A história “oficial” de Flamengo x Independiente começa na decisão da Supercopa da Libertadores de 1995. Aquela foi a primeira vez que os dois clubes se enfrentaram por uma competição organizada pela Conmebol. O confronto, no entanto, possui um passado muito mais vasto e rico, começando mais de cinco décadas antes. A posição proeminente de duas equipes multicampeãs em seus países encurtou distâncias para que rubro-negros e rojos se encarassem dentro de campo. E os primeiros duelos remetem a momentos importantes às duas agremiações, de craques ainda hoje exaltados e títulos relevantes em trajetórias gloriosas.

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Embora tenham feito parte de combinados que se enfrentaram em agosto de 1939, o primeiro Flamengo x Independiente aconteceu em 24 de dezembro de 1939. Véspera de Natal gorda, em que o atrativo não era apenas ver o embate do campeão argentino contra o campeão carioca, mas sim desfrutar o talento oferecido por dois dos atacantes mais fantásticos da primeira metade do século: Leônidas da Silva e Arsenio Erico – ‘El Saltarín Rojo’, ainda hoje maior artilheiro do clube de Avellaneda e também do Campeonato Argentino. O Independiente excursionava pelo Rio de Janeiro ao lado do San Lorenzo e trazia um elenco cheio de grandes nomes – que incluía, entre outros, também Antonio Sastre, Vicente de la Mata, Fernando Bello e Juan José Zorrilla.

O Flamengo, por sua vez, possuía um grande esquadrão, em tempos nos quais os rubro-negros realmente se tornavam um clube de massas. Dois grandes responsáveis por isso eram os lendários Domingos da Guia e Leônidas. Outros jogadores importantes na história flamenguista também figuravam no elenco, como o ponta Jarbas, o aclamado “Flecha Negra”, além dos representantes da legião argentina que imperava no futebol carioca – a exemplo do atacante Alfredo González e do médio Carlos Volante. Aquele amistoso, contudo, acabou sendo especialmente marcante para um novato, que estreava pelo Fla: Zizinho, então com 18 anos. Contratado meses antes junto ao Byron, o garoto ganhou espaço diante da ausência de Agustín Valido.

Naquela véspera de Natal, contudo, o Flamengo de Flávio Costa não foi páreo ao Independiente. O Rojo chegou a abrir três gols de vantagem em apenas 23 minutos. A reação rubro-negra aconteceu no segundo tempo, e o Fla até empatou. Entretanto, logo depois que a igualdade foi estabelecida, Volante deixou os flamenguistas desguarnecidos ao sair contundido e De la Mata decretou o triunfo dos argentinos por 4 a 3. Erico fez dois gols logo de cara, mas não manteve a constância e permaneceu o resto do jogo apagado, ofuscado pela atuação excelente de Domingos. Já o destaque foi mesmo Leônidas, também autor de dois tentos e, mais relevante, capaz de maravilhar seus adversários com sua marca registrada: uma espetacular bicicleta.

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Leônidas já tinha sido o responsável pela reviravolta na partida. Primeiro, recebeu de Zizinho para anotar o primeiro gol do time, em belo chute. Depois, daria dois passes açucarados a Jarbas. O ponta não aproveitou o primeiro deles, mas descontou outra vez quando teve a segunda chance. Já a pintura do Diamante Negro aconteceu aos 31 do segundo tempo, após lançamento de Jarbas, possibilitando o empate no marcador. “O gol de Leônidas não surpreenderia tanto se não constituísse uma dessas jogadas históricas, inéditas em matches de futebol. […] Dentro da área, antes que o couro chegasse ao solo, estando mesmo mais alto do que um homem de estatura média, o Diamante Negro salta espetacularmente de costas para o gol e de bicicleta, num verdadeiro salto mortal, consagra o terceiro gol”, descreve o Globo Sportivo da época. O goleiro Bello cumprimentou o atacante adversário depois do lance, pela beleza da execução.

O periódico carioca, aliás, imagina as conversas entre Leônidas e Erico durante o amistoso, com um quê de literatura e fantasia. Conforme a publicação, o paraguaio seria irônico ao final do primeiro tempo, em que o brasileiro teve atuação discreta. “Você tem certeza de que se chama Leônidas, o Diamante Negro, o Homem de Borracha? Não há nenhum engano? Se não há nenhum engano, posso respirar aliviado. Os jornais chegaram a assustar-me. Agora vejo que tudo não passou de uma campanha de publicidade”, teria dito o ídolo do Independiente, no conto do Globo Sportivo. Leônidas ‘engoliu a pílula’ e voltou mordido para o segundo tempo. Fez o que fez. E depois teria falado a Erico: “Por que Erico não veio? Você é ele? Realmente há uma certa semelhança, mas você deve ser um sósia do famoso Erico. Se você é Erico, não deve gritar tanto, deve dizer baixinho que foi Erico. Ninguém, porém, precisa saber disso”.

