Logo após a conquista da Copa da Ásia, uma foto reunindo quatro jogadores campeões com o Catar passou a circular nas redes sociais. Ela reunia Tarek Salman, Akram Afif, Salem Al Hajri e Yousuf Hassan posados no mesmo time. A imagem, porém, nem de longe era recente. O quarteto, atualmente na casa de seus 22 anos, defendia a mesma equipe sub-9. E a imagem de mais de uma década atrás não é mera coincidência em um país pequeno, que começou a investir no futebol de alto nível de maneira relativamente recente. Na realidade, ela exibe um trabalho que se desdobra há anos nas categorias de base. Tem até nome: Academia Aspire. O projeto sempre foi, internamente, a menina dos olhos do futebol local. Não à toa, pode ser apontado como o principal responsável pela façanha na competição continental.

Dos 23 jogadores que compõem o elenco campeão da Copa da Ásia, 11 deles possuem 22 anos ou menos. Não é uma simples renovação, e sim um crédito de confiança ao que acontece nos corredores da Academia Aspire, onde a maioria absoluta destes jovens futebolistas atuou. Embora outros atletas mais velhos também tenham passado pelo projeto, como o goleiro Saad Al Sheeb e o zagueiro Abdelkarim Hassan, o processo completo se dá agora, justamente com aqueles meninos integrados desde a infância pelas escolinhas de base financiadas pelo governo local. Como costumam comparar, uma “Hogwarts do Futebol”, que na verdade se espelha no que fizeram diversos países desenvolvidos para alavancar seus esportistas.

A Aspire teve seu pontapé inicial em 2004, a partir de um decreto do emir. A ideia era de que a academia unisse a educação básica a uma formação esportiva de primeiro mundo. Há uma base excepcional de pesquisa científica e de apoio tecnológico, à disposição de milhares de crianças catarianas. O trabalho inclui outras modalidades, especialmente o atletismo, embora sempre estivesse claro que o futebol é um elemento primordial na política internacional do governo catariano. Assim, o principal intuito da Aspire estava dentro de campo. Trouxeram treinadores e dirigentes de outros países, visando aprimorar o talento dos garotos locais.

Durante um tempo, a Aspire também soou como parte de um projeto de naturalização de jogadores estrangeiros ao Catar. A academia construiu filiais em outros cantos do mundo, sobretudo na África, na Ásia e na América Latina, dando apoio na ascensão de futebolistas nos países em desenvolvimento. Há uma base importante do projeto no Senegal, inclusive. Diante disso, havia a acusação constante de que os catarianos estavam lapidando promessas em outros países para se tornarem referências de sua seleção. Da mesma forma, na época da escolha da península como sede da Copa do Mundo de 2002, apontaram que um dos acordos para “ganhar votos” estava no envio de olheiros a estas nações periféricas.

Nesta primeira fornada de jovens que rende frutos à seleção principal, só haviam dois jogadores nascidos fora do país entre os aqueles 11 com 22 anos ou menos: o atacante Almoez Ali e o defensor Bassam Al-Rawi. Não à toa, ambos foram alvos do recurso apresentado pelos Emirados Árabes Unidos após as semifinais, afirmando que não eram elegíveis segundo as regras da Fifa. Ali chegou do Sudão ainda criança e Al-Rawi veio do Iraque na adolescência. Conforme a justificativa acatada pela confederação asiática, ambos têm mães catarianas e, por isso, podem figurar nas convocações. Além da dupla, os outros três nascidos fora da península (Ró-Ró, Karim Boudiaf e Boualem Khoukhi) se juntaram ao seleção após chegarem na casa dos 20 anos ao Campeonato Catariano e passarem quase uma década atuando nos clubes locais. O trio está em situação totalmente legal.

Acusar o Catar de reunir jogadores sem ligação com o país à seleção, como acontece em outras modalidades e houve até casos no futebol, não faz sentido nesta Copa da Ásia. O que não significa, entretanto, que a Academia Aspire ignore os jogadores com origens em outros países. Além de Almoez Ali, há outros dois atletas com ascendentes sudaneses. Em uma nação de população diminuta como o Catar, nada mais natural que aproveitar as possibilidades também entre os imigrantes – um processo comum entre outras seleções. Mais importante que as raízes, neste caso, foi a possibilidade de aprimoramento dado pela Academia Aspire. E a campanha surpreendente dos catarianos torna o sucesso do trabalho de formação inegável, que abrange uma parte massiva da juventude na península. Aí é que se concentra o grande mérito.

Entre as seleções de base, os melhores resultados do Catar são relativamente recentes. O país se classificou ao Mundial Sub-20 em 2015 e novamente estará presente no torneio em 2019. Já a seleção sub-23 acumula bons resultados na Copa da Ásia da categoria, realizada a cada dois anos. Os catarianos foram semifinalistas nas duas últimas edições – eliminados em 2016 pela Coreia do Sul e em 2018 pelo também ascendente Vietnã. Os reflexos deste trabalho, totalmente calcado na Aspire, se refletem significativamente na seleção principal do Catar. Ao longo dos últimos anos, os Al-Annabi conseguiram fazer convocações às seleções de base apenas com jogadores desenvolvidos no projeto.

