O épico está completo, o milagre se concretizou: O Leicester é campeão da Premier League

Com duas rodadas de antecedência, o Leicester confirmou um dos títulos mais fantásticos da história do futebol

O futebol se faz de boas histórias. Que o jogo seja importante, ele não seria nada sem os grandes enredos. São os épicos vividos dentro de campo que servem de combustível à paixão. Se for com o seu time, melhor. Mas quando os pés escrevem a trama com maestria, não importa muito a cor da camisa ou o escudo. A emoção basta para conquistar mais e mais aficionados. Assim, o Leicester construiu sua epopeia em 2015/16. Uma história que, tamanha quantidade de elementos mágicos, só poderia ser pensada por um grande escritor – e, ainda assim, correria o risco de ser taxada como inverossímil. As Raposas rechearam sua trajetória com capítulos peculiares, encantadores. Talvez o mais belo livro de realismo fantástico que o futebol já proporcionou.

VEJA TAMBÉM: Ranieri não verá jogo do Tottenham porque marcou um almoço com a mãe na Itália

O princípio básico da história protagonizada pelo Leicester é a surpresa. O candidato ao rebaixamento, que nunca se sagrou campeão, terminou com a taça na mão – e após 36 rodadas sufocantes em pontos corridos, acima de tantos outros clubes mais ricos e poderosos. Afinal, a zebra tem muitos atrativos. Gostamos da sensação de presenciar um momento especial, a rara alegria de pessoas que não estão acostumadas a comemorar. Gostamos da inversão das expectativas, das reviravoltas na trama, daquilo que nos surpreende. Gostamos da zebra porque nos identificamos mais com quem não tem supremacia, como a maioria de todos nós, mas compensa isso com suor e inteligência. O feito heroico ao alcance dos dedos.

O épico já começou com um prólogo que, por si, valeria como uma grande história. A inesperada salvação em 2014/15, quando a queda já parecia inescapável. Em nove rodadas, as Raposas conquistaram sete vitórias. Comemoraram o feito como se tivesse o peso de um título. E mal sabiam o que viria depois. O prólogo, no entanto, ainda pode ser mais extenso. Pegando desde o acesso à Premier League em 2013/14, com o título na segunda divisão. Ou então relembrando que, em 2008/09, o clube era campeão da terceirona.

VEJA TAMBÉM: Título do Leicester pode ser “a maior derrota da história das apostas”

Além disso, toda grande história depende de bons personagens. Aqueles que criam uma empatia natural, um sentimento de proximidade, de admiração. E o Leicester ofereceu um elenco inteiro de ótimos protagonistas. O primeiro a despontar foi Jamie Vardy, o operário que saiu do amadorismo para uma ascensão fabulosa, para quebrar recordes de gols e defender a seleção nacional.  Aos poucos, o artilheiro também abriu espaço para outros nomes. Como Mahrez, o argelino que foi contratado pelas Raposas ao acaso e se tornou um fenômeno. Como Kanté, outro desconhecido que saltou aos olhos pela disposição. Ou mesmo Morgan, Okazaki, Drinkwater, Schmeichel, King – este o único que viveu a escalada desde a terceira divisão. Uma lista extensa, de renegados a reerguidos, de coadjuvantes a estrelas.

Na reta final, porém, ninguém se sobressaiu mais do que Claudio Ranieri. O treinador tido como ultrapassado, que vinha de trabalhos ruins e outros abaixo da crítica, mas soube transformar o ambiente no Estádio King Power. Ofereceu a confiança e o bem-estar ao seu elenco. Com simplicidade, construiu uma máquina de jogar futebol, dentro de suas limitações. O Leicester não precisa da bola para saber muito bem o que fazer com ela. Ataca com fúria, defende com dedicação. Suas vitórias, que não tenham os placares mais recheados, não deixam de contar com emoção. Ranieri foi o mentor desse processo. Tirou a pressão de seus jogadores e chamou a responsabilidade para si, espirituoso como poucos.

VEJA TAMBÉM: Mahrez é o craque da temporada mais barato da história da Premier League

E ainda houve quem fizesse a diferença do lado de fora. A torcida, principalmente, que não deixou de acreditar em nenhum momento – mesmo no início, agora causando tantos prejuízos às casas de apostas. A cidade, que passou a respirar de maneira ainda mais intensa o futebol. Os próprios funcionários do clube, que também mereceram as atenções. Os dirigentes, que incentivaram o ambiente positivo e alimentaram a alma dos fanáticos – das cervejas gratuitas à manutenção no preço dos ingressos.

Por mais que se mantivesse entre os primeiros colocados, o Leicester começou sua trajetória sem tanta badalação. “É passageiro”, a maioria dizia. No entanto, em uma temporada extremamente equilibrada, as vitórias em sequência fizeram as Raposas subirem às cabeças. “Isso é cavalo paraguaio”. Na 13ª rodada, a surpresa atingia o topo. “Não vão aguentar até o fim”. A partir de então, o clube só deixou o primeiro lugar por quatro rodadas. “Calma que ainda tem chão”. Pois, desde janeiro, não houve mais que tirasse o time de Claudio Ranieri da primeira colocação.

VEJA TAMBÉM: Independente do sucesso, Leicester congela preços dos carnês de temporada para 2016/17

Neste caminho, foram vários os capítulos inesquecíveis. Dos golaços, como a bicicleta de Okazaki, o chutaço de Vardy, a habilidade de Mahrez. Das vitórias imponentes contra Manchester City, Liverpool, Chelsea. Da emoção pura nos minutos finais, sobretudo na reta decisiva da competição. Que os poderosos tenham se esfacelado no meio do caminho, não dá para negar as virtudes do Leicester. O enredo grandioso torna todas as outras versões da história irrelevantes.

O desfecho do livro não foi exatamente o clímax. Após o empate com o Manchester United, o Leicester viu do sofá a confirmação de seu título. O Tottenham parecia adiar a decisão para o Estádio King Power, após abrir dois gols de vantagem sobre o Chelsea em Stamford Bridge. No entanto, os Blues cresceram no segundo tempo. E o golaço de Hazard nos instantes finais acabou sendo decisivo para as Raposas. O empate por 2 a 2 concretizou o milagre.

Restam duas rodadas para o Leicester desfrutar de seu êxtase. E mais alguns meses em transe com toda a empolgação. Em 2016/17, as Raposas já tem uma turnê europeia em sua agenda. A oportunidade de seguir escrevendo o seu livro de fantasia puramente real. Talvez nem todos os protagonistas fiquem, talvez a magia não se mantenha. Porém, a epopeia não se apaga mais. Está gravada no ouro, com a taça em mãos.