O futebol da Escócia sempre foi independente, mas saída do Reino Unido deve afetá-lo

Nesta quinta-feira, os escoceses decidirão o destino de sua nação. “A Escócia poderá se tornar um país independente?”, é a pergunta que os resistentes do país, quatro milhões de eleitores, responderá nas urnas. Caso o Sim vença, a economia e a política deverão mudar substancialmente a partir da separação do Reino Unido. Uma decisão cujo grande apelo é mesmo a exaltação da cultura e das raízes nacionais, bem como as liberdades conquistadas.

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Por ter se organizado historicamente como escocês, e não britânico, o futebol não sofrerá mudanças bruscas se a independência prevalecer na eleição – ao contrário, por exemplo, do que ocorrerá nos esportes olímpicos. No entanto, também haverá impacto sobre o futebol. Afinal, a organização da sociedade na Escócia passará a outra realidade, e qualquer setor embarca neste processo. As finanças dos clubes e o próprio comportamento nos estádios poderão enfrentar transformações, da mesma forma que o distanciamento do Reino Unido poderá atrapalhar anseios de Celtic e Rangers. Um novo mundo que os escoceses descobrirão a partir de um novo país.

Uma nova nação com novos jogadores?

A abertura à cidadania escocesa não será tão diferente se o Sim vencer o referendo. Além de quem nasceu no território e de seus descendentes diretos, poderiam se tornar escoceses os britânicos que moram regularmente no país. A dupla cidadania seria permitida com algumas restrições, enquanto o norte planeja manter um acordo de livre trânsito com o sul. Os escoceses que conseguirem manter o passaporte britânico não teriam problemas. Mas a saída do Reino Unido poderia acarretar uma série de mudanças para os demais.

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Ao se separar da Inglaterra, a Escócia deixaria a União Europeia. Claro, o processo de entrada no bloco teria início imediatamente após a independência, mas a aceitação do novo país é vista com ceticismo. Se os separatistas vencerem, os políticos da UE não mudam o discurso de que a introdução da Escócia será como a de uma nação qualquer – o que pode levar alguns anos. Além disso, países com movimentos separatistas, sobretudo a Espanha, tendem a barrar os escoceses para não incentivar suas regiões a pedirem independência.

Neste caso, os jogadores da Escócia seriam tidos como estrangeiros nas ligas dos países da União. “Os jogadores escoceses vão precisar visto de trabalho para jogar na Inglaterra?”, pergunta-se o jornalista escocês Andrew Downie, correspondente da Reuters no Brasil. Se esse visto for realmente necessário, as rigorosas regras do futebol inglês fechariam muitas portas nos clubes ingleses, sempre os mais interessados em talentos do norte da Grã-Bretanha.

Scotland1Sem vender tantos jogadores para o vizinho do sul, os clubes do norte podem ter mais problemas para equilibrar as contas. Além disso, a própria liga escocesa teria que regulamentar a sua abertura aos jogadores europeus. Isso poderia, em longo prazo, até impulsionar o trabalho nas categorias de base, mas o impacto imediato seria menos positivo. Equipes escocesas teriam mais dificuldade de se reforçarem com estrangeiros e faturariam menos vendendo seus jogadores para a Inglaterra.

Já em relação à seleção, a independência poderá tornar a política de naturalizações da Escócia mais agressiva. Há um acordo implícito entre as nações que compõem o Reino Unido. Para que não haja desequilíbrio de forças, as seleções locais dificilmente naturalizam jogadores de países vizinhos. Uma herança que vem desde o início do futebol internacional e do British Home Championship, o campeonato de seleções mais antigo da história, criado em 1883. Por conta dessa tradição, mesmo craques galeses e norte-irlandeses que fizeram sua carreira na Inglaterra optam pela nacionalidade de origem.

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A partir da década de 1970, no entanto, foi aberta a convocação para jogadores que fossem descendentes diretos de determinada nacionalidade. Um artifício usado com moderação pelos escoceses, mas que ficou escancarado nos últimos anos. Até 1997, apenas dez jogadores de outros países britânicos (todos ingleses) haviam servido a Escócia. Desde então, a federação do norte passou a assediar mais os atletas do sul com ascendência escocesa. Foram 27 nestes últimos 17 anos, 11 deles a partir de 2010. Entre eles, jogadores que dificilmente defenderiam a seleção inglesa, como Steven Fletcher, Kris Commons, James Morrison e Phil Bardsley.

