O relógio apontava os 44 minutos do segundo tempo. E não eram apenas os olhares da multidão no Estádio Riazor que se concentravam todos ali, na marca da cal. Seja através dos olhos, dos ouvidos ou do pensamento, a Espanha inteira aguardava ansiosa o desfecho daquele momento. Já não importava mais o relógio. Já não importava mais a empreitada desgastante para chegar até aquele instante. Na última rodada de La Liga, era Miroslav Djukic, o goleiro e a bola. Um pênalti que definiria tudo. Que garantiria ao seu Super Depor, líder por 22 rodadas consecutivas, o momento mais glorioso de sua história. Mas que, em um fraquejo, eternizou o Dream Team do Barcelona como tetracampeão nacional.

Não há lista dos finais de campeonato mais emocionantes que não inclua o Espanhol de 1993/94. Aquela competição foi disputada palmo a palmo por dois supertimes. O Barça dominava o país e construía sua hegemonia com Johan Cruyff. Contudo, encontrou um desafiante digníssimo no Deportivo de La Coruña, saindo da segunda divisão para campanhas retumbantes entre os gigantes. O campeão não se definiu até o último compromisso, em 14 de maio. Enquanto o Barcelona fazia sua parte e vencia o Sevilla por 5 a 2, o Depor precisava também ganhar seu jogo para ficar com o troféu, mas o empate sem gols com o Valencia persistia no Riazor. Até que, aos 44 do segundo tempo, a responsabilidade recaiu sobre Djukic.

Às vésperas daquela partida, como já tinha se tornado rotina, o iugoslavo conversara com sua esposa no telefone. Ceca sempre oferecia palavras de alento ao defensor, independentemente do tamanho da ocasião. A preocupação costumeira se repetiu naquele final de semana de primavera, mas com um cuidado a mais. A companheira pediu expressamente a Djukic: “Por favor, não bata um pênalti neste jogo”. O veterano, no entanto, preferiu desobedecer. Até esboçou um sorriso ao se lembrar do conselho, já com a bola nas mãos, pronto para ajeitá-la na marca da cal. Era dele a responsabilidade. Os olhares de toda a Espanha recaíam sobre seus pés.

Djukic não teve muito tempo para pensar. Era ele, a bola e as redes. Ele, a bola, as redes e um goleiro que se agigantava sob as traves. Pouco importava quem estava ao seu redor no Riazor ou de qual canto do mundo vinha cada tonelada da pressão que sufocava seus pensamentos. O iugoslavo deveria ter ouvido Ceca. No turbilhão dentro de sua mente, faltou calcular melhor como executar aquele pênalti. Sem olhar para a bola, apenas viu sua trajetória errante e mansa, rumo a José González. Rumo aos braços daquele goleiro que se colocou no caminho até as redes. Então, já não havia mais em que pensar. Djukic agachou-se, levou as mãos à cabeça, lamentou-se profundamente. O tempo parou aos 44 do segundo tempo, mas ele não seria capaz de alterar o rumo da história. Ao apito final, desabou em prantos.

O Deportivo, líder por 22 rodadas, não conquistou o Campeonato Espanhol de 1993/94. O título ficou com o Barcelona, o Dream Team de Johan Cruyff, que cresceu na reta final e tomou a primeira colocação na última rodada, graças aos critérios de desempate. O instante decisivo no Riazor também provocou o pânico no Camp Nou, diante do desejo que poderia ruir. Mas prevaleceu o regozijo, com a taça reservada aos catalães. Foi um dos maiores finais de campeonato de todos os tempos, determinado de maneira apoteótica. Ainda que a apoteose tenha causado um pesadelo infindável a Djukic.

Não era um drama novo ao Barça

A temporada de 1993/94 marcou o ápice do Barcelona treinado por Johan Cruyff. A caminhada dos blaugranas ao tetra espanhol, porém, seria repleta de percalços. Havia qualidade de sobra no timaço formado no início da década de 1990, dominando La Liga e levando o clube à sua primeira conquista na Champions League. Ainda assim, aquele Barça não pode reclamar muito da sorte. Nas duas temporadas anteriores, os catalães também haviam tomado a liderança do campeonato justamente na rodada final. Filmes parecidos, mas não com o requinte de crueldade visto contra o Deportivo.

