Maracanã, quartas de final da Libertadores, mais de 66 mil vozes nas arquibancadas. O ambiente denotava a grandeza da ocasião, enfatizada pelo barulho em máximo volume e pelas cores que prendiam os olhares ao redor do gramado. Flamengo e Internacional não tinham outra escolha a não ser a busca por 90 minutos intensos, em seu primeiro confronto decisivo pela competição continental.

Seria uma partida disputada na vontade, no limite, na tensão. Seria travada também na mente, entre dois times extremamente focados, que não podiam dar margens aos erros. Até por isso, o período em que o duelo se abriu foi relativamente curto, mas valeu a noite aos flamenguistas, que festejaram demais no Maraca. Se os colorados viajaram ao Rio de Janeiro para tentar fazer o seu resultado, e cumpriram isso à risca ao longo de três quartos do tempo, os rubro-negros estavam mais dispostos a jogar. Sem a sombra dos traumas passados em casa na Libertadores, o Fla foi mais time nesta quarta. E não teve quem o segurasse, nem mesmo a sólida defesa adversária, quando a aceleração atingiu seu ápice. Com várias individualidades se sobressaindo no coletivo de Jorge Jesus, Bruno Henrique fez mais diferença do que qualquer outro e garantiu a vitória por 2 a 0. Ofereceu um triunfo digno à ebulição da torcida em vivo sonho.

Apesar dos mistérios e das dúvidas por lesão, Flamengo e Inter entraram em campo com força total. Jorge Jesus apostou em De Arrascaeta e Éverton Ribeiro na armação, deixando Gerson no banco. Já no ataque, Gabigol estava confirmado, ao lado de Bruno Henrique. Odair Hellmann também não precisou lamentar a ausência de Edenílson, vital neste momento dos colorados, em trinca central com Patrick e Lindoso. Além disso, o treinador optou por Rafael Sóbis mais aberto, deixando Nico López no banco.

O duelo começou muito tenso, com os times encontrando dificuldades para construir jogadas mais agudas. Compacto, o Inter equilibrou os primeiros instantes. Além disso, mais importante era o trabalho dos gaúchos em congestionar a faixa central do campo e conter as trocas de passes do Flamengo. Os cariocas tinham problemas para se aproximar da área adversária e só ameaçaram quando chutaram de média distância. Marcelo Lomba foi testado pela primeira vez aos oito minutos, em arremate de Everton Ribeiro que o goleiro buscou no canto. A jogada se repetiria aos 18, desta vez com Bruno Henrique, para mais uma boa intervenção de Lomba.

Sobrava pegada em campo. Alguns jogadores chegaram a se estranhar e a partida também ficou picada pelas faltas. Além do mais, cada qual à sua maneira, as duas equipes imprimiam intensidade sem a bola. O Flamengo adiantava a marcação e pressionava a saída dos colorados, enquanto o Inter montava as trincheiras ao redor de sua área. Por isso mesmo, o primeiro tempo careceu de emoções. Exceção feita a uma bola levantada ou a uma finalização deficiente, raríssimos eram os perigos de gol. O Fla controlava a posse, sem conectar da melhor maneira os seus homens de frente. Por mais que Éverton Ribeiro se apresentasse à organização, os gaúchos mordiam sempre o dono da bola na intermediária.

Os esboços de oportunidades claras só aconteceram nos cinco minutos anteriores ao intervalo. Primeiro, com o Internacional. Patrick descolou uma arrancada pela esquerda e permitiu que a bola pipocasse na área. Foram três instantes em que os colorados puderam chutar, mas a zaga conseguiu abafar. Guerrero até reclamou de um pênalti, mas nada suficiente para que a arbitragem marcasse. Do outro lado, a resposta do Flamengo foi ainda mais firme. Filipe Luís deu um ótimo cruzamento rasteiro para Éverton Ribeiro na entrada da área. O meia passou para Gabigol e o atacante achou que havia se livrado da marcação, mas Moledo deu um carrinho providencial. Amorteceu a bola e ajudou a defesa de Lomba, que mesmo assim botou para escanteio.

O breve alento não impediu Jorge Jesus de realizar sua primeira alteração logo na volta ao segundo tempo. Gerson entrou no lugar de Arrascaeta, que não estava muito ligado no jogo, e o substituto melhorou o meio-campo com seu toque de bola. As faíscas também voltaram a pulular no Maracanã logo no primeiro minuto, após Guerrero e Rafinha se trombarem, enquanto a torcida vigorosamente perseguia seu antigo centroavante. O filme da partida, afinal, não mudara em relação aos 45 minutos iniciais. O Flamengo continuava com a posse de bola, se movimentando e tentando abrir a marcação. Era um confronto de ajustes táticos muito finos e concentração dos jogadores, que primavam pela precisão nos combates, mas sem se arriscar.

Num duelo de zero erros, a poeira nas arquibancadas do Maracanã baixou. A apreensão era evidente. E os dois times seguiam o seu jogo de xadrez, com os técnicos acionando suas peças no banco de reservas. Logo Odair Hellmann deu pernas novas aos lados do meio-campo, com as entradas de Wellington Silva e Nico López, nas vagas de D’Alessandro e Rafael Sóbis. Já o Flamengo atuava num misto de paciência e falta de ousadia. Os rubro-negros rodavam muito a bola, mas a marcação em cima dos colorados não permitia a verticalidade pedida por Jorge Jesus. Willian Arão era onipresente, tentando dar mais opções ao seu time. Contudo, andava difícil criar, sem que os gaúchos concedessem um respiro aos anfitriões.

Por volta dos 28 minutos, o Internacional permitiu-se acreditar na possibilidade da vitória. Os colorados avançaram em campo e tentaram duas vezes em bolas levantadas na área. Entretanto, a iniciativa dos visitantes tornou-se justamente a sua perdição. O gol do Flamengo saiu aos 30, achando os espaços que o Inter não havia concedido durante todo o segundo tempo. O lance começou com Filipe Luís, que realizou o desarme no campo de defesa e avançou a partir de uma tabela. Éverton Ribeiro recebeu e deu uma linda fatiada na bola, conectando com Bruno Henrique na entrada da área. O atacante foi travado, mas Gerson apareceu para brigar pela sobra e tirou de Lomba com imensa frieza. Entregou de bandeja ao próprio Bruno Henrique e, ante à meta ao seu dispor, o destaque da noite não perdoou.

O Maracanã se inflamou depois do gol e o Internacional se desconcentrou. Três minutos depois, o Flamengo capitalizou o momento e aumentou a contagem. Filipe Luís era outro em grande exibição, ao centralizar o jogo e auxiliar no domínio exercido pelos rubro-negros. O lance começou com o lateral, que passou a Gabigol. Então, este serviu Bruno Henrique e o artilheiro girou para cima de Cuesta, antes de tirar do alcance de Lomba. Belo tento. Parecia uma noite mágica aos cariocas, tranquilos como nunca na Libertadores, algo espantoso ao histórico das últimas décadas.

O Internacional, que antes parecia satisfeito com o empate, estava um tanto quanto perdido sobre o que fazer. Houve a reclamação de um pênalti por toque involuntário no braço de Rodrigo Caio, mas a arbitragem corretamente não marcou. O jogo permanecia favorável ao Flamengo e o terceiro gol só não saiu aos 40 por mero acaso. Gerson deu uma metida de bola fantástica a Bruno Henrique, o atacante ganhou de Lomba e, na hora de retribuir a Gabigol, viu o amigo furar a oportunidade clamorosa dentro da área.

Só depois disso é que os colorados realmente acordaram. Botaram pressão, sobretudo nos seis minutos de acréscimos. A defesa rubro-negra se esforçava para manter a diferença intacta, com Rodrigo Caio liderando o setor. Para sorte do Flamengo, quando surgiu a chance, a bola caiu nos pés de Nico López, em péssima fase. Ele poderia ter descontado ao cortar a marcação, mas mandou para fora com o ângulo aberto. Depois, o uruguaio bateria para defesa tranquila de Diego Alves. O apito final faria os gaúchos sentirem ainda mais a realidade. A tarefa do Inter no Beira-Rio será complicadíssima.

O Flamengo tirou um caminhão das costas contra o Emelec. Sem o mesmo nível de pressão ante o Internacional, podendo encarar os oponentes de igual, o time rubro-negro fez o seu jogo com mais segurança. E o melhor momento da equipe, quando desmontou a defesa colorada, reafirmou a quantidade de recursos ofensivos que Jorge Jesus tem à sua disposição. Sobra qualidade individual, que também se encadeou coletivamente. O Fla aumenta o nível de confiança neste novo trabalho. O resultado foi a combustão de Bruno Henrique na linha de frente.

Ao Internacional, resta depositar suas fichas no Beira-Rio. Se o desempenho do time vinha melhorando fora de casa durante as últimas semanas, a derrota no Maracanã se torna dolorosa pela maneira como aconteceu. A atuação até então perfeita na defesa foi punida tão logo se interrompeu e a demora para buscar o ataque não deu tempo à reação. O confronto permanece aberto, pelo encaixe que a equipe colorada possui e também pela enorme tarimba de seus homens de frente para decidir. Mas sonhar com o tricampeonato da Libertadores, neste momento, depende de uma reviravolta na próxima semana.

 

*As notas são atribuídas pelo SofaScore, baseadas nas estatísticas da partida.