O texto ainda devaneia sobre o arrependimento de Erico ao final do duelo, admitindo a “injustiça” que cometeu e pedindo um favor: como se faz um gol de bicicleta? Leônidas, então, teria ido à forra: “Isso eu não posso dizer. Simpatizo muito com você e por isso mesmo me calo. Não quero ser responsável por nenhum desastre. Já tenho um remorso na consciência. Um dia ensinei um bom rapaz o segredo do gol de bicicleta”. Onde ele joga? “Não joga. Quebrou o pescoço…”. As fotos daquele amistoso, de qualquer maneira, representam Erico e Leônidas em um clima bastante cordial, posando como velhos amigos.

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Outro que, de fato, se impressionou com a bicicleta de Leônidas foi Isidro Lángara. O cultuado centroavante espanhol, que derrotou o brasileiro na Copa do Mundo de 1934, estava nas arquibancadas de São Januário – naquela ocasião, como jogador do San Lorenzo, era um mero espectador. E não deixou de exaltar o colega de ofício. “Um tento diabólico do diabólico Leônidas. Que fera aquele homenzinho! Evidentemente que é necessário possuir-se uma agilidade extraordinária para alcançar a pelota com tamanha precisão. E também um pouco de sorte. Imagine se toda tentativa resultasse em gol, o que não seria dos arqueiros?”, disse, ao Jornal dos Sports.

Flamengo e Independiente voltariam a se enfrentar uma semana depois, agora na véspera do Ano Novo, em 31 de dezembro. E desta vez os rubro-negros deram o troco em São Januário. Em apenas 15 minutos, os cariocas abriram dois gols de vantagem, com González e mais uma vez Leônidas. Domingos da Guia, sobretudo, ganhou amplos elogios da imprensa pelo controle que exerceu no campo defensivo. Já nos instantes finais, o Rojo descontou com Celestino Martínez, fechando a conta em 2 a 1 para o Fla. Entre outros jogadores utilizados por Flávio Costa nesta ocasião estavam mais alguns nomes históricos, como o goleiro Yustrich.

Um ano depois, seria a vez do Flamengo retribuir a visita. Excursionou ao lado do Fluminense pela Argentina durante os primeiros meses de 1941. E aquela viagem seria marcante por diferentes motivos. Primeiro, porque proporcionou o último jogo de Leônidas com a camisa do Fla. O craque participou do primeiro jogo da turnê, em que o time tomou uma sova por 7 a 0 de um combinado rosarino. Com uma lesão no joelho, não enfrentaria o Independiente uma semana depois – embora fosse acusado de fazer corpo mole. O litígio com os dirigentes cresceu. E, logo na sequência, o Diamante Negro acabou preso por não ter cumprido o serviço militar, o que marcou o fim de sua passagem pela Gávea, antes da mudança para o São Paulo.

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Além disso, a goleada sofrida contra os rosarinos impulsionou Flávio Costa a fazer uma mudança tática fundamental para o duelo com o Rojo. Temendo outra saraivada, ele resolveu dar proteção extra à defesa, recuando Jocelino para o lado direito e deixando Domingos menos sobrecarregado, na missão de pegar o centroavante adversário. Além disso, Argemiro foi adiantado ao meio para atuar ao lado de Zizinho. Assim, os rubro-negros trocaram o ultrapassado 2-3-5 para adotar a chamada ‘Diagonal’, baseada no WM, sistema bastante em voga na época e já aplicado entre os argentinos.

No duelo realizado no Viejo Gasómetro, o Flamengo não conseguiu derrotar o Independiente. Ainda assim, passou a assimilar as novidades e mereceu aplausos. Propondo o jogo, os cariocas abriram o placar com Caxambu, antes que Erico resolvesse mostrar tudo o que não se viu no Rio de Janeiro: imparável, anotou quatro gols de maneira consecutiva na primeira etapa (contando também com a colaboração do goleiro Walter), antes que Zizinho descontasse na saída para o intervalo. Já na etapa complementar, o Fla voltou com outra postura e arrancou o empate. Zizinho orquestrava a equipe, enquanto Caxambu marcou mais duas vezes. O Rojo acordou depois disso e Zorrilla mostrou o seu valor, anotando o quinto e o sexto tento dos locais. Já no fim, os cariocas partiram para a pressão e ao menos balançaram as redes mais uma vez, com Jarbas, fechando a conta em 6 a 5.

O Flamengo ainda seguiria sua viagem por Buenos Aires, chegando a derrotar o San Lorenzo por 2 a 0, na melhor prova de funcionalidade da Diagonal de Flávio Costa. Já os reencontros com o Independiente demoraram a acontecer novamente. O duelos seguinte veio apenas em 1951, em flamejante empate por 5 a 5, antes de novos amistosos em 1955 e 1970. E então começa a história “oficial”, escrita em Supercopas, Copas Mercosul e, agora, na decisão da Copa Sul-Americana. Sem um Leônidas ou um Erico, mas com o gancho para relembrar o passado glorioso que pouco se menciona.

Vale conferir também este especial dos amigos do Futebol Portenho, listando todos os personagens em comum na história de Flamengo e Independiente.

Abaixo, uma coleção de matérias do Globo Sportivo e do Sport Illustrado, que relatam aqueles três primeiros jogos de Flamengo x Independiente. Clique na página com o botão direito do mouse e em ‘Abrir imagem em nova guia’ para visualizar de maneira ampliada.


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