Encerrados os 90 minutos, a sensação até pode ser de euforia. O Flamengo conquistou a vitória que tanto precisava para se recuperar na Copa Libertadores, aplicando uma goleada para retomar a primeira colocação do grupo e contando com o bom futebol de algum de seus protagonistas. A torcida no Maracanã voltou para casa razoavelmente empolgada, como seria natural diante do elástico triunfo por 6 a 1 contra o San José de Oruro. No entanto, há rebarbas que não podem ser ignoradas. O passeio demorou a engrenar e as circunstâncias também contribuíram para o resultado. Ter um homem a mais contra um adversário amplamente inferior, é óbvio, facilitou o caminho. E que os aplausos venham, a consciência não pode se diluir por isso. É de se pensar como a tensão por vezes sufoca os rubro-negros mesmo nos jogos mais fáceis da Libertadores, enquanto o coletivo de Abel Braga permanece com lacunas. Ao menos o desafogo do fim aliviou e aqueceu o peito nesta quinta.

Com mudanças no ataque, especialmente pela utilização do improvisado Bruno Henrique como homem de referência, o Flamengo começou mandando no jogo. E era isso mesmo que se esperava, depois das dificuldades desnecessárias sofridas na visita ao San José. Era para resolver logo cedo e ampliar o saldo ao longo do tempo. Pois os primeiros minutos saíram melhores do que a encomenda. Arrascaeta exigiu uma boa defesa do goleiro Carlos Lampe, gerando o escanteio que resultou no primeiro gol. Após a cobrança pela direita, Bruno Henrique desviou no primeiro pau e Diego apareceu para definir. Muita festa, que se amplificou instantes depois, quando Jorge Toco conteve Bruno Henrique e recebeu o cartão vermelho direto. Decisão que condicionaria os rumos do embate.

Desde já, era possível esperar um massacre do Flamengo. O próprio San José parecia ter ciência do que a desvantagem numérica significava, tentando gastar o tempo e prender a bola. E o time leve de Abel Braga ia criando chances naturalmente, pecando por uma falta de capricho maior na hora da definição. Só que um descuido na defesa fez os rubro-negros se enroscarem à toa. A linha de zaga ficou totalmente exposta aos 18 minutos, quando Javier Sanguinetti (inicialmente impedido) se livrou de Rodrigo Caio e exigiu um milagre de Diego Alves. Todavia, o rebote ficou nos pés de Carlos Saucedo e o veterano fuzilou, deixando tudo igual. O impensável empate pressionava o Fla.

Naquele momento, era fácil de prever que a vitória sairia. Em algum momento ela viria. O Flamengo tinha um time melhor, um jogador a mais, a torcida a seu favor. O trauma recorrente dos rubro-negros na Libertadores, porém, aponta a noites em que o clube perde totalmente as rédeas da situação. Algo que, por incrível que pareça, começou a se desenhar nesta quinta-feira. O time se afobava para definir as jogadas. Cruzava a esmo e via a bola queimar nos pés, sem pensar a construção das jogadas com paciência, aguardando a brecha. A vontade de mostrar serviço atrapalhava a capacidade para vencer. E a própria torcida jogava contra. Vendo o placar e sentindo a falta de calma do time, as vaias passaram a ser ouvidas no Maracanã. Em um jogo mais difícil, poderiam ter afundado o Fla. Por sorte, não tinha como perder esta partida.

Com a cabeça fora do lugar, o Flamengo errava excessivamente. O time dependeu de um jogador acima da média para resolver. Everton Ribeiro, afinal, mostrou sua qualidade para manter os nervos frios e chamar a responsabilidade. Já vinha sendo o mais lúcido m campo, até retomar a vantagem aos 30 minutos. Graças a um vacilo do San José. Toda vez que os bolivianos subiam ao ataque, a torcida flamenguista prendia a respiração, diante da falta de proteção à sua área. Em uma dessas, os visitantes arranjaram um escanteio e avançaram em peso à área. Ambição demais, permitindo um contra-ataque mortal encadeado por Bruno Henrique e Everton Ribeiro. O meia não pegou em cheio na bola, mas foi suficiente para aproveitar o canto aberto de Lampe. Só então os rubro-negros voltariam aos eixos.

O Flamengo colecionava gols perdidos. Foram várias e várias chances perdoando o San José. Do outro lado, os bolivianos lembraram que não dava para cochilar. Em mais um erro defensivo dos cariocas, Rodrigo Ramallo bateu para outra grande defesa de Diego Alves. O rebote ainda ficaria com Saucedo, até que o bandeira flagrasse o impedimento. Era preciso alargar logo a vantagem, o que a desconcentração do Fla na defesa e a dose de soberba no ataque não permitiam. A torcida não perdoou e ofereceu mais vaias ao final da primeira etapa, insatisfação evidente pela maneira como os flamenguistas se expunham ao desastre inimaginável.

Somente no segundo tempo é que o Flamengo se resolveu. Voltou querendo jogo, apesar da pressa na definição. O terceiro gol saiu em uma bela jogada com a assinatura de seus jogadores mais talentosos. Everton Ribeiro rabiscou pela direita e cruzou, para Arrascaeta dominar e fuzilar antes mesmo que a bola caísse. Pintura que deu mais confiança ao uruguaio. Ele já havia aparecido bastante no primeiro tempo, a despeito de alguns erros. Retornou à etapa complementar bem mais efetivo, ajudando Everton Ribeiro a dividir as responsabilidades. Foram ótimos lances do uruguaio, objetivo na busca pela goleada.

O San José, entretanto, insistia em expor a defesa do Flamengo. Diego Alves evitou o pior e realizou sua terceira defesa difícil na noite aos 14 minutos, em tiro cruzado de Jair Torrico. Seria o último suspiro dos bolivianos, antes que os rubro-negros atravessassem o seu melhor momento na partida. A diferença no placar ajudou, mas também a maneira como os jogadores souberam explorar melhor as brechas na defesa adversária. Tinham um repertório além dos cruzamentos. Embora Lampe e o travessão tenham adiado o quarto gol, a certeza de um massacre era maior do que nunca. A qualidade individual era a chave.

A goleada se concretizou depois dos 34 minutos. Merecidamente, Everton Ribeiro fez mais um. Após passe de Pará, o meia apareceu para concluir de direita – seu pé fraco. Depois, um pênalti cometido sobre Willian Arão, agarrado na área, abriu alas para Vitinho assinalar o quinto. E o golpe de misericórdia se deu aos 42, num cruzamento de Pará que a zaga desviou para dentro. Pelo andar da situação, era possível esperar mais gols e a torcida pedia isso. Contudo, tal vareio também se valia do cansaço dos bolivianos em atuar quase os 90 minutos com um a menos. Os méritos de um não apagam as deficiências do outro.

Passada a tensão, o Flamengo sabe o que não pode se repetir. Diego Alves outra vez merece um bônus no bicho, ao atenuar as carências da defesa. A falta de repertório do primeiro tempo também é problema, assim como o coletivo dessintonizado, salvo pelas individualidades. E mesmo a impaciência ante o resultado adverso não pode existir. Dito isso, há motivos para comemorar. Os nove pontos somados no grupo já deixam os rubro-negros emparelhados ao Peñarol na primeira colocação. Agora, precisam somar pontos nos dois jogos fora de casa para carimbar a passagem às oitavas de final. A quem já viu muita desgraça flamenguista na Libertadores, a desconfiança inconscientemente persiste. Mas a goleada contra o San José assegura uma margem de erro confortável para tentar avançar.