incluindo uma partida beneficente entre atrizes do teatro de revista em 1959, o futebol feminino dependia da subversão e de iniciativas isoladas. Até que, em 1965, o regime militar tornou a proibição expressa pelo CND, através da Deliberação nº. 7 de 1965: “Não é permitida a prática feminina de lutas de qualquer natureza, futebol, futebol de salão, futebol de praia, polo, halterofilismo e beisebol”. As mulheres no futebol estavam ainda mais relegadas à ilegalidade – o que ajudou a abreviar, por exemplo, a experiência do Canarinhos.

A abertura ao futebol feminino só aconteceria em um contexto de aumento das liberdades individuais, nos últimos anos do regime militar, quando as mulheres também passavam a ignorá-la e as equipes começavam a surgir em algumas cidades. Em 1979, a deliberação acabou revogada, o que permitiu a criação das primeiras ligas para mulheres. Formado na Praia de Copacabana, o Esporte Clube Radar despontou como a primeira potência do futebol feminino no Brasil. Fomentado pelo empresário Eurico Lyra, o time serviu de base na formação das primeiras seleções brasileiras – cedendo jogadoras célebres como Roseli, Fanta e Meg. Também se tornou a primeira equipe feminina a excursionar no exterior e até mesmo venceu o ‘Mundialito de Clubes’ em 1986, batendo o Bayern de Munique na final. Na esteira, vários clubes também abriram os seus departamentos de futebol feminino. Corinthians, São Paulo, Inter, Atlético Mineiro, Cruzeiro, Goiás, Tuna Luso e Portuguesa chegaram ao menos às semifinais da Taça Brasil de Futebol Feminino, que durou de 1983 a 1988.

Porém, o incentivo ao futebol feminino no Brasil dependeu de iniciativas pouco duradouras. Ao contrário do preconceito, muito mais constante, sofrido por suas jogadoras. Mais de três décadas depois da legalização da prática do esporte no país, as mulheres superaram algumas barreiras. Ainda assim, há uma longa caminhada pela frente para consolidar conquistas e alcançar outras. Marta, Formiga, Sissi, Kátia Cilene, Roseli e outros grandes nomes fizeram muito pela representatividade feminina nos gramados. Que elas permaneçam como exemplos de uma luta diária, e distante de se limitar apenas aos estádios. Afinal, a busca por liberdades está no DNA do futebol feminino desde os seus primórdios, inclusive no Brasil.

No 8 de março, é preciso também não perder de vista o verdadeiro significado do ‘Dia Internacional da Mulher’ e relembrar o episódio que marcou a data, com a morte de 149 operárias em um incêndio em Nova York. Um episódio de significado além da tragédia.