A melhor competição de base do mundo não é organizada pela Fifa. O Campeonato Europeu Sub-21 possui um peso enorme dentro do continente e o sucesso no certame, muitas vezes, se reflete no nível principal. A Alemanha tetracampeã do mundo em 2014 teve seis titulares se consagrando com o sub-21 em 2009. De maneira parecida, a Itália que faturou a Copa em 2006 viu seu time ser moldado nos títulos do sub-21 em 1994, 1996, 2000 e 2004. E até a Espanha, triunfante no sub-21 em 2011, teve jogadores naquela campanha que também haviam vencido a Copa de 2010, bem como ergueram a Euro 2012. É o suprassumo da formação no continente, que resulta em um torneio qualificado e de alto nível.

O Campeonato Europeu Sub-21 iniciou sua 25ª edição no último domingo. Já contou com partidas de peso e um confronto direto que, de certa forma, pode ser visto como uma final antecipada. Há muitos projetos de craque e outros já reconhecidos ocupando os gramados da competição bienal, desta vez realizada na Itália e em San Marino. O limite de idade na fase decisiva, de 23 anos (já que o sub-21 conta só no início das eliminatórias, iniciadas dois anos antes), ajuda a incluir futebolistas renomados. Ainda assim, é bacana ver a importância que as federações e os próprios treinadores dão ao torneio, tratado como prioridade para muitos. É sempre uma bela prévia do que pode rolar em pouco tempo no cenário europeu.

Desta vez, a Itália merece atenções redobradas. Maior campeã do torneio, com cinco títulos, a Azzurra é a sede e vê a competição também como uma oportunidade de conduzir o seu futuro, após o baque de se ausentar na Copa de 2018. Por isso mesmo, o técnico Luigi Di Biagio convocou uma porção de jogadores que já pintam na seleção principal. Federico Chiesa, Patrick Cutrone, Moise Kean, Nicolò Barella, Nicolò Zaniolo, Rolando Mandragora e Gianluca Mancini compõem a legião liberada por Roberto Mancini. É uma base estupenda, que ainda inclui nomes como Alex Meret, Sandro Tonali e Riccardo Orsolini.

Por tudo o que a circunda, a Itália é considerada uma das favoritas ao título. E a prova de sua força não poderia ser maior na estreia. Os Azzurri encararam a Espanha, tricampeã do torneio, também recheada de prodígios. Luis de la Fuente comanda um elenco que inclui Fabián Ruiz, Dani Ceballos, Mikel Oyarzabal e Pablo Fornals, todos nos planos de Luis Enrique na principal, além de outros talentos. A Roja saiu em vantagem em Bologna, com um golaço de Ceballos. Chiesa trataria de comandar a virada dos italianos, com direito também a uma pintura. O ponta balançou as redes duas vezes, em ambas com a participação de Barella, enquanto Pellegrini fechou a contagem em 3 a 1. Foi um sinal claro do potencial dos anfitriões.

O Grupo A, de Itália e Espanha, também conta com a Polônia e com a Bélgica. São times menos estrelados. A grande figura dos poloneses é o atacante Dawid Kownacki, do Fortuna Düsseldorf, o único com passagem pela seleção principal. Bartlomiej Drągowski também era cotado ao torneio, mas o goleiraço que brilhou pelo Empoli na última Serie A foi cortado por lesão. Já os belgas preferiram não chamar Youri Tielemans, mais badalado entre os possíveis convocáveis. Yari Verschaeren é uma reluzente aposta, ao receber o prêmio de revelação do Campeonato Belga aos 17 anos. Já o ataque possui alguns jogadores moldados nas grandes ligas, com menções principais a Isaac Mbenza (Huddersfield Town) e Dodi Lukebakio (Fortuna Düsseldorf). Durante a primeira rodada, a Polônia assegurou o triunfo por 3 a 2.