Outro detalhe importante está nas próprias oportunidades que a Aspire concede aos seus graduados quando estão próximos de se tornarem profissionais. A academia possui parcerias com vários clubes ao redor da Europa. Assim, é comum que os jovens passem períodos emprestados a equipes de ligas importantes, antes de retornarem ao Campeonato Catariano. Dos 23 jogadores que disputaram a Copa da Ásia, apenas um não atua por times locais: o meia Khaled Mohammed, de 18 anos, que está justamente nesta fase de intercâmbio. Já passou pela base do Leeds United e, atualmente, trabalha com os profissionais da Cultural Leonesa, agremiação da terceira divisão espanhola gerida pela própria Aspire. Ao todo, 10 dos 11 jogadores sub-22 deste elenco campeão tiveram alguma passagem pelo exterior. Sete deles vestiram a camisa do Eupen, o “braço” da academia na Europa. O clube belga foi comprado pelos catarianos em 2012 e, desde então, tem sido o principal destino nessa transição.

Mais um dado que chama a atenção é o transito destes talentos do Catar pelo futebol espanhol. A lista de clubes que abrigaram os jogadores da seleção em algum momento é ampla e inclui Atlético de Madrid, Sevilla, Real Sociedad, Celta, Villarreal, Alavés, entre outros. O modelo de trabalho da Aspire, afinal, é inspirado nos ideais aplicados pelas categorias de base dos grandes clubes de La Liga. As passagens de Raúl e Xavi pelo Campeonato Catariano, por exemplo, são sinais desta aproximação. O atual chefe da academia, por sua vez, trabalhou por anos como executivo do Real Madrid. Além do mais, alguns dos principais mentores do projeto em Doha são treinadores espanhóis. Entre eles, aquele que pode ser apontado como o homem capaz de transformar a história da seleção catariana: o técnico Félix Sánchez Bas, de 43 anos.

Nascido em Barcelona, o comandante possui uma grande escola por trás de seus ideais. Trabalhou de 1996 a 2006 em La Masía, aprendendo os métodos na base do Barça e trabalhando com jogadores renomados, a exemplo de Sergi Roberto e Gerard Deulofeu. Deixou os blaugranas justamente para auxiliar na Academia Aspire, assumindo um grupo de 800 garotos nascidos a partir de 1995. Realizou a formação até 2013, quando foi escolhido para conduzir a transição da atual geração rumo às seleções de base. Dirigiu o Catar Sub-19 e, desde então, foi subindo de categoria com a remessa de talentos que prosperaria na Copa da Ásia. Participou do Mundial Sub-20 em 2015 e também alcançou as semifinais de 2018 com o sub-23.

A chegada de Félix Sánchez ao time principal, contudo, seria motivada também pela ocasião. O Catar fez uma campanha ruim na fase principal das Eliminatórias para a Copa de 2018. Venceu um mísero jogo no hexagonal decisivo, terminando na lanterna de sua chave. A hora da mudança. Jorge Fossati acabou demitido e o espanhol assumiu, não apenas respaldado por seu trabalho de base, como também encarregado de aproveitar os “formandos” da Academia Aspire. O treinador conhecia esses jovens jogadores desde a infância e sabia explorar o seu potencial.

Desde 2018, os resultados melhoraram significativamente nos amistosos. No último ano, o Catar disputou 12 partidas e conquistou sete vitórias, além de dois empates. Derrotou seleções tradicionais, como a Suíça e o Equador, além de ter empatado com a Islândia. Mesmo nas derrotas, deu trabalho a times mais experientes, como Irã e Argélia. Já a Copa da Ásia guardou o suprassumo desta ascensão recente com Félix Sánchez. A seleção catariana se mostrou extremamente entrosada e com um padrão de jogo bem encaixado, algo também fundamental à trajetória imponente nos Emirados Árabes. O sistema defensivo funcionou muito bem, enquanto a qualidade individual pesou no ataque. Almoez Ali, um dos formandos, anotou nove gols e foi eleito o melhor jogador da competição. Akram Afif, outro, providenciou dez assistências e recebeu o prêmio de craque da final. A taça é consequência.

Na decisão contra o Japão, cinco titulares faziam parte da geração 96/97 da Academia Aspire e um sexto nome saiu do banco no início do segundo tempo.  Tarek Salman, Akram Afif e Salem Al Hajri, três daquela imagem do sub-9, estavam entre estes. E o capítulo principal dessa história deverá acontecer daqui a quase quatro anos, quando este grupo de atletas estiver na casa de seus 25 ou 26 anos. Serão uma geração mais madura e ainda no ápice físico, certamente ganhando o reforço de outras fornadas de prodígios saídos da academia. A Copa de 2022 é o destino onde este longo processo de desenvolvimento desembocará. Agora, com um bom indício de que os resultados poderão ser dignos aos anfitriões.