O maior desafio do Flamengo nesta quarta-feira de Copa Libertadores não era o Emelec. Era o próprio Flamengo e o vórtice que engole o time a cada participação na competição continental, sobretudo no Maracanã. Os rubro-negros teriam que reverter não apenas a derrota por 2 a 0 em Guayaquil, mas também o histórico recente de decepções no torneio. Por isso, antes de tudo, a confiança dos rubro-negros se tornou essencial. E o time tirou proveito do clima incendiado no Maracanã para anotar dois gols rapidamente, já tirando o peso das costas e evitando a ansiedade. A situação ajudou e até esboçou-se uma goleada. Mas, ainda que a tensão tenha se estendido diante da perda de intensidade da equipe, as lições foram bem assimiladas. O triunfo por 2 a 0 cumpriu a obrigação e deu a segunda chance nos pênaltis. Para, enfim, Diego Alves brilhar e o estrelado elenco flamenguista preponderar na marca da cal. Os 4 a 2 nas penalidades evitaram o filme de terror contra os equatorianos e garantiram a classificação às quartas de final. A oportunidade de contar uma outra história na Libertadores se renova.

“Jogaremos juntos”. A fase apresentada pelo gigantesco mosaico formado no Maracanã transmitia uma clara mensagem aos jogadores. E, de fato, o Flamengo jogou junto com sua torcida durante o início da partida, algo fundamental para reavivar as esperanças. Pressionando a saída de bola e se impondo no campo de ataque, o time rubro-negro criou de cara várias chances de gol. Logo no primeiro minuto, Willian Arão chegou e bateu para fora. Aos quatro, um desperdício inacreditável. Gabigol carimbou o goleiro Esteban Dreer e, no rebote, mandou por cima, com a meta aberta. Apesar dos erros, não faltava atitude ao Fla. E ela logo rendeu frutos.

O primeiro gol saiu aos nove minutos. Rafinha avançou pela direita e, em contato leve, caiu na área. Era uma marcação bem discutível, mas que o árbitro resolveu anotar, sem a recomendação do VAR sobre um possível erro. Néstor Pitana deveria ter revisto o lance no vídeo e não o fez, o que talvez seja o maior problema nesta história, ao não se dar sequer o benefício da dúvida. Na cobrança do pênalti, Gabigol demonstrou firmeza e abriu o placar ao Flamengo. Que a superioridade fosse clara, a circunstância beneficiou os cariocas. E o time seguiu na mesma toada na sequência da partida, para igualar o placar da ida aos 18 minutos, com o segundo gol de Gabriel. Bruno Henrique teve enorme participação no tento, ao roubar a bola no campo de ataque e avançar à linha de fundo. Cruzou e a qualidade de Gabigol na definição apareceu, com o tiro no contrapé de Dreer.

O Flamengo mostrava o jogo coletivo que não tinha se visto em Guayaquil. A volta de Everton Ribeiro foi providencial para isso. Mesmo jogando no sacrifício, o capitão dominou o meio-campo e cadenciou o time com seus bons passes. Parecia dar outra segurança ao Fla. Além dele, mais alguns jogadores estavam muito bem individualmente. Bruno Henrique, decepção total no Equador, era uma importante arma pela esquerda. Mesmo Gérson fazia um bom papel nos avanços pelo centro. Mesmo pressionado, o Fla não sentiu o peso da ocasião.

A vantagem estabelecida rapidamente evitou a ansiedade no Maracanã e também permitiu ao Flamengo reduzir seu ritmo aos poucos. Só que isso fez com que a esperada goleada naquele momento não se consumasse. A marcação recuou e o Emelec ganhou campo, sem criar grandes incômodos, apesar de alguns espaços excessivos dados pela marcação. O miolo da zaga conseguia se garantir, mesmo com a nova dupla formada por Thuler e Pablo Marí. Foram ótimos ao longo da noite. Já no ataque, os rubro-negros deixaram de criar. Não encaixavam os contra-ataques e tentavam alguns cruzamentos, sem sucesso. Nem mesmo a saída do lesionado Jordan Jaime, deixando os equatorianos com a zaga reserva, ajudou.

O segundo tempo teve as suas pinceladas de tensão. O Flamengo acabou restrito ao seu campo e o Emelec tentava castigar. Nicolás Queiroz fez a torcida carioca prender a respiração logo no primeiro minuto, em chute que Diego Alves só pode torcer para sair. Além disso, o setor ofensivo não tinha a mesma intensidade, com as lesões recentes pesando contra. Everton Ribeiro não exibia a mesma influência, ao mesmo tempo em que Gabigol manquitolava após sentir no primeiro tempo. O jogo ficou mais travado.

Se não dava mais para Everton Ribeiro, Jorge Jesus acionou outro jogador retornando de lesão, De Arrascaeta. E o terceiro gol do Flamengo ficou a um triz pouco depois, aos 15, a partir de uma cobrança de escanteio. Bruno Henrique desviou e Thuler estava de frente para o crime, mas bateu para fora, na melhor oportunidade durante o segundo tempo. O Fla não encaixava as transições e o Gabigol não permaneceria por muito tempo em campo. Saiu para a estreia de Reinier, garoto de 17 anos que se torna grande aposta dos rubro-negros.

Mas não seria nesta noite que a estrela do prodígio brilharia. A partida permaneceria nebulosa ao Flamengo, com dificuldades de pressionar o Emelec ao redor da área oposta. A posse de bola não era muito produtiva e o time já não exibia a mesma velocidade em suas ações. Enquanto isso, os Eléctricos representavam perigo, com um cruzamento ou outro para rondar a área de Diego Alves, apesar da ausência de grandes finalizações. O som da torcida ficava abafado em um Maracanã apreensivo. Berrío foi a última aposta de Jesus, mas não surtiu muito efeito. Antes do fim, os visitantes fizeram a bola pipocar dentro da área e os rubro-negros jogaram fora um bom contragolpe. Nada feito. O nervosismo não permitiu que as equipes resolvessem a classificação com bola rolando. A definição acabou nos penais.

Na marca da cal, a frustração vivida contra o Athletico Paranaense deixou suas lições. O Flamengo teve uma postura totalmente diferente nas cobranças. Os batedores executaram suas penalidades com perfeição. Arrascaeta, Bruno Henrique, Renê e Rafinha: todos converteram com bons chutes. E a classificação começou a se desenhar aos rubro-negros a partir da terceira batida do Emelec, quando Diego Alves barrou Dixon Arroyo. Por fim, Queiroz estalou o travessão e permitiu que a festa explodisse no Maracanã, com o triunfo por 4 a 2. A emoção tomou conta.

Jorge Jesus, devidamente criticado em Guayaquil, também tem os seus méritos pela vitória no Maracanã. A postura do time nos primeiros minutos valeu demais, enquanto a zaga fez um ótimo trabalho para garantir o placar. Ainda é um time em formação, que precisa lidar com os insistentes desfalques. Mas que era inegavelmente superior ao Emelec e se refez da atuação vergonhosa na primeira partida. É o mais importante. O Internacional representará uma pedreira muito maior nas quartas de final, assim como a semifinal tem tudo para guardar outro brasileiro pelo caminho. No retrospecto errante do Fla no torneio continental, são desafios para tentar lavar a alma. Tudo volta a começar do zero a cada fase e a evolução precisa ser constante.