No Grupo B, a Alemanha é quem se candidata ao título. Benjamin Henrichs, Lukas Klostermann e Jonathan Tah são os que passaram pela seleção principal, todos na defesa. De qualquer maneira, é um elenco com muita rodagem na Bundesliga. Também figuram Mahmoud Dahoud, Maximilian Eggestein, Luca Waldschmidt, Alexander Nübel e outros jogadores com projeção na liga local. Não à toa, o time treinado por Stefan Kuntz começou derrotando a Dinamarca por 3 a 1, aproveitando a velocidade de sua linha de frente para construir a diferença. Marco Richter foi o destaque, com dois tentos. Entre os dinamarqueses, a menção principal fica a Robert Skov, que arrebentou na conquista do título nacional com o Copenhague. Foram 29 gols, recorde do torneio, com enorme contribuição nos chutes de fora da área. Outra figurinha carimbada é Jacob Bruun Larsen.

A chave se completa com Sérvia e Áustria. Os austríacos venceram o duelo inaugural por 2 a 0, com gols de Hannes Wolf (grande prospecto do Red Bull Salzburg) e Sascha Horvath. Xaver Schlager também ascende nos Touros Vermelhos. E da Alemanha vêm os demais atletas relevantes, como Stefan Posch, Philipp Lienhart e Kevin Danso, todos experimentados na seleção principal. Os sérvios, apesar do revés, não podem ser descartados. Eles aproveitam alguns atletas presentes no título do Mundial Sub-20 de 2015, como Andrija Zivkovic. Já a principal figura se ausentou daquela campanha por lesão: Luka Jovic, o novo reforço ao ataque do Real Madrid, que pediu a liberação e fez questão de integrar o Europeu Sub-21.

Já o Grupo C começa nesta terça com outro duelo pesadíssimo: Inglaterra x França. Fazendo sucesso nas competições de base, os ingleses têm um time forte sob as ordens de Aidy Boothroyd. Tammy Abraham e Dominic Solanke são os únicos a atuar anteriormente pela seleção principal. Mas não é por isso que devem ser menosprezados Phil Foden e James Maddison, sem dúvidas os principais talentos do grupo. A lista inclui ainda Demarai Gray, Dominic Calvert-Lewin e Ryan Sessegnon. No geral, é um grupo mais experimentado nas divisões de acesso do que na Premier League. E, de certa forma, sofreu influência da Liga das Nações. Quatro jogadores convocados ao torneio integraram anteriormente o sub-21, incluindo Trent Alexander-Arnold e Marcus Rashford, mas não puderam viajar à Itália.

Olhando para o papel, a França também levou um time mais fraco do que poderia ser ao Europeu Sub-21. Ousmane Dembélé, Kingsley Coman, Lucas Hernández e Benjamin Pavard compõem a longa lista de atletas que até chegaram a participar das eliminatórias da categoria. Os Bleus de Sylvain Ripoll não possuem um jogador sequer que atuou com Didier Deschamps, mas é uma equipe capacitada. A força se concentra no quarteto do Lyon: Lucas Tousart, Houssem Aouar, Moussa Dembélé e Martin Terrier. O bom momento do Lille também impulsionou ao ataque Jonathan Bamba e Jonathan Ikoné. E entre os que atuam no exterior, o mais famoso é o volante Matteo Guendouzi, do Arsenal.

A Romênia corre por fora, mas se candidata a incomodar, especialmente depois de superar Portugal em seu grupo nas eliminatórias. Dez jogadores do elenco passaram pela seleção principal. Titular do Genoa, o goleiro Andrei Radu é peça central, assim como o atacante George Puscas, que fez dois gols na última Data Fifa. A camisa 10, por sua vez, cai muito bem nas coisas de Ianis Hagi – o filho da lenda, que arrebenta no Viitorul. Começarão a trajetória contra a Croácia do capitão Alen Halilovic, que inclui outros sete atletas com passagens pelo time principal, como o artilheiro Josip Brekalo.

Até por seu peso, geralmente o Europeu Sub-21 fica nas mãos das principais seleções do continente. Dos 24 títulos anteriores, 14 acabaram com países que já faturaram a Copa do Mundo no nível adulto, enquanto os demais se dividem entre equipes tradicionais – Holanda, União Soviética, Iugoslávia, Hungria, Suécia e República Tcheca. Além do mais, o passado do Europeu Sub-21 mostra como até as seleções que não ergueram a taça puderam ascender, como a Islândia que parou na fase de grupos em 2011. Que o torneio não ofereça certezas de quem vai se confirmar em alto nível, ele ao menos sempre traz bons indícios. E para 2019, com tantos jogadores relevantes, esses indícios são excepcionais.