A Euro 2016 foi a chance de uma carreira, na qual ele jogou com enorme dedicação. Gábor Király, independente da idade, entregou o máximo pelo sucesso da seleção húngara na França. Sua importância já tinha começado antes disso, com participações notáveis nas eliminatórias, em especial na repescagem diante da Noruega. E permaneceu como um esteio da boa campanha na fase final. Sim, teve os seus momentos de “tiozão do churrasco”, com galhofas e lances de efeito em plenos jogos. Mas também acumulou grandes defesas. A ponto de, apesar da goleada sofrida para a Bélgica, sair como um dos melhores em campo nas oitavas de final. Mesmo com um dedo quebrado em um de seus milagres, a dor não o tirou de campo. E o lance da lesão, em falta cobrada por De Bruyne, foi considerado pela Uefa como uma das 10 melhores defesas da temporada europeia.

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Por fim, a participação na Eurocopa não se tornou apenas um objetivo cumprido para o currículo. Foi o sonho de vida de representar seu país em uma grande competição. De presenciar uma torcida fanática, sedenta desde 1986, tomar arquibancadas e ruas francesas. E, depois de 18 anos, por fim, aposentar as luvas da seleção. Király pode não ter sido um dos melhores goleiros de seu tempo, apesar da carreira sólida. Também está abaixo de lendas magiares, de antigos esquadrões. Ainda assim, o compromisso desde 1998 vale o seu lugar na história da Hungria. Especialmente pela maneira como simbolizou um time que tem suas limitações, mas trabalhou duro para voltar ao cenário internacional do futebol em 2016.

Király ganhou sua primeira chance na equipe nacional um ano depois de ter deixado o Haladás, seu primeiro time no país, rumo ao Hertha Berlim. Foi primordial em bons tempos do clube da capital alemã, ao mesmo tempo em que ocupava a meta de um país já acostumado com o mero papel de coadjuvante nas eliminatórias europeias, após o futebol com base estatal se desmoronar junto com a queda da cortina de ferro. Assim se manteve, nem sempre como titular. Mas com o trunfo de quem também dava passos firmes em sua carreira por clubes, incluindo tradicionais como Crystal Palace, Burnley e Munique 1860.

Durante a campanha rumo à Eurocopa, Király deixou a Alemanha, onde já se tornara figurinha carimbada na segunda divisão. Teve curta passagem pelo Fulham, quase sempre no banco, e estava de volta ao Haladás quando a Hungria conquistou a classificação. Ligava a ponta inicial à final de sua carreira no momento de maior destaque. Neste intervalo, superou a marca de 100 jogos pela seleção. Ultrapassou o lendário capitão József Bozsik como aquele que mais vestiu a camisa magiar. E declarou seu adeus nesta semana, apesar das expectativas de que ainda pudesse liderar o time no sonho pela Copa de 2018.

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“Após o fim da última temporada, eu abri mão de mais de um mês para me preparar duramente à Eurocopa, sem descanso. Eu dei toda a minha energia nisso, o que também me indicou que estou no limite. Sou um perfeccionista e quero oferecer o máximo desempenho. Mas agora tenho 40 anos e não consigo conciliar mais o clube com a seleção. Eu decidi que não havia despedida mais digna do que a Euro, a qual causou muito orgulho no povo húngaro, por ver o nosso futebol novamente em um grande palco de real febre pelo esporte. Sou imensamente grato pelas 107 vezes em que vesti esta camisa. Recebi muito amor e muito encorajamento dos torcedores, e agradeço a eles. Por causa da confiança colocada em mim, tentarei ajudar o futebol húngaro no futuro. A seleção segue com um torcedor incondicional”, declarou, em carta publicada por seu site pessoal.

A calça de moletom, marca inegável de suas peculiaridades e também da personalidade de quem prefere se ver como “um goleiro, não um modelo”, pode ser o primeiro aspecto a se lembrar em torno da carreira de Király. Mas não o único. A regularidade, o empenho e a vontade são muito mais emblemáticos em 18 anos de seleção. O veterano se despede deixando herdeiros dignos na meta magiar: Péter Gulácsi, Dénes Dibusz e Ádám Bogdán. Que podem se espelhar na dedicação do velho ídolo para tentar recolocar a Hungria em alto nível brevemente.

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