A investigação do FBI que prendeu nove dirigentes, causou a renúncia do presidente da Fifa, Joseph Blatter, e modificou completamente o panorama da política do futebol internacional também examinará o processo de escolha das Copas do Mundo de 2018 e 2022. Segundo a Reuters, o FBI confirmou que as candidaturas da Rússia e do Catar fazem parte de um inquérito dos federais americanos que vai além das acusações já publicadas. Até então, o foco estava voltado mais para os Mundiais da Alemanha e da África do Sul. O do Brasil ainda não entrou no jogo.

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A Copa da Rússia talvez esteja próxima demais para ser cancelada, mas a do Catar é muito mais frágil. Até porque os problemas não começaram agora. Sempre houve preocupação com o calor excessivo do país do Oriente Médio, com as modificações pelas quais o calendário deveria passar para acomodar um torneio no inverno do hemisfério norte e principalmente pelas denúncias de trabalho escravo e morte de operários imigrantes durante as obras para a competição. Segundo um relatório da Confederação Sindical Internacional, 1,2 mil trabalhadores imigrantes já morreram na preparação para a Copa do Mundo e esse número pode chegar a 4 mil. O Washington Post publicou esses dados e fez um gráfico comparando com a organização de outros torneios:

gráfico washington post

 

Essa matéria do Washington Post motivou uma resposta do governo catariano uma semana depois. Sem apresentar nenhum outro relatório independente ou dados para apoiar as suas afirmações, disse que até agora, após “quase cinco milhões de horas de trabalho na construção da Copa do Mundo”, nenhum operário perdeu a vida. Nenhum. “Parece que o Post simplesmente pegou o número total de mortalidade de imigrantes da Índia e do Nepal trabalhando no Catar e multiplicou esse número pelos anos que faltam para a Copa do Mundo de 2022 – um cálculo que assume que a morte de qualquer trabalhador imigrante no Catar é relacionado ao trabalho”, afirmou o governo em um comunicado. Não foi o Washington Post que fez isso, foi a Confederação Sindical Internacional, que visitou o país para conhecer de perto a situação dos trabalhadores.

Em entrevista à Fox News, o ex-primeiro ministro catariano Hamad bin Jassim bin Jaber al-Thani disse que o problema do ocidente com a Copa do Catar é muito mais simples do que trabalho escravo, corrupção ou o calor: preconceito. “Não é porque somos um país pequeno, árabe e islâmico?”, questionou. O ministro de Relações Exteriores, Khaled al-Attiyah, seguiu a mesma linha de argumentação. Mais forte até. “É muito difícil para alguns digerir que um país islâmico e árabe ganhou esse torneio, como se esse direito não possa ser concedido a um país árabe. Eu acho que é por causa de preconceito e racismo que existe essa campanha contra o Catar”, afirmou. “Não há possibilidade de perdermos a Copa”.

A Rússia reagiu aos novos acontecimentos praticamente como se nada demais estivesse acontecendo. Disse que ficou surpresa com a renúncia de Blatter e que a preparação para a Copa do Mundo de 2018 está indo muito bem, obrigado. “Qualquer interferência política no futebol é ilegal”, disse o vice-primeiro ministro Arkady Dvorkovich. “Nossa preparação está melhor que a dos outros países. Aprendemos com eles”.

Quem deu uma olhada bem de perto nas candidaturas desses dois países foi o investigador independente contratado pela Fifa, Michael Garcia, que se demitiu quando a entidade se recusou a publicar o seu relatório final na íntegra. Os promotores suíços também estão trabalhando nisso há algum tempo e recentemente apreenderam o equivalente a milhões de páginas de documentos na sede presidida por Blatter em Zurique. Agora, o FBI entrou na arena para também tentar descobrir se houve corrupção nas eleições que deram à Rússia e ao Catar o direito de sediar a Copa do Mundo. Se houver alguma coisa, uma hora alguém encontra.

A COBERTURA DO FIFAGATE:

EDITORIAL:
– Já podemos comemorar: Blatter entregou a presidência da Fifa

PRISÕES

– Jack Warner usa notícia de site de humor para se defender em um vídeo maravilhoso (de ruim)
– [Vídeo] Os Simpsons já tinham previsto o Fifagate desde o ano passado
– Entenda por que os Estados Unidos foram responsáveis pela prisão de dirigentes da Fifa
– Romário: “Muitos dos corruptos e ladrões que fazem mal ao futebol foram presos”
– Veja quem são os cartolas presos na Suíça. José Maria Marin está entre eles

INVESTIGAÇÃO

– A trilha do escândalo da Fifa chega em Valcke e nunca esteve tão próxima de Blatter
– Justificativa da África do Sul para pagamentos só aumenta suspeita de suborno
– Bancos ingleses vão investigar contas da Fifa, e o cerco vai se fechando
– A pedido do FBI, Polícia Federal visita empresa argentina que controla Libertadores
– Hawilla tem time em Portugal e investigações do Fifagate podem chegar lá
– Lei paraguaia impede polícia de investigar documentos e dinheiro na sede da Conmebol
– Patrocinadores deveriam se espelhar em dois casos nos EUA e ser mais enérgicos com a Fifa
– O Fifagate explodiu e contamos como aconteceu e quem são os envolvidos
– Como o escândalo da Fifa pode abrir a caixa preta da Libertadores na TV
– Quem são os “co-conspiradores” na investigação do FBI sobre corrupção na Fifa
– Putin quer transformar escândalo da Fifa em uma guerra fria
– De dono do futebol brasileiro a delator: a ascensão e queda de J. Hawilla

CONSEQUÊNCIAS

– A Fifa precisa ser refundada para atuar como a corporação multinacional que ela sempre foi
– Até Copa do Mundo clandestina está na pauta da Uefa para se distanciar da Fifa
– Com organização envolvida no Fifagate, a realização da Copa América Centenário está em dúvida
– Barcelona, está na hora de conversarmos sobre sua amizade com o Catar

REELEIÇÃO E QUEDA DE BLATTER

– De cantor a enólogo, quais carreiras Blatter pode retomar agora que ficou desempregado?
– Hora de se divertir com fotos dos melhores momentos de Joseph Blatter na Fifa
– O que mudou nos últimos dias para o reeleito Blatter renunciar à presidência da Fifa?
– A nota da CBF sobre a renúncia de Joseph Blatter é uma grande piada
– Já podemos comemorar: Blatter entregou a presidência da Fifa
– Em 1997, Blatter negava que concorreria à presidência da Fifa: “23 anos são o bastante”
– Blatter sobreviveu à eleição na Fifa, mas difícil mesmo será terminar o mandato
– CBF traiu a Conmebol, votou em Blatter na eleição da Fifa e ajudou a rachar a América do Sul