A independência da Escócia poderá encerrar em definitivo os cavalheirismos com a Inglaterra. Não quer dizer que haverá uma naturalização desenfreada, mas poderá abrir possibilidades à seleção escocesa. Por outro lado, a saída da Federação Escocesa concentra mais forças na Football Association no Reino Unido. Há quem sugira a união de Inglaterra, Gales e Irlanda do Norte para formarem uma só seleção, ainda que dificilmente as federações queiram perder autonomia. Algo mais próximo (mas não tanto assim) é a união dos três países, já que as ligas norte-irlandesa e galesa são irrisórias – e os únicos clubes galeses relevantes estão inseridos na pirâmide do futebol inglês.

O fim dos sonhos de Celtic e Rangers na Premier League?

Por outro lado, a independência da Escócia praticamente cessará os rumores que surgem periodicamente sobre a possível inclusão de Celtic e Rangers no Campeonato Inglês. As especulações vês desde a criação da Premier League, em 1992/93, momento em que a dupla escocesa se equiparava aos grandes ingleses – especialmente pelo momento de reconstrução que o futebol no sul da ilha vivia, após as tragédias de Heysel e Hillsborough, bem como a suspensão nas competições continentais e o início das mudanças no Relatório Taylor. Naquele momento, contar com os clubes de Glasgow era uma forma também de fortalecer a reformulação da liga.

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A discussão nunca foi para frente, mas sempre volta aos noticiários britânicos, especialmente pelo lobby que começou a ser feito pela própria dupla da Escócia nos últimos anos. Após entrar em concordata, o Rangers ameaçou tentar ingressar na Premier League, em janeiro de 2013, descontente com as reformas propostas nas divisões do Campeonato Escocês. Já no início deste ano, foi a vez de o Celtic falar sério sobre o assunto, especialmente depois que seu chefe executivo entrou na diretoria da Associação de Clubes Europeus (ECA) – e o clube aumentou sua influência no comando do futebol europeu.

CelticRangersDiante do cenário, até mesmo o primeiro ministro David Cameron deu seu pitaco sobre a questão. Em coluna escrita no jornal Sunday People de março de 2013, o premiê britânico afirmou o “massivo interesse na potencial mudança dos gigantes escoceses”. Uma manobra para também tentar capitalizar votos contra a independência da Escócia, apenas três meses antes do referendo ser aprovado pelo Parlamento Escocês. A própria inclusão do Celtic no Campeonato Inglês seria uma forma de tentar criar um sentimento britânico no clube, enquanto reforçaria as tendências unionistas dentro do Rangers.

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Além disso, o governo britânico também temia as movimentações da dupla escocesa nos bastidores para ingressar até mesmo nas divisões inferiores do futebol inglês. O Rangers pretendia sua entrada na quinta divisão através da compra de um clube, enquanto o Celtic arquitetou sua absorção pela terceira. A preocupação era de que a massa de torcedores dos dois clubes pudesse causar episódios de violência nos acanhados estádios ingleses. Na época, Cameron chegou a se reunir com dirigentes dos dois gigantes escoceses para negociar a questão, mas não teve a abertura esperada entre os dirigentes ingleses.

Financeiramente, a mudança significaria muito

Os benefícios da mudança para a dupla de Glasgow são evidentes. O crescimento da Premier League praticamente sufocou o Campeonato Escocês. Sem o mesmo aporte financeiro na liga, Celtic e Rangers poderiam multiplicar o faturamento, principalmente em relação aos direitos de TV. De 2011/12 para 2012/13, os alviverdes triplicaram suas rendas com multimídia, muito graças ao bom desempenho na Liga dos Campeões – de £9 milhões para £28,1 milhões. Ainda assim, a quantia é irrisória quando comparada com os grandes ingleses. Também em 2012/13, o Liverpool faturou £62 milhões com multimídia, mesmo limitado à Liga Europa. Já na última temporada, com o novo acordo televisivo vigorando na Premier League, o Liverpool lucrou £102 milhões. O Cardiff, com o menor ganho da liga, embolsou £65 milhões.