O início da caminhada aconteceu em 1990/91. Foi a única conquista do tetra na qual o clube realmente dominou a tabela. Assumiu a liderança na segunda rodada e não saiu mais de lá, rompendo o pentacampeonato construído pelo Real Madrid a partir da metade final dos anos 1980. A tranquilidade era tamanha que nem mesmo o desempenho ruim na reta final foi capaz de brecar o Barça. O time terminou com somente uma vitória nas últimas cinco rodadas e, apesar disso, fechou o torneio com dez pontos de vantagem sobre o Atlético de Madrid, o vice-campeão – e em tempos nos quais as vitórias valiam apenas dois pontos, algo constante na liga até 1994/95. Era o princípio do Dream Team, já com o trio estrangeiro formado por Koeman, Laudrup e Stoichkov.

O Real Madrid, de fraca campanha em 1990/91, voltaria a se tornar o principal concorrente do Barcelona no biênio seguinte. Em ambas as temporadas, esteve com a taça nas mãos. E, coincidentemente, viu o Tenerife frustrar seus planos por dois anos seguidos. O “Tenerifazo” mais famoso é o de 1991/92. O Barça não começou bem aquela temporada. Zanzou no meio da tabela até meados do primeiro turno, quando engrenou. Passou o returno inteiro na segunda colocação, perseguindo o Real. E até oscilou no fim. Restando cinco rodadas, os culés estavam quatro pontos atrás dos merengues. Foi quando começou a reviravolta.

O Real Madrid acumulou tropeços fora de casa. Perdeu para o Real Oviedo e empatou com o Osasuna, dois times de meio de tabela. Enquanto isso, o Barça começou a emendar vitória atrás de vitória. Antes da rodada final, os merengues ainda sustentavam um ponto de vantagem. Contudo, sucumbiram na visita às Ilhas Canárias. O time de Leo Beenhakker chegou a abrir dois gols de vantagem, com Hierro e Hagi. Começou a permitir a reação do Tenerife no primeiro tempo, quando Estebaranz descontou. Já no fim da etapa complementar, um gol contra de Ricardo Rocha e outro de Pier consumaram a virada. Os anfitriões celebravam o triunfo por 3 a 2, curiosamente encabeçados por dois símbolos do madridismo: Jorge Valdano, então iniciando sua jornada como técnico, e Fernando Redondo, que arrebentou naquela ocasião e logo seria levado ao Bernabéu. Já no Camp Nou, Stoichkov anotou os dois gols contra o Athletic Bilbao, que ratificaram o bicampeonato.

Por fim, em 1992/93, o Barcelona quase sofreu a derrocada no final. O time de Johan Cruyff tomou a liderança logo cedo e a deixou por um breve período na virada dos turnos, superado pelo Deportivo. Por outro lado, o Real Madrid encorpou como o principal concorrente à taça no início de 1993. O conforto dos catalães diminuiu após uma derrota para o Real Oviedo e, a quatro partidas do fim, os 3 a 2 do Celta em Vigo tiraram os culés do topo. Um ponto à frente, o Real Madrid dependia apenas de si. As rodadas finais foram bastante parelhas. Os merengues se mantiveram na dianteira com triunfos sobre Real Sociedad e Atlético de Madrid, embora os blaugranas não se entregassem, batendo Sevilla e Osasuna. Por fim, outra vez o Tenerife se colocava no caminho dos madridistas, enquanto o Barça recebia a Real Sociedad no Camp Nou.

Logo aos 13 minutos, Stoichkov garantiu a vitória do Barcelona por 1 a 0. E, desta vez, o Real Madrid sequer alimentou suas esperanças nas Ilhas Canárias. Óscar Dertycia abriu o placar para o Tenerife ainda mais cedo, aos 11 minutos, e Chano ratificou o triunfo por 2 a 0. Valdano novamente era o carrasco, frustrando a forte equipe de Benito Floro. Com um ponto de vantagem, os blaugranas celebravam o tricampeonato espanhol, uma sequência inédita na história do clube. Até então, o Barça nunca tinha passado do bicampeonato em La Liga. E indicava ter forças para almejar mais.

