Petr Cech é um nome obrigatório em qualquer lista que apresente os 10 melhores goleiros do futebol mundial neste século. O tcheco se manteve por anos no mais alto nível, sobretudo enquanto vestia a camisa do Chelsea. Enfrentou altos e baixos, lidou com lesões gravíssimas, sofreu questionamentos. Mas também viveu e reviveu o seu esplendor para conquistar um punhado de títulos emblemáticos. Não apenas ajudou os Blues a se firmarem entre as potências na Premier League, como também se tornou essencial para romper fronteiras durante a conquista da Liga dos Campeões em 2012. Uma lenda, que agora prepara o seu adeus. Às vésperas de completar 37 anos, o veterano do Arsenal confirmou que esta temporada será a sua última.

“Essa é minha vigésima temporada como um jogador profissional e se passaram 20 anos desde que assinei meu primeiro contrato, então sinto esse como o momento certo para anunciar que me aposentarei ao final da temporada. Tendo jogado por 15 anos na Premier League e conquistando cada troféu possível, sinto como se tivesse alcançado tudo o que dava. Continuarei trabalhando duro no Arsenal para ganhar uma taça a mais nesta temporada. Então, verei o que a vida guarda para mim fora dos gramados”, escreveu Cech, em suas redes sociais.

Quando surgiu no Campeonato Tcheco, Cech logo se provou um fenômeno. O garoto que dera seus primeiros passos como atacante no Viktoria Plzen se transformou em um goleiro excepcional. Fez parte de todas as seleções de base e estreou profissionalmente com a camisa do Chmel Bisany. Ficaria pouco tempo por lá, até assinar com Sparta Praga, potência nacional. E uma temporada bastou para que o prodígio fosse pinçado pelo Rennes. Aos 20 anos, mudou-se para França e se colocou entre os melhores goleiros da Ligue 1. Concomitantemente, Cech também virou uma grande certeza na seleção de República Tcheca. Sua estreia na equipe principal aconteceu em 2002, mesmo ano no qual conquistou o Campeonato Europeu Sub-21 – eleito o melhor jogador da competição. O arqueiro participaria ainda da campanha fabulosa na Euro 2004.

Aquele era só o começo de uma carreira brilhante, que se confirmou no Chelsea. Os londrinos passaram meses negociando o arqueiro, até confirmarem sua transferência em fevereiro de 2004, sob as ordens de Claudio Ranieri. E a quem não o conhecia, ele desembarcaria apenas no segundo semestre, respaldado pelos milagres na Eurocopa. No início dos anos abastados com Roman Abramovich, o tcheco foi escolhido para se tornar o dono da meta em Stamford Bridge. Todavia, o que se prometia ao futuro não demorou a se realizar, com a lesão de Carlo Cudicini logo na pré-temporada. O novato tomou a posição na equipe de José Mourinho e virou intocável. Liderou uma das melhores defesas da história do Campeonato Inglês. Sustentou recordes de invencibilidade e foi eleito o melhor goleiro da Premier League em seu primeiro ano, acumulando 24 rodadas sem sofrer um gol sequer.

Naquele momento, o jovem Petr Cech viveu a melhor fase de sua carreira. Foi bicampeão inglês e sua influência era tão grande que logo ascendeu como um dos senadores do Chelsea – uma liderança técnica em campo, bem como uma mente forte nos vestiários. Em 2006, também disputou sua única Copa do Mundo com a República Tcheca. Só que o esplendor seria interrompido num rompante, em outubro de 2006. A lesão no crânio que sofreu contra o Reading colocou em risco a própria vida do tcheco, bem como o afastou dos gramados por três meses. Teria um impacto grande em seu estilo de jogo. Embora tenha voltado bem ao segundo turno da temporada 2006/07, as oscilações se tornaram mais constantes. Ainda era um bom goleiro, mas não tão espetacular e arrojado quanto antes.

Aos poucos, Cech se adaptou à nova realidade. Recolocou-se como um dos melhores goleiros do mundo, incrivelmente seguro e dono de ótimo posicionamento. Suas defesas podiam não ser tão explosivas quanto antes, mas a confiança permanecia sob as traves. Foi vice da Liga dos Campeões em 2008, reconquistou a Premier League em 2010. E a confirmação desta maturidade aconteceu no maior palco, a final continental. A Champions era uma ambição persistente aos Blues. Que se consumou a partir de uma atuação magistral do camisa 1 contra o Bayern de Munique. Essencial em toda a campanha, o tcheco foi monstruoso na Allianz Arena. Pegou o pênalti de Arjen Robben na prorrogação, além de parar Ivica Olic e Bastian Schweinsteiger na disputa derradeira. Acertou o canto de todas as seis cobranças dos bávaros, mesmo sem pegar três delas, e foi eleito o melhor em campo pelo site da Uefa.

O moral de Cech permaneceu inabalável por mais duas temporadas. Porém, cabia ao Chelsea pensar no futuro e o clube, que havia contratado Thibaut Courtois ainda no início da década, preferiu trazer o goleiro em definitivo após três temporadas de empréstimo ao Atlético de Madrid. Os problemas constantes do tcheco com as lesões preocupavam e o belga tomou a posição. Ambos construíram uma relação amistosa em Stamford Bridge, na temporada que culminou com mais um título dos Blues na Premier League. De qualquer forma, o veterano não queria esquentar banco para ninguém. Preferindo seguir em Londres, aceitou a proposta do Arsenal. Embora alguns torcedores indagassem a escolha, a idolatria se manteria.

A transferência ao Estádio Emirates, em 2015, ofereceu um gosto agridoce a Cech. O goleiro continuou sendo uma figura respeitadíssima na Inglaterra e na República Tcheca. Pela seleção disputou sua quarta Eurocopa em 2016, encerrando a carreira internacional como recordista em partidas por seu país. Porém, também sofreu com sua irregularidade em um clube distante de viver os momentos mais pródigos. Falhou e foi criticado no Arsenal. Mas ao menos deixou as lembranças de lampejos e outras tantas defesaças que colecionou pelos Gunners, faturando a Luva de Ouro da Premier League em 2016. Por três temporadas consecutivas, permaneceu honrando a nova camisa, com um profissionalismo e uma liderança louváveis. Até que o corpo voltasse a limitar seu espaço e, neste ano, acabasse suplantado por Bernd Leno.

A decisão de Petr Cech em abraçar a aposentadoria representa a sua sede por fazer história. Não aceita o banco de reservas, não aceita jogar em um clube menor. Aos 37 anos, de qualquer maneira, sua contribuição já foi mais do que estabelecida. Não seria loucura colocá-lo como melhor goleiro da era Premier League, em disputa acirrada com Peter Schmeichel, Edwin van der Sar, David Seaman e outras lendas. Da mesma forma como seu lugar como maior arqueiro da história do Chelsea é inquestionável. As glórias dos Blues, durante uma década, passaram por aquelas luvas. Cech foi o guardião de anos fantásticos, por clubes e seleção.