As derrapadas dos times alemães na Liga dos Campeões na semana passada ofuscaram o fato de que, quase no mesmo momento, Michael Ballack anunciou o fim da sua carreira. Junto com a aposentadoria, leva consigo lembranças de bons e maus momentos dentro e fora de campo e a certeza de ter sido um dos maiores jogadores alemães da última década. Mais do que isso, marca também o fim de 20 anos de xerifes no meio-campo do país.

Ballack tem uma personalidade forte. É o típico jogador-problema, e muitos brasileiros que conviveram com ele relatam isso de maneira bem explícita. Dentro de campo, era competitivo ao extremo, assim como seus antecessores. Reúne características de jogadores como Stefan Effenberg, que “pisava em cima de cadáveres, se necessário” para vencer partidas, Lothar Matthäus, não muito bem quisto pelos companheiros de seleção, mas decisivo quando necessário. Ou mesmo Andreas Möller, apelidado de “bebê chorão” de tanto reclamar da vida.

Ballack não era um fora de série, mas englobava várias características de um. Não chegava a fazer malabarismos com a bola no pé, mas cabeceava, batia faltas e acertava lançamentos com eficiência. Foi ídolo no Bayer Leverkusen que chegou à final da Liga dos Campeões de 2001/02 e saiu derrotado pelo Real Madrid. Foi importante também no Bayern Munique e no Chelsea e disputou incríveis 98 jogos pela seleção alemã, com 42 gols marcados. Nesse tempo, colecionou confusões dentro e fora das quatro linhas, brigou com meio mundo de gente. De volta ao Leverkusen em 2010, jogou pouco, mas seguiu criando confusões e sendo ídolo da torcida, com a qual chegou a cantar junto em algumas partidas. Além de dar declarações afirmando que na seleção alemã atual só existem “cordeirinhos, puxa-sacos de Joachin Löw”.

A frase foi muito forte, é verdade. Mas Ballack está certo quando diz que não há mais “maus meninos” no Nationalelf. Bastian Schweinsteiger é um líder técnico, mas dificilmente está envolvido em brigas ou confusões. Philipp Lahm, atual capitão, falou um bocado de verdades em sua biografia, mas logo depois pediu desculpas pelo tom. Mats Hummels é uma espécie de Paulo André alemão, jogador inteligente, focado na carreira, mas não compra briga com ninguém. Os outros jogadores, em maior ou menor proporção, não se arriscam a passar dos limites do bom mocismo. Thorsten Frings, que tinha imagem parecida com a de Ballack, brigou com Löw em 2009 e, aos 36 anos, também não faz mais parte dos planos da seleção.

A ausência desse “bandido”, esse cara que faz de tudo pela vitória, pode ter prejudicado a jovem seleção alemã. Em alguns momentos das semifinais contra a Espanha em 2010 e principalmente contra a Itália, na Eurocopa 2012, faltou um líder. Alguém para botar a bola debaixo do braço, acalmar os companheiros e dizer que a virada era possível. Nas duas partidas, Schweinsteiger deveria ter assumido esse papel, mas ficou limitado a atuar de maneira mais defensiva e não rendeu o que costuma render.

Essa falta pode ser compensada com um amadurecimento coletivo, capaz de fazer com que os alemães saibam se portar diante de situações adversas. Quando não há esse líder, a responsabilidade precisa ser mais diluída e vários jogadores da atual equipe, como Mesut Özil, são bastante experientes, apesar de jovens. Cabe a eles a missão de fazer com que o Nationalelf volte a vencer em nível mundial, e não será batendo recordes atrás de recordes nas eliminatórias que isso irá acontecer.