Os títulos conquistados ou os novos astros contratados não tornaram as vitórias do Flamengo automáticas, como até se fez parecer durante essas primeiras semanas de 2020. E a primeira partida internacional do clube no ano, contra o Independiente del Valle pela Recopa Sul-Americana, basicamente mostrou como a temporada pode oferecer suas dificuldades aos rubro-negros – sobretudo quando as situações saírem de seu controle. Não foi um jogo simples ao Fla no Estádio Atahualpa, em Quito. Além da altitude, a equipe de Jorge Jesus precisou lidar com os temores de lesão e com uma arbitragem que, no mínimo, minou os visitantes em dois lances capitais. Não seria também uma atuação brilhante dos cariocas, que voltam para casa com o empate por 2 a 2. O placar não agrada tanto, mas mantém o título palpável ao Maracanã.

Sem o suspenso Gabigol, o Flamengo surpreendeu ao ter Diego no lugar – com o o restante da escalação já “consagrada” do time, incluindo a troca de Pablo Marí por Gustavo Henrique. Diante das opções no banco, Jesus poderia ter confiado em Michael ou Pedro para ao menos manter a formatação da equipe. A opção precavida logo mostraria sua motivação, com o Independiente del Valle complicando aos rubro-negros desde os primeiros minutos.

Mais acostumado aos efeitos da altitude, o Del Valle parecia ter o controle da situação. Tocava a bola com mais paciência e não se intimidava com a tentativa do Flamengo de pressionar a saída, numa postura menos intensa que a habitual dos rubro-negros. Os dois times soltavam o pé nas primeiras finalizações e, assim, as chances começaram a pender aos equatorianos. As chegadas se tornaram mais numerosas após os primeiros dez minutos e o gol saiu aos 19. Mesmo sem tanto ângulo, Jacob Murillo cobrou uma falta lateral direto ao gol e acertou o ângulo. Diego Alves saiu atrasado e também facilitou o belo tento.

O Flamengo logo conheceria outro desafio grande em Quito: a arbitragem. Era uma partida pegada, em que o Independiente del Valle não aliviava nas chegadas mais firmes. O apito já não agradava pelas marcações favoráveis ao time da casa. E os rubro-negros ficariam na bronca, quando Bruno Henrique disparou para anotar o gol de empate: o tento acabou anulado por impedimento. A marcação do VAR, exageradamente demorada, ainda deixou dúvidas se foi certa. O atacante parecia sair de trás do meio-campo e os ângulos exibidos pela transmissão oficial foram pouco conclusivos.

Sem o gol, o Flamengo precisou continuar se empenhando. E, ainda sem o melhor ritmo, os rubro-negros também não faziam uma boa atuação, pouco efetivos no ataque. Bruno Henrique aparecia bastante isolado e as principais jogadas dependiam de seu esforço individual. Até criou outras ocasiões para o empate, mas nada tão contundente. O Fla não executava tão bem suas transições. Do outro lado, se o Del Valle não ameaçaria tanto a meta de Diego Alves, exigia uma marcação mais atenta dos rubro-negros para evitar outro gol.

O Flamengo voltou ao segundo tempo com Vitinho no lugar de Diego, e a entrada do atacante já ofereceu mais recursos ofensivos ao time com poucos minutos, criando suas primeiras jogadas. Só que o Del Valle não dava sossego. Não fosse a falta de pontaria dos equatorianos, o prejuízo do Fla poderia ser maior. Fernando Guerrero teve ótima chance de ampliar aos 13, mas desperdiçou a brecha e mandou para fora, assim como Gabriel Torres parou em Diego Alves ao sair de frente para o gol.

Botando mais pressão na frente, o Flamengo fez valer sua melhora na segunda etapa e respirou aliviado com o empate aos 19. No contra-ataque, Arrascaeta serviu Bruno Henrique, que disparou e chutou na saída do goleiro. Mas nem assim os rubro-negros puderam comemorar tanto: no lance, o atacante se chocou com Jorge Pinos e levou a pior. Precisou ser retirado de maca e encaminhado direto ao hospital, no que, pela reação, parecia ser algo grave. Todavia, depois os dirigentes do Fla acalmariam a torcida, comunicando que não havia fratura.

Pedro entrou no lugar e o Del Valle seguia com a iniciativa. Criou mais algumas boas oportunidades na sequência da partida, rondado o gol de Diego Alves e martelando. Aos 34, John Sánchez perderia um bom lance no segundo pau. Além do mais, os rubro-negros precisavam tomar cuidado com a falta de critério da arbitragem nas marcações. E, como se não bastasse, Rodrigo Caio foi outro a sair de maca após se machucar. Diante de tudo isso, o empate não era mau negócio.

Só que a qualidade individual pode muito bem pesar em uma equipe na qual isso abunda. O Flamengo virou o placar aos 40, numa jogada que contou com a velocidade de Vitinho e o poder de decisão de Everton Ribeiro. O capitão passou pelo marcador e salvou a bola na linha de fundo, ao cruzar para Pedro. Oportunista, o centroavante segue precisando de poucos minutos para deixar sua marca nos jogos do novo time. Guardou mais uma. Mas as esperanças de vitória caíram aos 43, graças a um pênalti marcado ao Del Valle.

A decisão do juiz é compreensível a olho nu, onde talvez não tivesse a melhor posição para analisar o contato. Contudo, se o erro em campo acontece, o mesmo não dá para se dizer do VAR. As imagens apresentadas pela televisão mostravam que não houve um toque suficiente para derrubar Murillo e o equatoriano se jogou. Mesmo assim, a cabine validou a marcação, para revolta dos rubro-negros. Pellerano converteu, num placar que ao menos era mais condizente à maneira como o Del Valle arriscou mais. Nos longos acréscimos, ainda surgiu a oportunidade de uma nova virada. Murillo apareceria sozinho na área, mas mandou por cima.

Foi um jogo importante por exigir mais do Flamengo e mostrar que nem tudo vai acontecer num passe de mágica. O time ainda possui uma qualidade superior, e pode arrancar resultados difíceis, mas também precisará lidar com as intempéries em certas partidas. Até mais incômodo que o resultado ou as marcações da arbitragem foi o temor de perder dois jogadores-chave à sequência da temporada. Ao menos agora, o elenco tem mais margem de manobra. Sem gol qualificado, a definição da taça fica para a próxima quarta-feira, no Maracanã. O favoritismo, de qualquer forma, segue nas mãos do time de Jorge Jesus.