O que era uma suspeita virou uma acusação formal. Promotores dos Estados Unidos apresentaram um indiciamento nesta segunda-feira que acusa as candidaturas da Rússia e do Catar de terem subornado dirigentes para vencerem a disputa para sediar as Copas do Mundo de 2018 e 2022, respectivamente. Ao menos cinco dirigentes são citados por terem recebido dinheiro em troca do voto em uma das candidaturas. O indiciamento é consequência de anos de investigações que começaram em 2015, com o Fifagate.

O Fifagate explodiu em 27 de maio de 2015, em uma operação do FBI, a mando do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, em Zurique, na Suíça. Diversos dirigentes estavam na cidade para o Congresso Anual da Fifa e, assim, acabaram presos por envolvimentos em diversos crimes, que iam de aceitação de suborno a lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. Dirigentes como o então presidente da CBF, José Maria Marin, foram presos, extraditados para os Estados Unidos e condenados por lá.

Desde aquela época havia indícios de possíveis infrações nas candidaturas da Rússia e do Catar para sediarem as Copas do Mundo de 2018 e 2022. Nunca, porém, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos tinha deixado tão claro o esquema, com acusações formais e nominais a dirigentes. Cinco dirigentes foram acusados de receberem dinheiro em troca do seu voto, três deles para votar no Catar para 2022 e outros dois para votarem a favor da Rússia em 2018. O processo de escolha das sedes das duas Copas aconteceu no mesmo dia, em dezembro de 2010.

Três dirigentes sul-americanos receberam pagamentos para votar no Catar, segundo o indiciamento na justiça americana: Julio Grondona, ex-presidente da AFA; Nicolas Leoz, ex-presidente da Conmebol; e Ricardo Teixeira, ex-presidente da CBF. Algo que a própria Fifa pareceu confirmar em dezembro de 2020 e que mostramos aqui. Só que agora a acusação é formal na Justiça dos EUA, o que significa que os três estariam sujeitos às consequências.

Grondona morreu em 2014, antes mesmo do Fifagate. Nicolás Leoz morreu em 2019, quando estava em prisão domiciliar e estava lutando contra a sua extradição para os Estados Unidos. O terceiro deles, Ricardo Teixeira, está no Brasil e até concedeu entrevista à CNN em março se dizendo perseguido. O ex-presidente fica no Brasil porque pela constituição brasileira, o país não pode extraditar seus próprios cidadãos.

Assim, Teixeira, mesmo sendo acusado – e ele já tinha seu nome envolvido no Fifagate antes – não pode responder pelo processo dos EUA, a não ser que voluntariamente vá para o país. Ou que a justiça brasileira decida investigar as denúncias, a partir do indiciamento americano, e julgá-lo aqui no país por isso, o que é improvável.

A suspeita definitivamente não é nova. Em novembro de 2017, Alejandro Burzaco, ex-executivo da Torneos y Competencias, empresa acusada de subornar dirigentes, afirmou eu Julio Grondona recebia propina e que havia indícios que envolvessem os outros dois acusados, Leoz e Teixeira. Ele deu o depoimento como delação premiada, depois de admitir a culpa pelos seus crimes em troca de informações que levassem a justiça a ter provas daquilo que ele acusasse. Antes, em outubro de 2017, a justiça da França investigava Teixeira por suborno para votar no Catar como sede da Copa 2022.

Tanto Ricardo Teixeira quanto Nicolás Leoz foram indiciados em 2015 em um esquema de suborno para vender os direitos de transmissão das competições sul-americanas, como a Copa América. Usaram empresas nos Estados Unidos para lavar dinheiro e foram acusados de formação de quadrilha.

Segundo os promotores dos Estados Unidos, outros dois dirigentes foram subornados para votarem a favor da Rússia naquela eleição. O ex-presidente da Concacaf, Jack Warner, de Trinidad e Tobago, é um deles. O ex-dirigente foi um dos alvos da operação do FBI em 27 de maio de 2015, quando o escândalo Fifagate explodiu.

Warner luta contra a extradição do seu país para os Estados Unidos desde aquele ano, para não ser julgado no território americano pelos crimes pelos quais é acusado. Segundo o indiciamento desta segunda-feira, ele recebeu US$ 5 milhões por meio de várias empresas de fachada para votar a favor da Rússia como sede da Copa de 2018. Uma parte do dinheiro, segundo a acusação, veio de “empresas baseadas nos Estados Unidos que trabalharam pela candidatura da Rússia à Copa do Mundo 2018.

O outro dirigente que foi subornado pela candidatura russa, segundo o indiciamento, é Rafael Salguero, ex-presidente da Federação da Guatemala de Futebol. Ele também era membro do Comitê Executivo da Fifa, que era o grupo que votava para quem seria a sede das Copas do Mundo naquela época. O ex-dirigente se declarou culpado em 2016 das acusações de lavagem de dinheiro e fraude, e recebeu US$ 1 milhão para votar na Rússia.

Embora a vitória do Catar para sediar a Copa 2022 tenha sido a que mais chamou a atenção e causou estranheza, a candidatura russa também foi suspeita de corrupção desde o início. E as suspeitas aumentaram quando a Fifa passou a fazer uma investigação própria, de forma bastante limitada, e os russos alegaram que não poderiam cooperar porque os computadores usados durante a candidatura tinham sido destruídos. Os equipamentos todos tinham sido alugados por uma empresa, que os destruiu imediatamente após a vitória russa.

Copas anteriores também foram suspeitas de fraude na candidatura. No Fifagate, emergiram também suspeitas sobre corrupção nas Copas anteriores, 2010 e 2006. O documento do Departamento de Justiça de 2015 indicava suspeitas de subornos pagos pela candidatura sul-africana para vencer o concorrente a sediar a Copa 2010 – Marrocos. E as justificativas dos dirigentes da África do Sul foram absolutamente horrorosas e só levantaram mais suspeitas.

Se você está pensando que essa coisa de comprar a Copa é coisa de países em desenvolvimento ou mesmo países com governos sombrios (oi, Catar e Rússia), saiba que o Fifagate fez emergir suspeitas sobre outro país que venceu: a Alemanha, em 2006. A imprensa alemã levantou indícios bastante suspeitos que houve corrupção para comprar votos para a Alemanha.

O Fifagate foi muito sério. Até o Spotify falou sobre o Fifagate na sua retrospectiva de 2015. E a procuradora-geral dos Estados Unidos na época, Loretta Lynch, disse em dezembro de 2015 palavras proféticas:

“A traição de confiança que aconteceu aqui é revoltante. A escala de corrupção é exorbitante. E a mensagem desse anúncio deveria ser clara para cada indivíduo culpável que se mantém nas sombras, torcendo para escapar da nossa investigação: você não vai conseguir. Você não vai escapar do nosso foco”, disse Lynch.

Como funcionava a votação na época

Em dezembro de 2010, a Fifa realizou seu congresso anual em Joanesburgo e definiria ali as sedes das Copas de 2018 e 2022. Quem tinha poder de voto eram os membros do chamado Comitê Executivo da entidade, com 22 membros. Todos os cinco citados na acusação faziam parte deste grupo e, portanto, tinham poder de voto.

Para que um país fosse escolhido como sede da Copa, precisaria ter ao menos 12 votos dos 22, ou seja, mais do que a metade. Se não acontecesse na primeira rodada, o país com menos votos seria eliminado para uma segunda rodada. Assim, as candidaturas remanescentes não deveriam ter menos votos que a rodada anterior. Mas foi isso que aconteceu, tanto na escolha de 2018 quanto na de 2022.