Entre oponentes e amigos

O grande mérito do Barcelona naquele período era manter sua base sólida. Cruyff mesclou muito bem o seu elenco, entre os medalhões estrangeiros que atingiram seu ápice no Camp Nou e os jovens talentos locais que se firmaram em meio à ascensão. Era um time em crescente, absorvendo a filosofia de jogo ofensiva do treinador e privilegiando a qualidade individual. Assim, os blaugranas tinham poucas novidades para aquela temporada. Sergi Barjuan e Óscar García, crias da base, foram efetivados no plantel principal. Iván Iglesias chegava do Sporting de Gijón. E desembarcava um tal de Romário.

O Baixinho era um namoro antigo do Barcelona. Os rumores envolvendo o atacante do PSV ocupavam as páginas dos jornais desde temporadas anteriores, mas foi apenas em meados de 1993 que as conversas evoluíram. As negociações se arrastaram durante algumas semanas, diante das exigências feitas pelos holandeses. Os blaugranas pagaram parte da transação em dinheiro e ainda fariam amistosos para reverter a renda aos Boeren. Parecia o nome perfeito para dar um salto de qualidade ao esquadrão. E os gols acumulados durante a pré-temporada faziam os torcedores se animarem com Romário. Que não pudesse escalar os seus quatro estrangeiros ao mesmo tempo, numa época na qual apenas três eram permitidos em campo, Cruyff tinha munição de sobra para encarar o duplo desafio na Champions e no Campeonato Espanhol.

Afinal, o timaço nas mãos do treinador era completo. Andoni Zubizarreta garantia experiência sob as traves. Na defesa, a maestria de Ronald Koeman se complementava pela firmeza de Miguel Ángel Nadal, enquanto Albert Ferrer e Sergi Barjuán ofereciam juventude nas laterais. Pep Guardiola tratava de organizar o meio-campo, em plantel que ainda contava com Jon Andoni Goikoetxea e Eusebio. O cérebro na criação era Michael Laudrup. E havia qualidade no apoio, com o capitão José Mari Bakero, Guillermo Amor e Txiki Begiristain. Tudo para que o espetáculo fosse determinado pela harmonia entre Romário e Stoichkov. Apesar dos gênios distintos, os atacantes se tornaram grandes amigos e os parceiros perfeitos para as noites explosivas no Camp Nou.

Se o Barcelona empolgava com Romário, o mesmo não podia se dizer sobre o Real Madrid. Treinados ainda por Benito Floro, os merengues não fizeram contratações bombásticas naquela temporada. O único acréscimo aos titulares seria o zagueiro Rafael Alkorta. Rafael Martín Vázquez retornava ao clube onde despontou, mas esquentou o banco na maior parte dos jogos. E a aposta no jovem eslovaco Peter Dubovsky não se confirmou. Era um elenco renomado, que não conviveu bem com o envelhecimento de ídolos como Emílio Butragueño e Míchel. Enquanto isso, Iván Zamorano não repetiu a fome de gols de outrora, com sua pior temporada no Bernabéu.

Quem ascendeu como principal concorrente ao Barcelona foi o Deportivo de La Coruña. O tradicional clube galego vivia o seu ressurgimento. Após vagar por mais de uma década nas divisões de acesso, o clube retornara à elite em 1991/92. Naquela primeira campanha, deu-se por satisfeito em escapar do rebaixamento. Todavia, logo investiu pesado em reforços e se galgou como uma potência. Era a formação do Super Depor. Em 1992/93, a diretoria presidida por Augusto César Lendoiro quebrou a banca. Mauro Silva e Bebeto lideravam a barca de reforços, que rendeu seus frutos. Embora não tenham conseguido acompanhar o ritmo de Barça e Real, encerrando a jornada na terceira colocação, os branquiazuis chegaram a ocupar a liderança durante o início do returno. Além de vencer os dois gigantes no Riazor, o time de Arsenio Iglesias teve o artilheiro (Bebeto) e o goleiro menos vazado (Paco Liaño) da Liga. Era natural que viessem com mais força para 1993/94.

