As luzes dos celulares iluminavam as arquibancadas lotadas do Estádio Atahualpa. O Independiente del Valle é um clube jovem, de uma cidade pequena, com pouca torcida. No entanto, durante os últimos anos, o time consegue mobilizar os equatorianos ao redor de suas grandes campanhas continentais. Assim como acontecera na Libertadores 2016, o Del Valle atraiu milhares de torcedores de outras equipes nesta quarta. Empurrariam o time na semifinal da Sul-Americana, contra o Corinthians. Não foi o clima mais quente nas tribunas. De qualquer maneira, bastou para os compatriotas comemorarem a classificação a mais uma decisão. Os corintianos foram valentes e tiveram bons momentos em Quito, sobretudo no primeiro tempo. Contudo, os anfitriões cresceram e arrancaram duas vezes a igualdade. Depois da histórica vitória por 2 a 0 em Itaquera, o empate por 2 a 2 confirmou o clube do Equador na final.

O Independiente del Valle repetiu a escalação do jogo em São Paulo. Enquanto isso, Fábio Carille mudou bastante o Corinthians. Ralf entrou na cabeça de área, no lugar de Júnior Urso. Ramiro veio para o meio, enquanto Junior Sornoza se responsabilizava pela armação. Já na frente, enquanto Pedrinho caía pela direita, Vágner Love ganhou mais mobilidade aberto pela esquerda, com Boselli servindo como homem de referência.

O Corinthians demorou um pouco para se encaixar com as mudanças. O Independiente del Valle começou melhor a partida, trocando passes e se impondo no campo de ataque. Os equatorianos, porém, não conseguiam ameaçar tanto a meta de Cássio. Até rondavam a área adversária, sem criar chances tão concretas. O jogo só começou a esquentar com o passar do tempo. Pedrinho assustou em chute de fora da área que passou por cima do travessão, aos 12. A resposta do Del Valle viria em batida cruzada de Cristian Dájome, que saiu para fora.

A partir dos 20 minutos, o Corinthians se encontrou. O time passou a se sentir mais confortável na defesa e acertou seus ataques em velocidade. O gol quase saiu aos 25. Após falta cobrada na intermediária, Avelar desviou e o goleiro Jorge Pinos rebateu no susto. O rebote ainda pipocou dentro da área, sem que ninguém aproveitasse. Três minutos depois, o gol alvinegro saiu. O lance nasceu em desarme de Ralf, que possibilitou o contra-ataque. Pedrinho arrancou e acionou Love na esquerda. Então, o atacante fez o cruzamento rasteiro, para Boselli completar diante da meta escancarada. A esperança corintiana ganhava força.

Após o gol, o Corinthians cresceu. O seu jogo fluía muito mais e a velocidade do ataque pegava o Independiente del Valle aberto. Boselli voltou a ameaçar pouco depois, em chute que seguiu por cima do gol. Os equatorianos, que demoraram a levar perigo, só voltaram a chegar num lance confuso aos 39. Após cruzamento, Jhon Sánchez desviou em meio à disputa com Fágner e Cássio realizou uma grande defesa.

De qualquer maneira, o segundo gol corintiano parecia muito mais próximo ao final do primeiro tempo. Pouco antes do intervalo, Love quase anotou um golaço. Disparou e partiu para cima da marcação, antes de acertar um tirambaço no travessão. O veterano ficaria no quase outra vez no minuto seguinte, em cruzamento de Ramiro que o atacante não conseguiu completar. Os alvinegros tinham motivos para se animar.

A parada fez bem ao Independiente del Valle. Os equatorianos voltaram mais ligados para o segundo tempo e conseguiram encontrar brechas pelos lados do campo. Os riscos se tornaram mais constantes aos corintianos. Aos 11 minutos, Gabriel Torres recebeu na área e bateu para fora com muito veneno. Pouco depois, seria a vez de Dájome mandar por cima, de frente para o gol. O Corinthians até respondeu em cruzamento de Pedrinho, que o goleiro Pinos desviou para fora, mas o duelo pendia aos anfitriões.

Carille gastou sua primeira alteração aos 16, com a entrada de Clayson no lugar de Ramiro. O Corinthians até parecia disposto a sair mais ao ataque. No entanto, quando os alvinegros tentavam o necessário segundo gol, permitiram o empate, aos 22. Depois do cruzamento de Pedrinho pela direita, a defesa do Independiente del Valle conteve o perigo e armou o contra-ataque rápido. Sánchez recebeu na esquerda, deixou Manoel seco no bote e disparou com o campo aberto. Diante de Cássio, tocou por baixo do goleiro e correu para o abraço.

O gol incendiou a torcida no Estádio Atahualpa, que já cantava “sí, se puede”. Enquanto isso, o Corinthians se desencontrou. O Independiente del Valle soube esfriar a partida e começou a gastar mais o tempo, com faltas e atendimentos médicos. O relógio se tornava um inimigo maior aos alvinegros. Aos 33, Carille trocou Boselli por Gustagol, na tentativa de oferecer novo fôlego ao ataque. Teria frutos, num lance fortuito na sequência, em que nasceu a oportunidade ao segundo gol. Danilo Avelar recebeu na área e foi derrubado. O árbitro não marcou inicialmente, mas conferiu a jogada no monitor e confirmou o pênalti minutos depois. Clayson cobrou com firmeza e recolocou os corintianos no jogo.

Quando o segundo gol saiu, o relógio batia na casa dos 42. O Corinthians precisava de mais um tento para arrancar a classificação e teria a seu favor os longos acréscimos, alargados pela utilização do VAR. Ralf, que ofereceu uma atuação excepcional na cabeça de área, sairia para Júnior Urso garantir o fôlego final ao meio-campo. O herói, entretanto, seria o outro jogador a vir do banco no mesmo momento: Alejandro Cabeza. Efren Mera inverteu a bola no contra-ataque e ninguém conseguiu afastar. Cabeza recebeu livre pela esquerda e bateu de primeira, rasteiro, sem que Cássio evitasse o tento de empate. Neste momento, aos 45, os seis minutos adicionais pareciam insuficientes aos paulistas. E, no fim das contas, a bola rolou pouquíssimo na reta final. A desejada reviravolta corintiana não passou de um sonho.

O Independiente del Valle avança com méritos à final. Foi melhor na somatória dos 180 minutos e soube muito bem fazer o seu jogo contra os brasileiros, sobretudo pelo banho tático dado em Itaquera. A raça do Corinthians compensaria a situação em Quito e poderia ter rendido a reação, principalmente pelos bons minutos que os alvinegros tiveram depois do primeiro gol. O vexame internacional é explicado pelo que aconteceu na ida, restando a resignação dos corintianos na volta. O Del Valle, afinal, encontrou os atalhos nos contragolpes e jogou com o regulamento sob os braços. Vai para a decisão em Assunção, esperando o apoio dos compatriotas na viagem ao Paraguai. Outra vez, o Equador terá a chance de conquistar um título continental.