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Não só por conta do dinheiro da televisão, as finanças de Celtic e Rangers foram estranguladas nos últimos anos. Ambos os clubes chegaram a aparecer entre os 20 mais ricos do mundo na Deloitte Money Football League. Os azuis estiveram na 18ª posição apenas cinco anos antes de declararem concordata. Já os alviverdes ocuparam o 17º lugar em 2008. Naquele ano, o Celtic teve receitas de £93,1 milhões. No relatório de 2014, o clube aparece apenas no Top 40, com £75,8 milhões de receita – e, ainda assim, com um aumento de 47,7% sobre o ano anterior.

Segundo a Deloitte, o problema do Celtic é mesmo o baixo dinheiro vindo da televisão, impedindo o clube de voltar ao Top 20. A consultoria exalta a forte base de torcedores, que garante boas receitas nos dias de jogo e abre o caminho para acordos comerciais. Porém, limitados a uma pequena liga, os alviverdes dependem da Liga dos Campeões para aumentar seu mercado. O mesmo vale para o Rangers, que sequer sonha com os torneios continentais tão cedo. Com a dura concorrência com os grandes europeus, o degrau mais próximo da dupla escocesa seria mesmo a Premier League.

Samaras1A Inglaterra também vê suas vantagens em abraçar Celtic e Rangers. Não apenas por expandir sua influência para a Escócia, mas também para República da Irlanda e Irlanda do Norte, onde os dois clubes contam com muitos torcedores – a estimativa é de que, juntos, contem com aproximadamente 14,5 milhões de simpatizantes ao redor do mundo, quase o triplo da população escocesa, que é 5,2 milhões. Não à toa, os clubes da Championship (a segunda divisão inglesa) chegaram a ensaiar a criação de uma “Premier League 2” em 2009, visando a expansão com os gigantes escoceses. Foram rechaçados.

No fim das contas, o maior empecilho é criado pelos dirigentes ingleses e pelas outras partes escocesas. O enfraquecimento dos demais clubes do país seria inescapável com as saídas de Rangers e Celtic. Por mais que alguns tenham tradição, como o Hibernian, o Hearts e o Aberdeen, a queda de nível do Campeonato Escocês alcançaria níveis alarmantes. Se a situação econômica já está difícil com os gigantes, sem eles a liga se aproximaria do que acontece com Irlanda do Norte e Gales. Além do mais, a perda de autonomia não agrada a federação escocesa, que veria sua posição ameaçada com a saída.

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Já na Inglaterra, o chefe executivo da Premier League foi categórico ao rechaçar a possibilidade de mudança em 2012. “Nossas regras são simples. Elas dizem que somos formados por clubes da Inglaterra e de Gales. Não queremos ver nenhuma mudança. Há mais vantagens para eles do que para nós”, afirmou Richard Scudamore. Secretário-geral da Uefa, Gianni Infantino afirmou em março que a confederação “está aberta às discussões”. Contudo, há o temor principalmente dos ingleses que a permissão pudesse se tornar uma ‘Lei Bosman’ dos clubes, abrindo caminho para a criação de ligas supranacionais.

Caso a independência aconteça, nem mesmo o apelo da comunidade britânica Rangers e Celtic terão mais. “É quase certo que isso encerre as perspectivas de jogarem na Premier League. As chances da mudança para a Inglaterra eram próximas a zero de qualquer maneira, precisando que clubes ingleses sacrificassem seus lugares na Premier League ou em qualquer outro lugar da pirâmide. Entretanto, ainda não é improcedente que clubes de um país joguem pela liga de outra nação”, analisa Ben Rumsby, jornalista do Telegraph.

Uma nova realidade econômica na Escócia

O provável retorno do Rangers à elite do Campeonato Escocês na próxima temporada melhora as perspectivas do torneio. A volta da Old Firm certamente trará um maior interesse comercial à liga, assim como pode aumentar um pouco mais o público médio nos estádios – que operam com boa ocupação, mas enfrentaram queda nas médias após o rebaixamento dos azuis. Além disso, com a vitória do Sim no referendo, espera-se uma repercussão maior no novo momento vivido pelo país, o que poderia refletir em mais visibilidade ao futebol.