Donato e Voro foram os principais reforços do Deportivo para aquela nova campanha. Davam mais sustentação a um time bem encaixado por Arsenio Iglesias, antigo ídolo do clube e mentor da reconstrução desde a segundona. Era como um pai aos jogadores, muito próximo e muito protetor, embora também tenha montado sua máquina de jogar futebol, baseada na organização sem a bola e na liberdade aos seus atacantes. Os galegos contavam com um reforçado sistema defensivo, composto geralmente por cinco homens atrás. Paco Liaño era o goleiro, com López Rekarte e Nando nas laterais. Já no miolo de zaga, aparecia o trio geralmente formado por Voro, José Luis Ribera e Miroslav Djukic. O meio misturava vigor físico e qualidade técnica com Mauro Silva, Donato e Fran, todos com nível de seleção. Já na frente, o gladiador Claudio Barragán se combinava com Bebeto, em fase imparável. Exibindo o máximo de sua velocidade, o brasileiro não desperdiçava nem chances pela metade. Sequer precisou se adaptar para virar ídolo absoluto na Galícia.

Cabe ressaltar que o Deportivo, mesmo contando com uma equipe montada em poucos anos, possuía enorme tarimba. Dos 11 titulares, seis já tinham superado os 29 anos de idade. Além disso, diversos jogadores acumulavam rodagem nos clubes grandes da primeira divisão espanhola. Vinham ao final de seu contrato, buscando mais espaço em A Coruña. Os mais jovens eram Mauro Silva, de 25, que já era convocado após estourar com o Bragantino; e Fran, de 24, prata da casa muito prestigiado no Riazor por sua habilidade. No mais, o Super Depor surgia como um projeto que visava resultados imediatos e teria um grande momento em 1993/94. Adorado até mesmo pelos torcedores oponentes, se tornou o segundo time de todo o país.

A corrida alucinante

O Barcelona começou o Campeonato Espanhol tomando a liderança. Sobretudo, porque Romário chegou causando impacto em seus primeiros meses no Camp Nou. Além da estreia assombrosa contra a Real Sociedad, na qual anotou uma tripleta, o Baixinho acumulou 13 gols em seus primeiros 13 jogos pela Liga. Só que os blaugranas não manteriam a consistência. Além de perderem pontos contra os virtuais candidatos ao rebaixamento, também sucumbiram na visita ao Riazor, válida pela sétima rodada. Bebeto anotou o único gol no triunfo do Deportivo por 1 a 0.

O Super Depor, ainda assim, demorou um pouco para se aproximar do Barcelona. O time oscilou demais no início da competição. Chegou a enfiar 4 a 0 no Real Madrid durante a terceira rodada, mas acumulou três partidas sem vencer até pegar o Barça. A ascensão só tomou forma a partir de novembro, quando os galegos emendaram bons resultados e passaram a perseguir os catalães. A primeira virada na tabela aconteceu no fim do primeiro turno, logo nos primeiros dias de 1994. O Barcelona vinha em mau momento, após perder a Supercopa diante do Real Madrid, e engoliu a derrota por 2 a 0 na visita ao Sporting de Gijón, cabal à mudança na liderança. No mesmo período, o Deportivo vinha em uma sequência invicta de oito jogos, incluindo sete vitórias, e chegou ao topo da tabela.

O Barcelona ensaiou uma recuperação em 9 de janeiro. Naquele dia, aconteceu o emblemático clássico de Romário. O camisa 10 anotou três gols no Camp Nou e comandou os acachapantes 5 a 0 sobre o Real Madrid, maior goleada sobre os rivais desde a década de 1970. Mesmo assim, o vareio seria insuficiente para alcançar o Deportivo. Pior, o Barça sofreu três derrotas nas quatro rodadas seguintes, permitindo que os galegos abrissem seis pontos de vantagem na ponta e que os próprios madrilenos tomassem a segunda colocação. O time de Johan Cruyff patinava contra adversários intermediários na tabela, algo que não se via com o Super Depor.

Por cumprir seu papel contra os mais fracos, o Deportivo pôde “se dar ao luxo” de tropeçar nos principais embate e nem assim perder a liderança. Na visita ao Real Madrid, os branquiazuis sofreram uma derrota por 2 a 0 dentro do Bernabéu. Emendaram três vitórias depois disso, até a visita ao Camp Nou, pela 26ª rodada. Neste momento, o Barcelona já dava seus sinais de recuperação. O revés por 6 a 3 na visita ao Zaragoza mexeu com os brios dos catalães. “Se fizermos algo nesta temporada, será graças a este resultado”, declarou Cruyff, logo após o vexame, em tom profético. Desde então, o time finalmente vinha de dois triunfos consecutivos, incluindo uma sonora goleada por 8 a 1 sobre o Osasuna. O confronto direto contra o Depor serviria para representar as ambições dos postulantes à taça.

O Barcelona cumpriu sua missão no Camp Nou. Venceu por 3 a 0, de maneira incontestável. Apesar do pênalti não marcado sobre Bebeto no início do jogo, os blaugranas foram bem mais vorazes no ataque e contaram com o poder de decisão de seus grandes talentos. Stoichkov abriu o placar com uma cabeçada e deu a assistência para Romário aumentar a contagem ainda no primeiro tempo. Já na etapa complementar, o Baixinho presenteou Michael Laudrup com o gol que fechou a noite. O Super Depor, que só havia sofrido míseros dez gols até então e manteve sua meta invicta em 18 das primeiras 25 rodadas, era trucidado na Catalunha. O Barça, por mais que seguisse em terceiro, encurtava a distância em relação aos líderes para quatro pontos.

Logo ficou claro que o Real Madrid não teria forças para o sprint final. Na rodada seguinte, os merengues perderam para o Lleida e entregaram de bandeja a vice-liderança para o Barcelona. O time de Cruyff aproveitava o momento e emendava ótimos resultados, incluindo os 5 a 3 sobre o Atlético de Madrid, com três de Romário e dois de Stoichkov. A dupla de ataque chegou ao auge de seu entrosamento. Por mais que a Champions aumentasse sua exigência, recheando o calendário a partir de março, o Dream Team recobrava a sua fama. Paralelamente, o Deportivo queimava a gordura que possuía. Depois da derrota no Camp Nou, foram três empates consecutivos. Até pelo sistema de pontuação na época, a seca não comprometeu tanto. Só que a diferença entre primeiro e segundo colocado já havia se reduzido a dois pontos ao final da 28ª rodada.

O Barcelona caminhava firme, sem mais deslizar contra os pequenos e médios. Da 30ª à 36ª rodada, foram seis vitórias e um empate. O embalo era inegável, com triunfos contundentes sobre Valencia, Celta e Sporting. Neste intervalo, os blaugranas ainda despacharam o Porto e se classificaram à decisão da Champions, na qual enfrentariam o Milan. Já o Deportivo, apesar de vencer seus cinco primeiros compromissos no mesmo período, vacilou no final. Não passou de empates sem gols contra Lleida e Rayo Vallecano, que lutavam contra o rebaixamento. Os tropeços permitiram que os catalães ficassem a um ponto de distância, faltando somente dois compromissos para o término da competição.

Havia até mesmo uma disputa especial na imprensa, entre Johan Cruyff e Arsenio Iglesias. Os treinadores faziam seu jogo mental e se provocavam publicamente. O holandês criticava o deportivismo e aumentava a pressão sobre os rivais, dizendo que seu time não tinha chegado ao máximo ainda. Ao que o espanhol respondia, apontando para a angústia dos blaugranas em correrem atrás do prejuízo. E o momento mais emblemático aconteceu no Riazor, durante a vitória sobre o Tenerife. Anos antes, após sofrer um ataque cardíaco, Cruyff substituiu o cigarro por pirulitos, sempre em sua boca à beira do campo. Então, para provocá-lo, milhares de pirulitos foram distribuídos pelos torcedores branquiazuis, em meio a mensagens de apoio ao time e a Iglesias. Não à toa, os jornais espanhóis deram um apelido sugestivo àquele campeonato: era o “Chupa Chups”, em referência à famosa marca do doce sediada no país.

Provocações à parte, o Deportivo tinha motivos para manter sua fé nos dois últimos compromissos. Afinal, o Real Madrid x Barcelona do segundo turno não havia acontecido, marcado para a penúltima rodada. Embora não tivessem mais chances de buscar a taça, os merengues certamente gostariam de colocar água no chope dos rivais. Não conseguiram. Mesmo com o drama de Romário, que entrou em campo após seu pai ser sequestrado no Rio de Janeiro, os blaugranas buscaram o resultado. Seria a primeira e única vitória de Cruyff como técnico do clube no Bernabéu.

Foi um jogo realmente aberto, em que os dois times tiveram oportunidades de vencer. Koeman obrigou uma defesa milagrosa de Paco Buyo no primeiro tempo, enquanto Butragueño perdeu uma chance de ouro com a meta escancarada. O placar de 1 a 0 só foi definido a 15 minutos do fim. Stoichkov cruzou pela esquerda e Amor apareceu feito um centroavante, estufando as redes. O resultado permitiu ao Barça dormir na liderança, até que o Depor respondesse no dia seguinte. Donato e Javier Manjarín fizeram os tentos nos 2 a 0 sobre o Logroñés, que recobravam a primeira colocação. Que deixavam a definição para a rodada final.

O drama de 14 de maio

Com a final da Liga dos Campeões marcada para 18 de maio, o confronto direto pelo título terminou antecipado. Enquanto o restante da rodada aconteceria no domingo, 15 de maio, os compromissos de Barcelona e Deportivo foram adiantados para o sábado. Ambos jogariam diante de suas torcidas. Os blaugranas recebiam o Sevilla, na quinta colocação e almejando uma vaga na próxima Copa da Uefa. Já os branquiazuis pegavam o Valencia, sétimo na tabela, com probabilidades bem menores de avançar à competição continental. E, para depender apenas de si, os galegos precisavam da vitória. O Barça tinha a vantagem no confronto direto, graças aos dilatados 3 a 0 do início do segundo turno.

Ainda que o pênalti no Riazor seja o clímax daquele 14 de maio, o Camp Nou não esteve alheio à agonia. O Barcelona goleou por 5 a 2, de fato, mas com sua dose de sofrimento. Treinado por Luis Aragonés, o Sevilla possuía um time qualificado. E os dois grandes talentos daquele grupo deram suas caras no primeiro tempo. Os andaluzes partiram para cima e abriram o placar logo aos 12 minutos. Em uma sobra de bola pelo alto, Guardiola não acompanhou Diego Simeone e o argentino apareceu livre na área, subindo para desferir uma cabeçada indefensável por cima de Zubizarreta. O Barça não demorou a reagir. Aos 20 minutos, Laudrup fez uma jogada suntuosa pela esquerda. Deixou dois marcadores na saudade, antes de cruzar para Stoichkov, sozinho no segundo pau. O búlgaro acertou um bonito chute de primeira e mandou no cantinho de Juan Carlos Unzué para empatar.

Ninguém se entregava. Zubizarreta era bastante exigido em sua meta, colecionando grandes defesas. Já do outro lado, Romário (aliviado, após a libertação de Seu Edevair no início da semana) chegou a perder um gol feito na risca da pequena área. Pouco antes do intervalo, o artilheiro do Sevilla recuperou a vantagem à sua equipe: Davor Suker era a fera. O cruzamento fechado deixou Zubizarreta perdido no meio do caminho e o croata fuzilou de cabeça. O empate sem gols persistia no Deportivo x Valencia, mas os catalães precisavam da virada de qualquer maneira.

A bronca de Cruyff durante o intervalo certamente foi homérica. Afinal, o Barcelona voltou com outra atitude para o segundo tempo. O empate saiu logo aos cinco minutos. Stoichkov recebeu a bola na direita, dominou e mandou no cantinho de Unzué. O time se amontoava nos arredores da área andaluz e não tinha receio de chutar. A virada, por fim, se consumou aos 25. Em um lance confuso, a zaga cochilou após o passe espetado de Amor e Romário foi mais esperto. Girou sozinho e só teve o trabalho de encher o pé, rumo às redes. Só então a vitória ficou nas mãos do Barça. Stoichkov deu o passe para Laudrup marcar o quarto, aos 30. E, já aos 42, José Mari Bakero encobriu o goleiro e fechou a contagem.