A Rússia tinha como concorrentes Bélgica/Holanda; Inglaterra; e Portugal/Espanha. A Rússia recebeu nove votos na primeira rodada, contra sete de Espanha/Portugal, quatro de Bélgica/Holanda e dois da Inglaterra. O último colocado foi eliminado, a Inglaterra. Na segunda rodada, a candidatura de Holanda/Bélgica perdeu dois votos, ficando com apenas dois. A candidatura de Espanha/Portugal manteve a mesma quantidade, sete votos. A Rússia, que tinha recebido nove votos, foi a 13 e venceu a disputa.

Para a Copa de 2022, o Catar tinha como concorrentes: os Estados Unidos; Coreia do Sul; Japão; e Austrália. Mais uma vez, eram precisos 12 votos para ter maioria simples e, assim, vencer a disputa. Desta vez, foram necessárias mais rodadas para chegar ao vencedor. E a disputa foi dramática e surpreendente.

Na primeira rodada, o Catar já teve mais votos que os demais: foram 11, contra três dos Estados Unidos, quatro da Coreia do Sul, três do Japão e um na Austrália. Na segunda rodada, o Catar perdeu um voto e ficou com 10. Estados Unidos ganhou dois e foi a cinco. A Coreia do Sul também foi a cinco. O Japão perdeu um voto, ficando com dois. Foi, portanto, eliminado.

Na terceira rodada, o Catar recuperou seu voto, voltando a ficar com 11. Estados Unidos teve seis, enquanto a Coreia do Sul teve cinco. Com os sul-coreanos eliminados, a disputa ficou direta entre Catar e Estados Unidos. Os Estados Unidos conseguiram aumentar seus votos para oito, mas acabaram atrás do Catar, que reuniu 14 e, assim, conquistou o direito de sediar a Copa.

Mais da metade dos 22 votantes daquele Comitê executivo foram acuados de cometerem ilegalidades, embora nem todos tenham sido indiciados. Isso inclui o presidente, Joseph Blatter, que acabou sendo derrubado por um pagamento ilegal a Michel Platini, outro dos 22 membros daquele dia. Entre eles estava também Chuck Blazer, americano, que depois se descobriu ser um delator da justiça americana que investigava diversos crimes dos dirigentes.

Blazer foi chave para que o Departamento de Justiça reunisse provas, inclusive gravações, com os dirigentes praticando crimes. Ex-secretário-geral da Concacaf, ele foi pego pela justiça, em sigilo, por evasão de divisas e sonegação de impostos. Aceitou ser espião para escapar da prisão perpétua.

Depois do Fifagate, o seu primeiro depoimento como delator emergiu e respingou na Copa 1998, última de João Havelange como presidente da Fifa. O dirigente americano morreu em 2017. A presença de Blazer como uma figura-chave também ajuda a explicar, em parte, por que os Estados Unidos foram responsáveis pela prisão de dirigentes da Fifa.

Na época, falamos sobre o principal delator envolvendo o Brasil, J. Hawilla, um executivo que passou de dono do futebol brasileiro a detento nos Estados Unidos. Também falamos sobre quem eram os co-conspiradores, que não foram indiciados inicialmente, mas faziam parte do esquema criminoso. Falamos também que o escândalo tinha tudo para abrir a caixa preta da Libertadores, o que aconteceu. Falamos de tudo isso também no nosso podcast Trivela #14, de 28 de maio de 2015.

São quase cinco anos que o Fifagate explodiu, mas enfim surge algo que é definitivamente comprometedor em relação à compra de votos de 2018 e 2022. Depois de tantas suspeitas e tantos indícios, virou um indiciamento, e, agora, temos que ver onde isso vai chegar. A pergunta é: se o julgamento considerar que o suborno de fato aconteceu e, assim, condenar os envolvidos, o que fará a Fifa? A Copa de 2018 já passou, mas a de 2022 ainda está por aí. Será um imenso abacaxi para o presidente da Fifa, Gianni Infantino, descascar.

Ouça o podcast Trivela #14, direto no site da Central 3, sobre o Fifagate (a partir de 18:34).