O erro de Sven Ulreich é daqueles que marcam a carreira de um goleiro. Ainda mais de um goleiro que busca sua afirmação, em uma temporada na qual a grande chance caiu no seu colo. O substituto de Manuel Neuer deu conta do recado na maior parte do tempo, se tornando um jogador importante à equipe. Todavia, errou justamente quando menos podia. Pelo caminho, viu sua desatenção resultar em um gol bisonho. A falha de Ulreich contra o Real Madrid deixa uma chaga. E que o fardo acabe sobre os ombros do goleiro, o “vilão óbvio” da noite, não dá para perder de vista que a derrocada do Bayern de Munique acontece também a partir de outros erros. É um time que se despede da Liga dos Campeões por problemas pontuais na defesa, assim como por um caminhão de desperdícios no ataque.

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Apontar Ulreich como culpado se torna o mais fácil. E não tem muito como perdoar o goleiro por seu escorregão no início do segundo tempo. Pareceu querer pegar com a mão o recuo, mudou de ideia no meio do caminho e apenas assistiu à Karim Benzema decretar sua punição. Afinal, era um lance capital no confronto, também por esfriar o Bayern de Munique em um momento importante e cobrar mais do ataque a partir de então. Um ataque que não correspondeu, dependendo bastante das chegadas de quem vinha de trás. Franck Ribéry esteve longe de repetir a grande exibição da semana passada. Já Thomas Müller e Robert Lewandowski pecaram excessivamente pela falta de agressividade.

A maneira como o Bayern trabalhava a bola para se aproximar da área do Real Madrid tornava os astros de seu ataque em operários. Precisavam cavar os espaços e lutar pelas bolas levantadas na área, contra um adversário bem composto na linha defensiva. Ainda assim, se pedia mais, pela necessidade que existia. Não se viu a inspiração individual necessária em uma partida tão amarrada, que garantisse um pouco mais de opções além do já manjado cruzamento pelo lado esquerdo.

Lewandowski, em particular, terminou os confrontos engolido pela dupla de zaga do Real Madrid. Em uma temporada abaixo do que se espera, por suas qualidades como centroavante, ele teve dificuldades visíveis para aparecer. Mal era acionado pelos companheiros, mesmo para fazer o trabalho como pivô ou para concluir as bolas alçadas na área. Além do mais, errava em demasia, com sete posses de bola perdidas ao longo da noite – o pior número entre os jogadores visitantes. Sequer cumpriu o seu papel como matador. Foram míseras três finalizações. Arrematou menos que James, Müller e Hummels. Não justificou o que se paga a quem tem por obrigação ser protagonista.

A importância de Lewandowski ao Bayern de Munique vai além dos títulos que conquistou na Bundesliga e dos gols aos montes que marca contra os times alemães. Jogou bem em outras edições da Champions, inclusive em partidas nas quais os bávaros terminaram eliminados. Mesmo assim, até pelo estilo de jogo praticado por Jupp Heynckes, se exige ainda mais do centroavante. Algo que o polonês não cumpriu. Às vésperas de completar 30 anos, resta saber se a falta de efetividade marca o seu declínio ou é atrapalhada pela discussão extracampo que o envolveu ao longo dos últimos meses.

E se Lewandowski ficou devendo pela omissão, Thomas Müller voltou a errar demais, como se tornara comum em momentos recentes de sua carreira. O alemão tinha melhorado desde o retorno de Heynckes, mas exibiu claras dificuldades nos dois jogos contra o Real Madrid. Em um embate que necessitava de profundidade e velocidade para explorar as brechas de Marcelo, o deslocamento do atacante para a direita não funcionou. Não supriu a ausência de Arjen Robben e, com características bastante diferentes, também não auxiliou no miolo do ataque. Por vezes, até mesmo exibiu certa falta de confiança, preferindo tocar a arriscar o chute. Ao final, quando a bola salvadora surgiu à sua frente, não conseguiu completar às redes.

A eliminação se avalia por erros pontuais, embora exista também uma clara deficiência de sistema do Bayern de Munique. Jupp Heynckes testou variações durante as últimas semanas, mas sofreu com os muitos desfalques. Não à toa, a escalação inicial se tornou bastante previsível, a não ser pela troca de Javi Martínez por Tolisso. E, do banco, a única alternativa plausível ao ataque era Sandro Wagner. Deu no que deu, com Martínez, entrando para aumentar ainda mais a estatura dentro da área e resumindo o desespero nas bolas alçadas. De qualquer maneira, com as peças que tinha, os bávaros poderiam e deveriam ter feito mais. Até por enfrentarem um adversário forte, mas longe dos seus melhores dias. De positivo, ficam a capacidade de organização de James, o empenho de Süle e as investidas dos laterais. Ter jogado melhor não significa que o FCB atuou suficientemente tão bem, sem incisividade.

A eliminação talvez marque o fim de uma era ao Bayern de Munique. Heynckes comandou um processo transitório, que teve alguns pontos positivos, mas não parece deixar algo mais profundo a Niko Kovac. E a queda na Champions, da maneira frustrante como aconteceu, gera suas indagações sobre o futuro. O escorregão de Ulreich provavelmente será a imagem principal deste adeus. Mas o goleiro não pode e não deve ser tratado como bode expiatório. Há bem mais para se ponderar e analisar. A decepção não se resume a um lance.