Em novembro de 1945, o Dynamo Moscou realizou uma turnê pelo Reino Unido. A viagem, organizada pela Football Association para retomar a rotina do esporte no país, serviu como um ato de celebração entre britânicos e soviéticos ao término da Segunda Guerra Mundial. Os estádios lotaram para receber os visitantes ilustres. De início, os anfitriões desdenharam das qualidades dos russos, na tradicional soberba sustentada pelos “inventores do esporte”. No entanto, dentro de campo, o Dynamo impressionou por seu talento e deixou mesmo algumas lições aos poderosos adversários.

O goleiro Aleksei “Tigre” Khomich (considerado o mentor de Lev Yashin) e o atacante Vsevolod Bobrov (um dos maiores atletas soviéticos da história, também por seus feitos no hóquei) eram os astros da delegação estrangeira. O Dynamo iniciou sua turnê ao arrancar um empate por 3 a 3 contra o Chelsea, o que levou a torcida a invadir o campo e carregar os russos nos ombros. Dias depois, goleou o Cardiff City por 10 a 1, antes de derrotar o Arsenal por 4 a 3 – num jogo em que os vencedores usaram 12 homens por um tempo, porém. Já no final da viagem, o empate por 2 a 2 contra o Rangers manteve a invencibilidade dos moscovitas.

Muitos jornais britânicos e soviéticos exaltaram o sucesso da excursão do Dynamo. Décadas depois, a visita continua destacada pela imprensa esportiva como um caso exemplar. A mobilização mostrou como o futebol pode servir de elemento diplomático. Todavia, nem todos viam o evento com bons olhos na época. E o melhor exemplo disso é ninguém menos que George Orwell. O célebre autor de “1984” e “A Revolução dos Bichos” dedicou um texto à turnê, em raríssimo artigo no qual aborda os esportes.

Orwell chegou a praticar futebol em seus tempos de estudante e até indicava certa empolgação, ao descrever uma partida como goleiro em carta à mãe. Ele se formou no Eton College, escola tradicionalíssima na modalidade, responsável pelo primeiro conjunto de regras da história do futebol. Ainda assim, o escritor possuía uma predileção pelo críquete. E não foi nada disso que o impediu de exibir uma visão bastante crítica sobre o esporte no contexto político – especialmente como uma ferramenta em prol dos nacionalismos.

Em dezembro de 1945, Orwell trabalhava na revista Tribune. E o escritor assinou um artigo intitulado “O espírito esportivo”, no qual aborda a viagem do Dynamo Moscou. O autor indica que não viu os jogos, embora enfatize mais os relatos de violência do que os registros positivos. De qualquer maneira, sua coluna é mais ampla, pensando na influência dos esportes sobre o realinhamento do mundo após a Segunda Guerra. É um artigo com ares apocalípticos, que tanto lembra outras obras de Orwell. E, apesar das discordâncias, não deixa de ser interessantíssimo, com vários pontos que colocam o dedo na ferida.

Nesta terça, completam-se 70 anos do falecimento de Orwell. Fica a homenagem ao escritor, com o conteúdo do texto na íntegra, publicado pela Companhia das Letras em uma coletânea de ensaios. Confira: