Não faz nem dois anos que o Fortaleza vivia aquela noite libertadora na Série C, encerrando seus martírios na terceira divisão nacional. Não faz nem dois anos que o mero alívio já servia para encher o peito da torcida tricolor. E dois anos foram suficientes não apenas para transformar as perspectivas do clube, mas também para registrar o período mais vitorioso da história do Leão do Pici. A Série B veio da maneira surpreendente, mas consistente. O Cearense era a coroação em meio à alta do próprio estado. Já nesta quarta, o Fortaleza saboreou um feito especial. Bateu novamente o Botafogo da Paraíba por 1 a 0 e, dentro do Almeidão, conquistou a Copa do Nordeste. Um título inédito que demarca dois anos incomparáveis aos torcedores. O orgulho é sem tamanho.

A campanha do Fortaleza é irretocável, dono do melhor ataque e da melhor defesa. O time conquistou a primeira colocação de seu grupo na fase de classificação com um bom desempenho, sofrendo apenas uma derrota. Já nos mata-matas, ganhou todos os seus quatro compromissos. Eliminou o Vitória com goleada e também passou pelo Santa Cruz sendo superior. E mesmo que o Botafogo viesse em boa fase, não teve forças para competir com o Leão do Pici. O primeiro jogo no Castelão, diante de uma linda festa nas arquibancadas, abriu o caminho para a conquista. Pois ela se confirmou com mais um triunfo dos cearenses, apesar da pressão da torcida paraibana no Almeidão.

Wellington Paulista, definitivamente, merece ser lembrado como o herói desta Lampions League. Já tinha anotado o gol na primeira partida. E novamente resolveu para o Fortaleza, abrindo o placar aos três minutos. A defesa do Belo deu uma baita bobeira na hora de tentar afastar o perigo e a bola respingou para o artilheiro, que não perdoou. A vantagem ampla permitiu aos tricolores fazerem o seu jogo. Puderam administrar a situação, mesmo que o Botafogo tentasse reagir.

Apesar de alguns sustos dados pelos anfitriões, sobretudo no segundo tempo, o Fortaleza conseguiu manter sua meta invicta. Herói em tantos momentos vitais do clube, Marcelo Boeck outra vez cresceu em um jogo grande e transmitiu muita segurança no gol. Faltava mais velocidade ao Belo nas definições. Durante os minutos finais, controlando o jogo, o Leão do Pici teve uma escapada ou outra para tentar aumentar a diferença. Não precisou. Apesar das tristes cenas nas arquibancadas, com uma bomba caseira lançada contra o setor visitante e o embate dos cearenses com a polícia, a festa era tricolor.

Ao final, ânimos apaziguados, os jogadores do Fortaleza puderam comemorar com sua torcida no Almeidão. Os torcedores do Botafogo, descrentes, já tinham esvaziado as tribunas. E o título completa uma ambição do Leão do Pici. O clube nunca tinha chegado a uma final da Lampions League. Quando alcançou, se provou de maneira firme, sem deixar margens a dúvidas. Os tricolores possuem o melhor time do Nordeste neste momento, algo inigualável para a equipe.

Rogério Ceni, em especial, merece renovados elogios. O trabalho do treinador à frente do Fortaleza é histórico. Primeiro, por aquilo que realiza nos bastidores, ajudando a realizar mudanças na própria estrutura e implementando um projeto mais amplo. Rogério demonstra carinho pela agremiação e isso explica bastante por que recusou outras propostas. Impressiona também a forma como o veterano consegue tirar o máximo de seu grupo de jogadores. Além do mais, faz com que a equipe exiba um futebol ofensivo e bastante competitivo. Até pelas diferenças financeiras, a permanência na Série A surge como um desafio. De qualquer maneira, os tricolores apresentam credenciais para sustentar este período memorável por mais tempo. Há potencial, sobretudo por aquilo que Ceni oferece.

A glória no Nordestão é a nova realidade do Fortaleza. Uma realidade que amplia a sala de troféus do clube. E uma realidade que, olhando um pouco para trás, até parece surreal depois do longo purgatório na terceirona. A calorosa torcida tricolor está em seu direito de tomar as ruas e ir à forra com o momento irreparável. Após o primeiro título nacional e o segundo regional (que não vinha desde o efêmero Torneio Norte-Nordeste de 1970), o Leão do Pici reforça a sua grandeza.