O sonho da terceira medalha olímpica para a seleção feminina de futebol não se concretizou. Contra uma equipe de muita qualidade como o Canadá, o Brasil não teve a melhor postura na Arena Corinthians. Tomou pressão durante boa parte do tempo, fechado na defesa, onde viu as canadenses construírem a vantagem, com tentos de Deanne Rose e Christine Sinclair. Já nos minutos finais, a reação veio tarde demais, sem tanta precisão nas conclusões para ir além da derrota por 2 a 1, quando Beatriz descontou. As canadenses terminaram a tarde com o bronze no peito. Já as brasileiras, como acontecera em 1996 e 2000, acabou na quarta colocação do torneio olímpico.

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O que resta é olhar para frente e ver as perspectivas da seleção feminina. Há talento no elenco, mas que não preponderou nos principais momentos. Além da goleada contra a Suécia na primeira fase, o Brasil não conseguiu demonstrar grande poder de decisão. E a dependência de algumas peças individuais, sobretudo Marta e Cristiane, que já não vivem o ápice de suas carreiras, também pesou. Sem um repertório coletivo sob as ordens de Vadão, as brasileiras sucumbiram diante de adversárias mais bem organizadas. Contra as australianas, Bárbara salvou. Não aconteceu o mesmo diante das suecas e das canadenses.

O grande saldo para o futebol feminino nestes Jogos Olímpicos é o apelo diante do público. A garra da seleção foi evidente, e isso conseguiu grande mobilização diante do time. Não à toa, ao final do jogo contra o Canadá, os gritos em apoio ao Brasil persistiram, mesmo que a medalha não tenha vindo. De qualquer maneira, há uma caminhada longa a se seguir. O grupo de jogadoras deve passar por mudanças no próximo ciclo. Enquanto isso, a estrutura como um todo precisa de mudanças. Não dá para esperar tudo cair do céu dependendo apenas do talento, como quase aconteceu em 2004 ou 2008.

Olhando apenas para o nível da seleção adulta, a CBF até ofereceu o seu apoio. Ele só não foi feito da maneira ideal. A seleção permanente surgiu como uma maneira correr contra o tempo e trabalhar a capacidade coletiva do time. Algo que não se refletiu necessariamente em campo. Além disso, a entidade nacional não ofereceu as melhores condições, sem cumprir com benefícios trabalhistas prometidos inicialmente. Instabilidade que também acaba pesando contra. E, de qualquer maneira, o cenário caminha longe do que realmente deveria ser o ideal.

A estrutura permanente do futebol feminino é parca. A organização no nível dos clubes até teve os seus acertos nos últimos anos e, mesmo assim, é rasa. Pode-se discutir o interesse que as competições conseguem atrair. Ainda assim, é uma cultura esportiva sobre a qual mal existem tentativas de se tentar enraizar – algo que passa pela CBF, mas também por clubes e pela própria imprensa. Não à toa, dificulta-se por tabela uma formação mais qualificada, tanto de jogadoras para o campo quanto de profissionais específicos para o seu redor.

A seleção atual já sente dificuldades com o envelhecimento de algumas jogadoras e, mesmo com talentos surgindo, não tem tantas perspectivas para substituí-las. Deve seguir com peso mundial, mas é difícil prever chances de seguir sonhando com conquistas. Mesmo no comando da equipe nacional, muitas vezes prefere-se recorrer a profissionais medianos do futebol masculino a se apostar naqueles mesmos que já trabalham com excelência com as mulheres. Falta uma visão específica para o futebol feminino. Algo que as Olimpíadas apontaram com campo para existir.

Marta, Formiga e companhia seguem com seu valor, mesmo sem o bronze. Diante do que se viu na Copa do Mundo de 2015, dá até para falar que superaram as expectativas. De qualquer forma, isso não pode relativizar as falhas que existiram, especialmente na hora de mostrar um repertório em campo e fazer a pressão no ataque se transformar em gols. Problemas inegáveis, mas só parte integrante de um processo longe de ser feito da melhor maneira com as mulheres. O sucesso não costuma se construir ao acaso. Para isso, as Olimpíadas também não podem ser também só um acaso em relação ao interesse sobre o futebol feminino no Brasil. A gente torce para que mude, mas nem sempre as esperanças são tão grandes quanto a vontade.

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