O Flamengo celebrou, pela 36ª vez, o título de campeão carioca. Venceu o campeonato que deveria ser um dos mais esquecíveis da história, por todas as questões que o circundam e por todas as discussões que deixam o futebol como um mero detalhe, mas que se tornará por isso mesmo um dos mais lembrados – e controversos. Dentro de campo, faltou de novo um pouco mais de futebol numa partida de muitas faltas e fim arrastado. Dominantes, os rubro-negros fizeram por merecer a vitória por 1 a 0 sobre o Fluminense. E a definição da partida seria simbólica: com um gol de parca beleza, num chute desviado de Vitinho já durante os acréscimos do segundo tempo.

Este será o Campeonato Carioca da pandemia. A competição que seguiu em frente mesmo com a situação da saúde pública no Rio de Janeiro, com o alto número de vítimas do coronavírus e com o hospital de campanha ali do lado no Maracanã. Sem gente no estádio, menos humano em diferentes concepções. O torneio acabou conduzido de maneira alheia a tudo isso e serviu para atender os interesses. Os debates se estenderam das mais diversas formas, da organização dos clubes à gestão sanitária, da política nacional aos direitos de transmissão. Futebol, aquele que se joga com 22 dentro de campo, quase estava fora da pauta.

O Flamengo era o vilão para muita gente, enquanto criou o seu próprio inimigo para enfrentar além dos adversários. Mas, na bola, era mesmo o melhor time do campeonato e provou isso na reta final. Não exatamente com qualidade, diante da maneira como o Fluminense conseguiu travar os rivais, primeiro para conquistar a Taça Rio e depois para arrastar as finais. Mas era difícil imaginar que todo o esforço tricolor suportaria por tanto tempo os rubro-negros nesta quarta-feira. No finalzinho, veio o gol.

Desde o primeiro tempo, o Flamengo poderia ter matado o jogo. Foi intenso e criou boas chances, mas seus jogadores não estavam no dia mais calibrado. Gérson, ditando o ritmo, se sobressaía. O Fluminense seguia como uma postura aguerrida e até exagerava nas divididas, mas também deu seus sustos nos contragolpes. Se os 45 minutos iniciais tiveram sua dose razoável de energia, a etapa final apresentaria um futebol sofrível. O Fla seguiu no domínio, mas sem criar. O Flu também não respondia e indicava seu desgaste. Era um duelo muito mais pegado que jogado, com excesso de faltas e pouco esmero.

O gol resumiria tudo isso. Vitinho roubou a bola e fez, muito graças ao desvio em Nino que encobriu Muriel. Bastou. Foi o grito no Maracanã do mosaico perene, do som da torcida limitado aos alto-falantes e do melancólico vazio das arquibancadas. O título carioca menos Flamengo da história do Flamengo, já que o maior orgulho do rubro-negro é (ou deveria ser) mesmo a sua gente. E não vai ser a conquista para gozar os rivais com o seu jeito de ser, mas sim do distanciamento social e das ocas provocações de rede social. A muitos rubro-negros, sequer há motivos para comemorar. É o primeiro troféu em quatro décadas sem o massagista Jorginho.

Foi o terceiro título do Flamengo em 2020, após a Recopa Sul-Americana e a Supercopa do Brasil. A quinta taça desde que Jorge Jesus desembarcou na Gávea. E, diante de todos os rumores sobre a saída do treinador, ele seria o mais festejado pelos jogadores na cerimônia de premiação. O comandante merece a gratidão do grupo pela maneira como aproveitou o potencial máximo de diversos atletas e ajustou a equipe, assim como dos torcedores rubro-negros por todas as emoções nos últimos meses. Se realmente sair, se vai como um dos maiores técnicos da história do Fla, sem sombra de dúvidas. E querido por sua trajetória.

O Campeonato Carioca chega ao fim e uma grande notícia é realmente o fato de que acabou. Pelo menos por ora, diminuem as discussões infindáveis ao redor de uma competição de qualidade mínima e que, a bem da verdade, já poderia estar com os dias contados (ao menos nesse formato inchado) como o restante dos estaduais. O Flamengo adiciona uma taça na sua galeria e, em tempos nos quais não dá para prever qualquer passo, sabe-se lá qual vai ser a impressão sobre este torneio anos depois. Certo é que dificilmente será lembrado pelo futebol, como as tantas campanhas que os rubro-negros exaltam e com as quais construíram sua verdadeira grandeza.