Não há muita discussão sobre a superioridade do Flamengo contra o Internacional nos 180 minutos do confronto pelas quartas de final da Libertadores. E, na somatória do tempo, Bruno Henrique sobra ainda mais como o melhor jogador rubro-negro do embate. O atacante já tinha sido extremamente decisivo no Maracanã. Outra vez, conseguiu desequilibrar no Beira-Rio. Que tenha dividido mais o protagonismo desta vez, é inegável como o mineiro oferece algo a mais a um time que paulatinamente se encorpa. A quem aprecia um futebol mais ofensivo, Bruno Henrique é daqueles para se sentar diante da televisão e esperar o estalo de furor.

Os atacantes não são infalíveis e também não conseguem ser efetivos o tempo todo. Bruno Henrique sabe disso e seu próprio ano de 2018, afetado pelas lesões, esteve aquém de seu potencial. A torcida, entretanto, aprende que pode sempre esperar um esforço a mais do ponta. E por isso dá gosto de vê-lo no time. Bruno Henrique tem aquela semente de insurgência que deveria existir em qualquer jogador mais ofensivo. Em muitas partidas, há um lance em que o rubro-negro resolve se rebelar contra a defesa adversária, taca fogo no que vê pela frente e cria uma chance arrebatadora de gol. Foi assim também em Porto Alegre.

Durante o primeiro tempo, Bruno Henrique tentou resolver algumas vezes. Quando chutou a gol e teve a sua melhor oportunidade, Marcelo Lomba conseguiu buscar. Mas o mais importante neste inconformismo do atacante é que ele não se mostra egoísta. Foi assim que uma enfiada de bola perfeita rompeu a defesa colorada, para que Gabigol perdesse diante da meta. Durante o segundo tempo, mais tenso, o mineiro apareceu menos. Precisou ser cirúrgico em minutos de taquicardia. Confirmou a classificação do Flamengo, com a ajuda do desarme de Arrascaeta e da conclusão agora certeira de Gabigol. Quando coloca a quinta marcha, como foi na arrancada que percorreu quase todo o campo até a área do Inter, Bruno Henrique parece imparável.

O Flamengo possui um time de bom toque de bola com Jorge Jesus. Consegue construir bem as jogadas, principalmente depois das adições recentes nas laterais, e conta com meio-campistas bastante técnicos. Mas não se limita a cadenciar as partidas. Há um toque de agressividade, e muitas vezes ela parte das arrancadas e dos dribles de Bruno Henrique. O atacante busca o caminho mais rápido até o gol, nem que para isso precise entortar o marcador ou apostar corrida com qualquer um. Sabe de suas virtudes e nelas confia, indo para cima. É o que quebra o padrão e faz o coletivo mais forte, sobretudo nas últimas semanas.

E esta efervescência de Bruno Henrique parece mesmo relembrar os seus tempos modestos, de quem não passou pelas categorias de base dos grandes clubes, de quem terminou descoberto no futebol amador. “Bruninho” só foi ganhar uma chance no Cruzeiro aos 21 anos, depois que arrebentou na famosa Copa Itatiaia pelo Inconfidência, um time de bairro em Belo Horizonte. Depois cresceu, por Uberlândia, Itumbiara, Goiás. O caráter da várzea permaneceu correndo pelas veias do atacante, mesmo no alto nível. Não foi diferente num jogo eliminatório contra o Real Madrid em plena Champions League, em sua estreia como titular pelo Wolfsburg. Agora se repete na Libertadores, com o Flamengo, no Beira-Rio abarrotado e em vitórias que os rubro-negros não viviam há décadas.

Depois de muitas campanhas em que o Fla sentiu a responsabilidade no torneio continental pesar sobre os ombros, a presença de um jogador com esse tipo de espírito vale bastante. E a importância se nota nos resultados, como foi no segundo jogo contra o Emelec, como se repetiu em ambos contra o Internacional. Entre o ímpeto e a insistência, Bruno Henrique merece total reconhecimento como desbravador deste momento distinto que se vive na Gávea. Há um pouco mais de chão para tentar conquistar.