O exemplo da competência

Com o histórico título da Copa da Liga, Swansea atesta o sucesso do modelo de gestão que garantiu ascensão marcante na última década

Phil Parkinson definiu bem a representatividade do Swansea antes da decisão da Copa da Liga Inglesa. Para o técnico do Bradford City, os galeses não eram apenas os adversários em Wembley, mas o exemplo a ser seguido. Não por menos. Embora não seja tão valorizado pelos times de camisa mais pesada, o torneio guardou dois épicos para a decisão. Dois clubes que sobreviveram a graves problemas financeiros para fazer história.

No fim das contas, prevaleceu o já aclamado futebol ofensivo do Swansea, responsável pelo baile dentro de campo e pela festa fora dele. Um título mais que especial, o primeiro da história do clube justamente na temporada em que comemoram o centenário. Ao Bradford valeu a campanha surpreendente, ao se tornar o primeiro time da quarta divisão a chegar à decisão da competição em 51 anos. Além, é claro, o exemplo dado pelos rivais.

Primeiro clube de Gales a conquistar um título na Inglaterra, a façanha do Swansea é muito maior do que o mero recorde. O troféu da Copa da Liga é a materialização da ascensão meteórica registrada pelo clube ao longo da última década. Quase rebaixados para a quinta divisão em 2002/03, os Swans alcançaram três acessos desde então, em uma caminhada que combina gestão sustentável e futebol atraente.

O marco inicial da guinada aconteceu em janeiro de 2002, quando um grupo de empresários locais assumiu o comando. Apoiada pela torcida, a nova administração evitou que os problemas financeiros vividos na época derrubassem os galeses da Football League. Desde então, as dívidas foram quitadas e um novo estádio para 20 mil espectadores foi construído. E o casamento com os torcedores continua até hoje, com 20% das ações do clube sob controle do público.

Um modelo exaltado por Leon Britton, jogador símbolo dessa nova era. Ao lado de Garry Monk, o meio-campista é um dos únicos a ter vivenciado a arrancada dos Swans: “Você precisa dar crédito a todos. Grandes dias como este acontecem quando você administra um clube bem. Isto significa muito para mim, que joguei mais de 400 partidas pelo clube ao longo dos últimos 10 anos. É grandioso fazer parte deste título”.

O grande mérito da gestão está em adequar o orçamento dos Swans aos interesses dentro de campo. Os galeses assumiram um estilo de jogo marcante desde 2006/07, quando o então meio-campista Roberto Martínez se tornou o técnico. O “Swansealona” de posse de bola envolvente e presença ofensiva começa neste momento, resultando em uma campanha devastadora na League One. E nem a saída de Martínez prejudicou o desenvolvimento do projeto.

O diferencial esteve exatamente na forma como o Swansea repôs suas peças sem prejudicar a mentalidade. Um perfil de “técnico ideal” foi traçado e os sucessores de Martínez se encaixaram perfeitamente nele. Brendan Rodgers foi o primeiro técnico a sustentar o legado, recolocando os galeses na primeira divisão inglesa após 29 anos. E Michael Laudrup conseguiu dar uma amplitude ainda maior aos feitos.

As variações proporcionadas pelo dinamarquês foram essenciais para o sucesso do Swansea na Copa da Liga. O time sabe combinar segurança defensiva e ser letal em seus golpes, como na vitória por 2 a 0 sobre o Chelsea na semifinal. Como também pode se tornar ainda mais ofensivo, a exemplo do que aconteceu na própria decisão, com o improvisado Ki iniciando o controle do jogo desde a defesa e o ataque demonstrando grande capacidade de ocupar espaços para abrir a retranca do Bradford.

Ao mesmo tempo em que acertou a mão para trazer técnicos, o Swansea também demonstrou qualidade enorme para contratar jogadores. Michu, Pablo Hernández e De Guzmán são os exemplos mais recentes de que não é preciso gastar fortunas para montar um time eficiente, sobretudo encaixado ao padrão de jogo. Ao longo da última década, foram gastos cerca de € 40 milhões em transferências. Metade deste valor já foi compensado apenas com a venda de Joe Allen, meio-campista que ainda atesta a qualidade das categorias de base dos galeses.

Ainda que seja mero exercício especulativo, é difícil imaginar o Swansea longe da Premier League durante os próximos anos. Estabilizado como força intermediária na Inglaterra, o time ainda terá o direito de disputar a Liga Europa na próxima temporada – e deverá se esforçar para uma campanha marcante no torneio continental. Mesmo se Laudrup, Michu ou qualquer outro destaque da atual temporada não seguir no Liberty Stadium, as bases do projeto já estão solidificadas. Um clube extramente competente na sua gestão e que ainda consegue entreter pelo bom futebol.