Porém, não era possível ficar tranquilo no Camp Nou. Os torcedores mantinham seus ouvidos ligados no radinho de pilha, atentos ao que acontecia no Riazor. Por mais que fosse um figurante na tabela, o Valencia tinha seus predicados. Dirigido por Guus Hiddink, possuía Predrag Mijatovic e Gaizka Mendieta entre seus protagonistas. Ainda que o personagem na rodada final tenha sido outro: o goleiro José González. Reserva dos Ches, ele havia entrado em uma fogueira na rodada anterior, contra o Valladolid. José Manuel Sempere foi expulso e ele precisou encarar um pênalti dos violetas. Pegou o arremate e elevou seu moral para encarar os anfitriões na Coruña.

Apesar do peso da vitória, o Deportivo não mudou o seu plano de jogo. Fechou os espaços na defesa e esperou que seus homens de frente resolvessem – em especial, Bebeto, Fran e Donato. Todavia, o Valencia impôs uma forte marcação individual e levou mais perigo durante o primeiro tempo, testando o goleiro Liaño. Na melhor oportunidade do Depor antes do intervalo, Bebeto esbarrou em González. Os galegos eram afetados pela pressão, algo que já haviam demonstrado na temporada anterior, quando deixaram o bom primeiro turno ruir após as derrotas nas visitas contra Real Madrid e Barcelona. Desta vez, estavam em casa e eram empurrados pelo Riazor.

Os minutos se arrastavam e a virada do Barcelona no Camp Nou só aumentava a tensão. O Deportivo encontrava enorme dificuldade para romper a defesa do Valencia e, nas mínimas brechas, Bebeto não conseguiu encerrar o jejum de sete jogos sem marcar. O desespero se prolongou até os 44 do segundo tempo. Neste instante, o artilheiro domou uma bola forçada dentro da área. Passou a Nando, que terminou derrubado por Pepe Serer. Pênalti, incontestável. Nem um minuto depois que Bakero anotou o quinto gol na Catalunha, era apitada a penalidade na Galícia. A Espanha inteira aguardava o desfecho do que ocorreria ali, na marca da cal. Uma responsabilidade imensa sobre os branquiazuis, a 11 metros da conquista inédita da Liga.

O maldito pênalti

Voltemos um pouco no tempo. Em 27 de fevereiro de 1993, o Deportivo de La Coruña liderava o Campeonato Espanhol no início do returno e visitava o Real Madrid, terceiro colocado. Saiu em vantagem ainda no primeiro tempo, com Claudio Barragán, antes que Zamorano empatasse aos merengues. Os galegos poderiam ter retomado a dianteira, quando um pênalti foi assinalado a seu favor. Bebeto costumava bater, mas tinha desperdiçado algumas cobranças recentes e Miroslav Djukic assumiu a responsabilidade. Mandou no cantinho e o goleiro Paco Buyo buscou. A defesa aconteceu minutos antes que o Real virasse para 2 a 1, com Míchel. Aquele tropeço marcou a derrocada do Super Depor no Campeonato Espanhol 1992/93.

A memória ainda estava fresca quando o árbitro assinalou o pênalti de Serer em Nando, naquele 14 de maio de 1994 no Estádio Riazor. Donato se tornara o batedor oficial do Deportivo após sua contratação e anotou cinco gols na marca da cal durante o Espanhol. Porém, não poderia chamar a responsabilidade naquele momento, substituído por Arsenio Iglesias 15 minutos antes. Bebeto, que havia perdido penais contra Aston Villa e Oviedo em 1993/94, sequer treinou durante a semana. Embora alguns esperassem que o craque pudesse pegar a bola e resolver, a missão não era dele. Fran e Djukic eram os outros que, assim como Donato, haviam se preparado nos treinamentos recentes. Então, novamente o iugoslavo bateu no peito e chamou o momento para si. Contra o desejo de sua esposa, Ceca, ele cobraria.

Djukic, vale frisar, era um senhor defensor. O líbero chegou ao Deportivo ainda na segunda divisão, descoberto no Rad Belgrado, e se tornou peça central à ascensão do clube. Se a principal base do Super Depor era o seu sistema defensivo, o iugoslavo surgia como uma liderança inerente ao esquadrão de Arsenio Iglesias. Seja por sua firmeza ou por sua importância, o ídolo tinha seus motivos para estar naquela situação contra o Valencia. Seria ele a encarar José González nos 11 metros.

