O Espérance renovou sua supremacia na Liga dos Campeões da África nesta sexta-feira. Pela segunda temporada consecutiva, o clube tunisiano conquistou o torneio continental, em hegemonia ampliada justamente no ano em que comemora o centenário. A sequência de títulos dos Taraji, entretanto, merece ser relembrada com muitas ressalvas. Assim como aconteceu em 2018, o feito veio rodeado por arbitragens duvidosas. E o ápice da vergonha ocorreu justamente no segundo duelo contra o Wydad Casablanca, no Estádio Olímpico de Radès. Após a anulação de um gol legal dos marroquinos, o sistema do VAR simplesmente “não funcionou”, segundo a arbitragem. Revoltados após erros ocorridos já no primeiro jogo, os visitantes preferiram se retirar de campo. Diante do imbróglio, o árbitro Bakary Gassama aguardou mais de uma hora até confirmar a desistência e garantir a comemoração dos anfitriões.

Fundado em 1919, o Espérance é um clube intrinsecamente ligado ao poder na Tunísia. Desde antes da independência do país, se colocou como uma potência. Teve a participação de militares franceses em sua fundação, com o nome se referindo à “esperança” posterior à Primeira Guerra Mundial. Também contou com a presença das elites árabes, incluindo em seus quadros de dirigentes ninguém menos que Habib Bourguiba, primeiro presidente tunisiano pós-independência, que permaneceu 30 anos  à frente do país. Além disso, durante a ditadura de Zine el-Abidine Ben Ali (chefe de estado de 1987 a 2011, deposto na Primavera Árabe) é que os Taraji viveram sua maior prosperidade, com o sucesso muitas vezes atrelados aos privilégios. Foi neste período que estabeleceram sua hegemonia no Campeonato Tunisiano e conquistaram seus dois primeiros títulos na Champions Africana, em 1993 e 2009.

O ressurgimento do Esperánce como uma força na Liga dos Campeões da África aconteceu na última temporada. E com suas controvérsias. A classificação nas semifinais, em cima do surpreendente Primeiro de Agosto, se valeu da arbitragem polêmica. Já na decisão, embora tenha se sentido prejudicado contra o Al Ahly, o time tunisiano arrancou a taça graças a um golaço anotado no final do segundo tempo do jogo de volta. Seria um título marcado ainda pela agressão aos jogadores egípcios no caminho ao Estádio Olímpico de Radès. Apesar dos entraves, nada que tirasse a faixa do peito dos Taraji.

Já na atual campanha, os maiores problemas aconteceram justamente nas finais contra o Wydad Casablanca. Os marroquinos se sentiram extremamente prejudicados já na partida de ida, em Rabat, e independentemente da introdução do VAR. Os anfitriões tiveram um gol mal anulado no fim do primeiro tempo e um pênalti erroneamente negado no início do segundo, além de cartões contestáveis dados aos seus jogadores. O empate por 1 a 1 ainda deixava a situação aberta, de qualquer maneira.

A CAF resolveu agir nesta semana, antes da partida de volta. Diante dos claros erros, puniu o árbitro egípcio Gehad Grisha. Por sua péssima atuação, ele recebeu uma suspensão de seis meses dos dirigentes africanos. Entretanto, as ocorrências desta sexta criam suspeitas sobre a própria confederação, considerando todo o circo armado.

O Wydad ameaçou até boicotar o jogo de volta. Não era apenas a insatisfação pelos erros na ida. O time também recebeu ameaças de torcedores do Espérance e suas redes sociais foram infestadas de comentários violentos, criando um clima tenso para o reencontro. Apesar da situação, a CAF garantiu a segurança da equipe e os marroquinos foram para o duelo. Não foi isso, porém, que evitou os ataques aos ônibus onde estavam os seus torcedores.

Quando a bola rolou no Estádio Olímpico de Radès, as duas equipes fizeram um jogo aberto. O primeiro tempo contou com chances para os dois lados e boas defesas dos goleiros. E os tunisianos abriram o placar pouco antes do intervalo, em um chute de Youcef Belaïli na entrada da área. Na volta para o segundo tempo, o Wydad partiu para cima. Criou algumas oportunidades, até balançar as redes aos 14 minutos. Após o cruzamento da esquerda, Walid El Karti completou de cabeça. A fumaça dos sinalizadores poderia até atrapalhar, mas não parecia um lance tão difícil para o assistente. Todavia, a bandeira subiu, anotando o impedimento. E o vídeo não pôde ser consultado, diante do alegado “problema técnico”. Assim, a partida deveria ser retomada com a marcação de campo. Um jogador do Wydad chegou a segurar a tela, enquanto a revolta era evidente nos gestos dos visitantes. Depois de quase meia hora de confusão, os marroquinos optaram por se retirar.

Causa estranhamento a maneira como o VAR falhou. O protocolo elaborado pela Fifa orienta que os times sejam notificados previamente em caso de problema com os equipamentos. O árbitro Bakary Gassama teria feito isso e a alegação é a de que o capitão do Wydad “não entende francês”. Além do mais, os jogadores do Wydad afirmam que o entrave era no monitor. Não daria para trocá-lo antes do jogo? Se não desse, então, não seria possível instruir um impedimento simples como este a partir da cabine? Depois do jogo, a uma rádio local, o presidente marroquino declarou que o monitor voltou a funcionar e o árbitro de campo se recusou a conferir as imagens.

Há um detalhe sórdido em tudo isso. O árbitro de vídeo era Janny Sikazwe. Ele chegou a ser suspenso pela CAF em 2018. O motivo? Foi colocado sob suspeita de aceitar suborno, após os erros contra o Primeiro de Agosto, que favoreceram a classificação do Espérance à final continental. Na última segunda-feira, os tunisianos emitiram uma nota pedindo que ele não assumisse o VAR, para evitar questionamentos. Da mesma maneira, pediram que Gassama não ficasse no apito, acusado de beneficiar o Wydad na decisão da Champions contra o Al Ahly em 2017. Mas a CAF preferiu manter as indicações e fomentar este cenário grotesco.

Sem que o Wydad baixasse a guarda após deixar o jogo, Gassama deu 80 minutos de acréscimos, mas não contou com o retorno dos marroquinos. Ao final da espera, voltou a campo para decretar o fim da decisão e permitir a comemoração dos jogadores do Espérance. Embora o imbróglio fosse madrugada a dentro na Tunísia, os torcedores ainda lotavam as arquibancadas, à espera do desfecho. Puderam festejar um título que, aos olhos de quem vê de fora, possui uma enorme mancha. É a quarta conquista continental dos tunisianos.

O Wydad deve continuar sua luta além desta sexta-feira. Se o clube juntar provas suficientes, há motivos para buscar a anulação da partida. De qualquer forma, diante dos problemas tantas vezes varridos para baixo do tapete na Confederação Africana de Futebol, é difícil imaginar que a justiça prevaleça. A situação absurda em Radès, se comprovadas as suspeitas, deveria derrubar dirigentes, banir árbitros e provocar boicotes ao torneio continental.