Um dos episódios mais lembrados na cisão da Iugoslávia, que logo culminaria nas sangrentas guerras de independência, aconteceu dentro de um estádio. Em maio de 1990, pelo Campeonato Iugoslavo, Dinamo Zagreb e Estrela Vermelha se enfrentavam numa partida tensa não apenas pela tabela, mas também pelos resultados eleitorais que indicavam os sentimentos nacionalistas aflorados. Nas arquibancadas do Estádio Maksimir, os ultras da Bad Blue Boys e da Delije se digladiaram, em briga que tomou o campo e ficou marcada pela voadora do astro Zvonimir Boban em um policial. A batalha, que terminou com cerca de 200 feridos e 100 presos, ofereceu uma prévia de cenas que se tornariam mais frequentes e mais violentas durante a Guerra da Iugoslávia. Parte da Delije, inclusive, compôs um grupo paramilitar que combateu pelos sérvios e foi responsável por crimes de guerra.

Já se passaram quase três décadas desde aquele jogo, mas a história permanece viva no Estrela Vermelha. As raízes nacionalistas do clube são mais antigas que sua própria data de fundação oficial e a relação com as forças policiais permaneceu ao longo dos tempos. Algo que veio à tona outra vez nesta terça-feira, durante a comemoração dos alvirrubros pela classificação à Liga dos Campeões. O time permaneceu 26 anos longe das etapas principais da competição continental, mas conseguiu emendar a segunda presença consecutiva na fase de grupos. Os jogadores festejaram em desfile aberto pelas ruas de Belgrado. Mas não em um veículo qualquer, e sim um tanque de guerra.

A cena tem um contexto. Antes da partida decisiva contra o Young Boys nesta terça, que terminou com o suficiente empate por 1 a 1, um tanque utilizado na Guerra da Iugoslávia foi colocado do lado de fora do Estádio Marakana. O veículo, ornado com bandeiras e as cores do Estrela Vermelha, tinha sido levado ao local por torcedores ainda na véspera e logo se transformou em atração àqueles que passavam por ali. Porém, a exibição da peça também gerou discussões e manifestações contrárias por parte dos croatas, incomodados com a exaltação da memória sangrenta.

E a própria presença do velho tanque soava como uma resposta. Na semana passada, enquanto o Estrela Vermelha fazia o primeiro jogo contra o Young Boys na Suíça, um bar sérvio que reunia torcedores na Croácia foi atacado por cinco homens mascarados. Os agressores insultaram o dono do estabelecimento e agrediram os clientes com pedaços de pau. Cinco pessoas ficaram feridas, inclusive um menor. Oito pessoas acabaram presas e, nesta quarta-feira, cinco foram indiciadas por “comportamento violento motivado pelo ódio”. Os acusados, que pertencem a uma torcida da cidade de Split, podem pegar até cinco anos de prisão.

Em uma página extraoficial de notícias do Estrela Vermelha, torcedores citam o apelido de “máquina” como a razão para o tanque ter sido levado ao Marakana. Não colou muito. O próprio Dinamo Zagreb respondeu e postou a foto de um trator do lado de fora do Estádio Maksimir. O símbolo está ligado à fuga de mais de 200 mil sérvios do território croata ao final da Guerra da Iugoslávia, muitos deles agricultores dirigindo seus tratores. De maneira igual, o veículo representa o orgulho ferido na Sérvia.

Diante de todas as tensões já costumeiras entre os países, acirradas nestes últimos dias, a atitude do Estrela Vermelha na comemoração parece um tanto quanto irresponsável. Joga mais lenha na fogueira, numa história em que há milhares de vítimas e na qual os principais atores não são inocentes. Resta torcer para que a escalada das hostilidades não tenha novos desdobramentos.

Para entender um pouco mais do contexto, vale conferir também os dois fios presentes no twitter do Copa Além da Copa. A quem não segue a página, fica também a sugestão: