Um clube de futebol exige muito de seu torcedor. Pede apoio, pede dinheiro, pede amor, e nem sempre retribui. Mesmo nessa relação desigual, raras vezes pede paciência. A lógica do imediatismo governa. O pacto é disputar títulos todos os anos, ganhar todos os jogos, fazer gol todos os minutos. Se isso não acontece, a reação costuma ser implacável e bilateral. Tanto administração quanto massa cobram ou aplicam rupturas, cobram ou aplicam gastos irresponsáveis, loucuras, mudanças de rumo, novos projetos, novos técnicos, novos jogadores – e novos diretores.

O Flamengo foi gerido dessa maneira durante décadas em que não conseguiu acessar todo o potencial que 40 milhões de torcedores podem fornecer, com sucessos espasmódicos, quase acidentais, sem nenhuma confiança de que havia algo de duradouro sendo construído, até que o grupo encabeçado por Eduardo Bandeira de Mello chegou ao poder e pediu paciência.

Paciência enquanto colocava as historicamente caóticas contas do clube em dia. Paciência enquanto preparava o Flamengo para ter, em campo, o tamanho que tem fora dele. Como escreveu Carlos Eduardo Mansur no Globo, foi proposta uma caminhada no deserto até chegar à terra prometida e, para a sorte do rubro-negro, esta caminhada durou menos do que 40 anos.

Durou sete. Começou efetivamente em 2013, quando o Flamengo até conquistou a Copa do Brasil, uma glória muito mais similar às pontuais do passado recente do que aos frutos que o processo de organização eventualmente daria. Dois anos depois, os primeiros sinais de alto investimento começaram a surgir, com a chegada de Paolo Guerrero, e aí a torcida precisou ter outro tipo de paciência.

A competência para colocar a casa em ordem fora de campo demorou para aparecer quando o assunto era campo e bola. Ter a capacidade de montar bons times e conquistar os principais títulos é uma coisa. Efetivamente fazê-los é outra. Houve decisões erradas em contratações e principalmente em treinadores e uma administração em geral do departamento de futebol que deixou a desejar.

O Flamengo brigou um pouco de longe pelos títulos brasileiros de 2016 e 2018, chegou a ser eliminado da Libertadores na fase de grupos, depois nas oitavas de final pelo Cruzeiro, perdeu uma final de Copa do Brasil, e outra de Copa Sul-Americana. E, mesmo no começo deste ano, já com nova diretoria, tomou a decisão errada de contratar Abel Braga, mas conseguiu corrigir o curso a tempo.

Porque, de repente, como se o Flamengo tivesse passado os últimos sete anos mexendo incessantemente no cubo mágico, tudo encaixou. Jorge Jesus foi uma brilhante sacada e se mostrou o líder perfeito para a nova religião que começava a se formar na Gávea, com as contratações certeiras de Rafinha, Filipe Luis, Gerson e Pablo Marí, cerejas de um elenco já qualificado com Everton Ribeiro, Arrascaeta, Diego, Bruno Henrique, Gabigol, Rodrigo Caio e Diego Alves.

O efeito foi ao mesmo tempo surpreendente e natural. Surpreendente porque, sob o comando de Jesus, o novo time rubro-negro deu liga quase imediatamente e impôs ao futebol brasileiro um domínio incomum e extraordinário. Natural porque não há muitos segredos na receita: se você juntar grandes jogadores e colocar um ótimo treinador para comandá-los a tendência é realmente dar certo.

O título do Campeonato Brasileiro está praticamente ganho. Pode chegar ainda neste domingo, caso o Palmeiras não ganhe do Grêmio, mas não era uma conquista do sofá de casa que o torcedor rubro-negro merecia pela paciência, nem esse o prêmio apropriado a uma diretoria que decidiu abandonar o clássico e muito brasileiro estilo bumba-meu-boi de administração para fazer as coisas de um jeito mais correto.

Era necessário um épico. Era necessária uma final que nunca será esquecida pela história, nunca será mencionada de passagem, que estivesse à altura dos 38 anos de espera para voltar a uma decisão de Libertadores, que estivesse à altura dos sacrifícios aos quais os torcedores e o clube se propuseram a fazer, uma final que será cantada em verso e prosa e eternizada pelas melhores penas do jornalismo esportivo.

Era necessário enfrentar um dos melhores times que o continente já viu, maduro e consciente, cascudo e composto, comandado por um treinador que tem tudo para alçar todos os voos que um treinador anseia alçar, e era necessário ser dominado durante grande parte da partida para chegar ao ponto em que a esperança se esvaziava até mesmo dos corações mais otimistas do Brasil.

Era necessário estar perdendo por 1 a 0 aos 43 minutos do segundo tempo, depois de o River Plate perder seguidas chances de matar a partida, porque apenas a partir dessa posição quase irreversível era possível ser construída a catarse que o torcedor do Flamengo merecia, a que vivencia neste momento e vivenciará pelos próximos dias, semanas, anos e décadas.

Era necessária essa catarse para provar que a paciência valeu a pena, que o rearranjo do pacto entre clube e torcida valeu a pena, que trocar o imediatismo por um projeto de médio-longo prazo vale a pena. Porque para acreditar mesmo quando não há motivos para acreditar são necessários exemplos concretos de quando o impossível realmente aconteceu, e a fé inabalável na força do Flamengo foi renovada em Lima para muitas e muitas gerações rubro-negras.

O Flamengo é diferente e, para o Flamengo se anunciar ao mundo finalmente do tamanho que pode e deve ter, agora tanto dentro quanto fora de campo, era necessária uma vitória diferente, que guarda paralelos com poucas na história do futebol.

A vitória do Flamengo, da maneira como ela aconteceu, foi uma ode aos benefícios da paciência. Foi uma ode aos méritos de tentar fazer as coisas do jeito certo. E, por fim, foi uma ode à maravilhosa experiência de ser rubro-negro.