Depois das declarações de Ricardo Lomba, vice-presidente de futebol do Flamengo, diante da eliminação para o Botafogo no Campeonato Carioca, era mais do que esperada uma mudança drástica dentro do clube. De fato, ela aconteceu nesta quinta-feira, e com um impacto amplo. Não apenas o técnico Paulo César Carpegiani perdeu o seu emprego, mas também o diretor executivo Rodrigo Caetano, o gerente de futebol Mozer e outros membros da comissão técnica. Limpa geral que, em certos pontos, parecia necessária, embora o momento da temporada nem de perto seja favorável.

Carpegiani era o mais suscetível à demissão. O treinador que chegou como coordenador, que começou o seu trabalho de maneira tardia, diante da indefinição sobre Reinaldo Rueda, e que nem com um pouco mais de tempo conseguiu demonstrar as bases de sua equipe. A maioria dos resultados impactantes dos rubro-negros veio no início de sua passagem, dentro da rotação no elenco. Entretanto, quando as principais peças começaram a jogar, o time não demonstrou um padrão. Perdeu clássicos, não engrenou sequer no Carioca e tropeçou no jogo mais importante de todos, ao qual a preparação deveria estar voltada – a estreia na Libertadores contra o River Plate. Diante da eliminação no estadual e do início morno no torneio continental, a pressão era grande. E a negação pública do comandante sobre muitos dos problemas acabou sendo a gota d’água. Na ideia de que todo técnico precisa de tempo, e de fato ele teve míseros três meses, a maneira como o veterano lidava com seus entraves não oferecia tantas esperanças de melhora.

Carpegiani, todavia, desde o início não parecia ser a solução. E, diante da insatisfação geral, a queda do técnico é apenas uma decisão que acabaria acontecendo em um momento ou outro da temporada. Faltavam opções no mercado e continuam faltando. O que não se esperava agora, no meio do ano, era a saída de Rodrigo Caetano. Não se esperava, mas se urgia. O diretor executivo, trazido como exemplo de boa administração e gestão profissional, estava longe de demonstrar tal excelência em seu trabalho. Realizou contratações midiáticas, sem conseguir verdadeiramente montar um time equilibrado. Lidou com crises intermináveis neste aspecto, que mais pareciam criadas pelo próprio departamento de futebol, diante de suas decisões questionável. As críticas a Caetano se escancararam especialmente no último ano. Diante delas, sua saída até demorou a ocorrer, considerando que já poderia ter se consumado entre dezembro e janeiro.

Neste momento, o Flamengo realiza uma quebra em duas direções diferentes de seu futebol. Mais superficialmente, muda o técnico que não conseguiu dar a qualidade que se esperava em campo. E, de maneira mais profunda, tira o responsável por controlar o departamento de forma mais ampla. Sim, o elenco ainda continua com suas defasagens. Mas é importante pensar no impacto que a demissão do diretor executivo causará na relação interna. Havia uma evidente comodidade, inclusive entre os jogadores mais tarimbados, minimizando derrotas e fracassos. A limpa geral, neste sentido, tende a ser importante para se refletir na própria postura dos indivíduos. Para se criar um time que realmente perceba a necessidade de vencer, de buscar campanhas realmente significativas e de justificar os altíssimos investimentos.

Apenas as saídas, porém, não bastam. O Flamengo não pode apenas olhar para atrás, mas precisa projetar o futuro. E o tempo urge, com o Campeonato Brasileiro começando no próximo mês, além de uma difícil missão em curso na Libertadores. Agir de maneira radical não é um mérito – já que muito do imbróglio atual é consequência de erros anteriores. O mérito estará em quais serão os escolhidos para tomar as rédeas do futebol agora. Qual será o tipo de visão adotada, sem mais margens para manobra, ainda que a pausa para a Copa do Mundo traga algum respiro. É acertar em cheio ou desperdiçar mais uma temporada – em um ano no qual a política acaba entrando em pauta nos bastidores de diferentes formas.

Difícil vislumbrar um técnico que, neste momento, surja com força para o Flamengo. Há um ou outro nome tarimbado no mercado, mas não caras que tenderão a provocar a melhora no futebol, (o que deveria ser, mas não necessariamente é) a prioridade. Podem até contornar a pressão, tirar mais do elenco, mas talvez careçam de ideias para se refletir dentro de campo. Para demonstrar a qualidade na qual os rubro-negros gastaram muito e não veem. Ou então, o Fla teria que se voltar a apostas. Apostas sem rodagem, apostas estrangeiras. Apostas que precisarão aguentar as dúvidas iniciais e se revelar para aguentar o tranco repentino.

Eu ou você podemos ter palpites. As respostas andam complicadas até mesmo para a diretoria do Flamengo. E se as demissões podem parecer acertadas neste momento, a depender da avaliação de cada um, elas se encadeiam a outras falhas – inclusive de avaliação, sobre que deveria chegar ou quem deveria ficar. Seja por pretensões meramente esportivas ou políticas, a necessidade de ser certeiro se tornou urgente.