São poucos os jogadores que se atrevem a falar do fardo psicológico que uma carreira no futebol pode trazer junto dos louros e da riqueza. Este peso por vezes pode ser muito grande para se suportar, e André Schürrle parece ter chegado a seu limite bem cedo. Aos 29 anos, o campeão do mundo pela Alemanha anunciou a sua aposentadoria dos gramados.

Depois de rescindir seu contrato com o Borussia Dortmund a um ano do fim do vínculo por decisão mútua na quarta-feira (17), Schürrle anunciou nesta sexta-feira (17), em entrevista ao Der Spiegel, sua escolha de pendurar as chuteiras, algo que vinha amadurecendo há um bom tempo.

“Eu desisto. Essa decisão estava amadurecendo dentro de mim há um longo tempo. Não preciso mais de aplausos”, explicou o agora ex-jogador.

Em um depoimento sobre o quão duro o mundo do futebol pode ser para quem está envolvido em seu cerne, o alemão, que acumulou passagens por Dortmund, Chelsea, Wolfsburg e Spartak Moscou, entre outros, demonstrou ressentimento com o clima que cerca o esporte.

“Você precisa sempre desempenhar certo papel para sobreviver neste mundo, do contrário você perde o seu emprego e não consegue outro. (…) Apenas o desempenho dentro de campo conta. Vulnerabilidade e fraquezas não devem existir em momento algum.”

As críticas que recebia, reconhece, também o afetavam e tiveram peso acumulado em sua decisão: “Houve coisas que eu levei muito a sério. Você é ou um tolo ou um herói. Não há nenhum meio termo”.

Schürrle disse que se sentia sozinho na maior parte do tempo, especialmente com “os baixos sendo cada vez mais baixos e os altos se tornando mais escassos”. Ele entende que sua decisão pega muita gente de surpresa, até porque “a expectativa da sociedade é que você não pode parar até que esteja na casa dos 30 e poucos anos”.

Revelado em 2009 pelo Mainz 05, o atacante não demorou para chegar à seleção alemã, ganhando sua primeira convocação já em 2010. No Bayer Leverkusen, a partir de 2011, estourou de vez no cenário nacional. Pela seleção, ia acumulando partidas e gols, entre amistosos e jogos das eliminatórias para a Euro 2012.

Em 2013, teria sua primeira aventura internacional ao escolher ir para Londres defender o Chelsea. No clube inglês, onde ficou por duas temporadas sob o comando de José Mourinho, revela que foi muito infeliz, mesmo com a conquista da Copa do Mundo entre as duas campanhas: “Eu não queria mais jogar futebol, estava completamente acabado”.

A façanha no Brasil, que incluiu a goleada por 7 a 1 sobre o Brasil na semifinal, em que Schürrle marcou dois gols, já no segundo tempo, evidentemente foi o ponto alto da carreira do jogador, que descreve como um “refúgio” da rotina pesada no clube. A conquista da Copa, segundo ele, foi “o momento da minha vida”.

Schürrle saiu do Chelsea em baixa e, no início de 2015, no Wolfsburg, já pensava em “largar tudo”. Seguiu firme, fez um bom trabalho pelos Lobos e conseguiu uma transferência ao Dortmund no ano seguinte. Em 2017, sofreu com lesões e, mais uma vez pensou em se aposentar. Desde então, não recuperou seu melhor nível e teve empréstimos de pouco sucesso para Fulham e Spartak Moscou, onde disputou sua temporada derradeira.

Mesmo com uma carreira incomumente curta, Schürrle pode deixá-la realizado. Ele mesmo diz que todo o dinheiro que ganhou “é um enorme alívio”. Mas, como indicou ao dizer que não precisava mais de aplausos, também deixa sua marca em campo. Conquistou duas Copas da Alemanha, por Wolfsburg (2015) e Borussia Dortmund (2017), uma Premier League (2015) e, é claro, a Copa do Mundo de 2014. Mais do que a sensação do que poderia ter sido se tivesse tido menos problemas com lesão, Schürrle deixa uma reflexão importante aos profissionais do esporte.