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Porém, há o forte temor de que a independência seja um desastre econômico para a Escócia – aliás, o principal argumento de quem apoia o Não. O primeiro problema será quanto a moeda. Os escoceses pretendem manter a libra, o que é rechaçado pelos britânicos se a separação acontecer mesmo. Outra possibilidade é a adoção do euro, o que dependerá da admissão do novo país na União Europeia – o que não deve ocorrer tão rapidamente. E não existe um plano tão claro para as autoridades escocesas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAlém disso, a Escócia independente teria de mostrar uma grande capacidade de articulação para não perder credibilidade no mercado internacional, que olha com desconfiança a falta de recursos naturais e os custos previdenciários e com o setor público. Segundo a revista The Economist, a nova Escócia poderá nascer como um país rico, graças ao nível de desenvolvimento atual e à reserva de petróleo – que, segundo os separatistas, não recebe investimento suficiente do governo britânico. Todavia, a publicação afirma que os escoceses correm fortes riscos de entrar em crise rapidamente. A dependência do resto do Reino Unido ainda é muito grande.

Logicamente, em um cenário caótico como este, o futebol tende a perder ainda mais. Se as receitas dos clubes são bastante dependentes do dinheiro arrecadado nos estádios (com ingressos e outros produtos vendidos nos dias de jogo), os problemas econômicos incidiriam diretamente nas contas. Para piorar, o Campeonato Escocês segue sem grandes perspectivas internacionais, para amarrar novos acordos comerciais e de transmissão dos jogos. Ao menos a força acionária do Celtic garante um pouco mais de estabilidade em relação ao Rangers – que, desde a sua falência, foi bastante ajudado pelo aporte financeiro de seus torcedores.

As arquibancadas podem ser mais livres

A tragédia de Hillsborough transformou significativamente o futebol britânico. A morte dos 96 torcedores no estádio gerou uma nova legislação para os estádios, coibindo os hooligans e mudando o perfil das torcidas. A Lei dos Espectadores de Futebol de 1989 foi aprovada para as arquibancadas na Inglaterra e Gales. Porém, também com largo histórico de conflitos e problemas parecidos, a Escócia também o adotou. A partir de 1998, os estádios da primeira divisão escocesa extinguiram os lugares em pé e tomaram outras medidas de segurança.

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A independência poderá impulsionar a Escócia a se desvincular ainda mais da legislação inglesa. Desde 2011, os dirigentes escoceses permitem a construção de setores em que os torcedores ficam pé nos estádios, tendo como espelho o modelo alemão. No entanto, apesar de bem recebida pelos clubes, as mudanças encontram suas maiores barreiras nas autoridades de segurança locais. O Celtic foi o time mais propenso a adotar as gerais e chegou a apresentar em agosto um projeto para as modificações no Celtic Park. Mas os planos foram congelados pela burocracia local, com autoridades de Glasgow e da Escócia não assumindo a responsabilidade.

celticpark

Há a expectativa de que o novo governo possa se aproximar da questão com a separação do Reino Unido. De qualquer forma, não dá para esperar que os escoceses darão menos importância às questões relacionadas à violência nos estádios. Em 2012, o Scottish National Party (SNP) aprovou no Parlamento Escocês uma lei criminalizando posturas ofensivas nos estádios, principalmente as de cunho religioso, cultural e social – recrudescimento evidente para reduzir as tensões entre as torcidas rivais. Além disso, os temores sobre como será o reencontro entre Celtic e Rangers na primeira divisão também deverá fazer as autoridades terem mais cautela. De qualquer forma, o ganho com as áreas em pé é evidente, sobretudo por baratear os custos de manutenção do estádio e dos ingressos.

O referendo é a chance para que a Escócia comece a andar com as próprias pernas. E isso se insere diretamente no futebol. Os problemas são mais evidentes do que as soluções, por mais que a modalidade tenha se estruturado ao longo dos últimos 150 anos de maneira separada do Reino Unido. De qualquer forma, ela está extremamente ligada com a realidade do país e, assim como outros setores da sociedade, precisará lidar com questões sociais, políticas e econômicas.


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