O Fortaleza abriu um novo capítulo em sua história nesta quinta. Pela primeira vez, o Leão do Pici disputa uma competição continental. E a empolgação com a Copa Sul-Americana é visível, tanto pela inflamada torcida tricolor quanto pelo foco do time de Rogério Ceni. O adversário correspondia à grandeza da ocasião: um Independiente que vem em crise, mas que permanece como o maior campeão da Libertadores. No entanto, mesmo fazendo por merecer um resultado melhor em Avellaneda, o Fortaleza precisou aceitar a derrota. O Rojo cresceu no segundo tempo e venceu por 1 a 0, a despeito da atuação inspiradíssima de Osvaldo. Ainda assim, por aquilo que se viu na noite, os argentinos já sabem que não será fácil encarar o Castelão.

A torcida do Fortaleza sabe o tamanho da ocasião. Por isso mesmo, acima do time, o protagonismo foi da massa tricolor. Milhares de torcedores estiveram presentes no aeroporto de Fortaleza e em seus arredores na última terça, para oferecer um embarque caloroso ao Leão do Pici. A festa tinha ruas de fogo, bandeiras e muita cantoria para guiar o caminho do ônibus. Já dentro do aeroporto, um pedaço do Castelão se reproduziu. Mais vibração para ser transmitida aos jogadores, que viajaram em uma aeronave personalizada.

Obviamente, muita gente não ia perder a oportunidade de assistir à estreia internacional do Fortaleza in loco, ainda mais contra um gigante como o Independiente. Segundo o repórter Miguel Júnior, da rádio O Povo CBN, pelo menos três mil tricolores fizeram a viagem – centenas deles de ônibus. Já na véspera, a presença dos visitantes podia ser sentida nas ruas da Argentina. A comunhão da torcida aconteceu no Obelisco, um dos principais pontos turísticos de Buenos Aires. No meio da galera estavam inclusive antigos ídolos, como Clodoaldo e Rinaldo.

E o Fortaleza tentou compensar o apoio com uma vitória em Avellaneda. O time de Rogério Ceni protagonizou um bom primeiro tempo contra o Independiente. Os argentinos criaram as primeiras jogadas ofensivas, mas logo o Leão do Pici tomou controle da partida. O meio-campo limitava a posse de bola adversária e os tricolores aceleravam no campo de ataque. Osvaldo dava muito trabalho pelo lado esquerdo e quase abriu o placar aos seis minutos. Pedalou sobre o marcador e, na saída do goleiro, exagerou na força, mandando por cima.

Nas vezes em que o Independiente mais assustou no início do jogo, o assistente flagrou corretamente dois impedimentos. O Fortaleza estava bem mais aceso para abrir o placar. Osvaldo infernizava os defensores. Juninho, por sua vez, fez o goleiro Martín Campaña trabalhar, em uma cobrança fechada de escanteio. Já aos 20 minutos, David lamentaria o desperdício. Partindo para cima da marcação em velocidade, Osvaldo deu o passe e o meia ficou em ótimas condições dentro da área. David finalizou, mas carimbou Campaña e ainda mandou o rebote para fora.

O Independiente acertou sua marcação depois disso, trabalhando mais no campo de ataque. O Rojo poderia ter saído na frente aos 35 minutos, em cruzamento de Silvio Romero que Martín Benítez cabeceou para fora. E em uma estreia continental por completo, o Fortaleza lidou até com uma breve confusão. Durante uma bola alçada na área pelos tricolores, os jogadores passaram a bater boca e o capitão Juan Quintero acertou o rosto de Juan Sánchez Miño. O árbitro Wilmar Roldán mandou o colombiano para o chuveiro com o vermelho direto, mas convenientemente aproveitou que o argentino já tinha amarelo e também o expulsou.

Quintero fazia uma boa partida pelo Fortaleza e o time sentiu sua ausência na zaga. Até porque, na volta para o segundo tempo, o Independiente apresentou outra postura. Passou a acelerar os passes e encontrou as brechas para construir o resultado. O gol saiu aos cinco minutos. Silvio Romero deu um lançamento magistral e encontrou Fabricio Bustos pela direita. O lateral passou e Leandro Fernández mandou às redes. Logo depois, Osvaldo tentou responder, mas mandou para fora do outro lado.

O Independiente passou a acuar o Fortaleza. Finalmente começou a se impor como mandante e jogava melhor, exigindo mais pegada da marcação tricolor. Enquanto isso, o Leão do Pici tinha mais espaço para contragolpear e Osvaldo estava mesmo impossível. Aos 14, agora pela direita, o atacante fez mágica para se livrar de vários marcadores ao redor e chutou cruzado com muito perigo. Minutos depois, o camisa 11 ainda chegaria atrasado para tentar completar o cruzamento de Gabriel Dias.

A partir dos 20 minutos, o Fortaleza voltou a recuperar sua confiança e a sair para o campo ofensivo. Romarinho apareceria, mas não da maneira mais feliz. O atacante já tinha carimbado a trave, em lance no qual o árbitro apitou impedimento. Já aos 25, ele perderia um dos gols mais feitos do ano: em mais uma arrancada de Osvaldo, o ponta fez todo o trabalho e passou na medida ao companheiro. Romarinho estava sozinho na área e tinha a meta escancarada à sua frente. Todavia, não pegou direito na bola e espirrou o taco, sem sequer mandá-la para frente. Facilitou o trabalho de Campaña, que estava batido.

O ritmo aumentou. Nenhum dos times parecia satisfeito com o placar. Enquanto o Fortaleza saía para o jogo, o Independiente tentava matar os adversários e era empurrado por sua torcida. Mas definitivamente não era uma noite tão inspirada nas finalizações. Brian Martínez cabeceou totalmente livre aos 29, para fora. Em resposta, Osvaldo (e quem mais?) cruzaria, sem que Romarinho e Gabriel Dias aproveitassem. Aos 39, Osvaldo sairia de campo extenuado. A partir da deixa, Rogério Ceni reforçou um pouco mais a marcação. Lucas Romero poderia fazer o segundo dos argentinos, mas seu petardo saiu ao lado da trave. E, no final, os dois times pouco criaram para mexer no placar.

O resultado é amargo ao Fortaleza não só pela derrota, mas também por não contabilizar o gol que esteve nas mãos e poderia ajudar dentro do regulamento. Em compensação, qualquer mística sobre o Rey de Copas não se sustentou nesta quinta, diante da maneira como o Leão do Pici rugiu para cima dos argentinos. O revés vem a contragosto, apesar do caráter histórico da partida. Mas os tricolores têm motivos para acreditar numa reviravolta. A estreia continental em casa, esta sim, poderá ser realmente memorável.