No entanto, se um ano antes os méritos foram totais de Paco Buyo, desta vez Djukic pecou. Seu tiro saiu fraco, rasteiro, praticamente no meio do gol. Assim como havia feito contra o Valladolid, González saltou para a direita e não só defendeu, como também encaixou o arremate. Vibrou descaradamente com o ato salvador, que também valeria a “mala branca” oferecida pelo Barça aos valencianos – algo admitido publicamente meses depois e bastante criticado, embora não tenha rendido punições. Depois do erro, os galegos se entregaram ao infortúnio. Tentaram aproveitar os últimos instantes do jogo, mas a frustração havia arrebatado suas forças. Era preciso aceitar a tragédia. O apito final cortou a carne no Riazor e provocou uma convulsão coletiva no Camp Nou. O Barcelona, de minutos desesperadores à espera do milagre, tinha a confirmação da euforia pelo tetracampeonato.

O mais bacana no Riazor é que os torcedores do Deportivo não culparam os seus jogadores. Enquanto muitos choravam em campo, desolados, a massa permaneceu nas arquibancadas por meia hora depois da partida. Aplaudiam os seus heróis e gritavam o nome de Djukic, sem virar as costas ao ídolo. “Creio que faltou um pouco de concentração a Djukic no pênalti. Ele posicionou a bola muito rapidamente e chutou em seguida. Estava chorando desconsoladamente no vestiário. Bebeto estava meio mareado, estirado na cama. Era angustiante, mas não pôde acontecer. Queríamos ganhar o título para a torcida”, declarou Arsenio Iglesias, na saída do estádio.

Djukic permaneceu no Deportivo até 1997. Conquistou a Copa do Rei em 1994/95, derrotando justamente o Valencia na final. Todavia, não teria chance de se redimir no Campeonato Espanhol. Sua conquista na Liga aconteceu só em 2002, por ironia, cinco anos depois de sua transferência ao Mestalla. Respeitado por galegos e valencianos, entretanto, não esconde o pesadelo que o atormenta há mais de 25 anos. “São águas passadas, ainda que, eu goste ou não, faça parte da minha vida. Você não pode esconder seu passado e nem de onde vem. É inevitável que aquela lembrança esteja comigo. Muitas vezes converti nos sonhos, mas por desgraça essa possibilidade não existe na vida real”, contou ao Marca, em 2008.

Já nesta semana, com lágrimas nos olhos, Djukic admitiu que só assistiu ao pênalti pela primeira vez em 2018. “Estavam falando algo sobre o pênalti e eu nunca tinha assistido ao vídeo na vida. Então, pensei que olharia um pouco e analisaria. Porque realmente não gosto de me torturar, sei que este pênalti formará parte do meu passado durante toda a minha vida. Não sou desses que ficam se torturando e pensando, porque é algo que não posso melhorar ou consertar. Não tem muito remédio”, afirmou, ao próprio site do Deportivo. “A torcida sempre se portou maravilhosamente bem, me apoiou e me ajudou a superar esse momento difícil. Agradeço às pessoas, que me ajudaram muitíssimo”.

o futuro do dream team e do super depor

Barcelona e Deportivo encerraram aquela edição do Campeonato Espanhol com 56 pontos. Os blaugranas recebiam os aplausos por sua força ofensiva, somando 91 gols – um recorde desde que Cruyff assumira o comando. Romário, por sua vez, cumpriu a promessa de que balançaria as redes 30 vezes na Liga e cravaria o número, recebendo o Prêmio Pichichi. Já Stoichkov, crescendo de produção no segundo turno, anotou 16 tentos – mesmo número que Bebeto. E se o troféu não terminou com o Super Depor, ao menos um recorde histórico prevalece. Os 18 gols sofridos em 1993/94 mantêm aquela como a melhor defesa em 90 anos da Liga, uma marca igualada pelo Atlético de Madrid em 2015/16.

O Barcelona, de qualquer forma, não tinha muito tempo para comemorar. Horas depois do êxtase no Camp Nou, os blaugranas pegaram um voo rumo a Atenas, para enfrentar o Milan na decisão da Liga dos Campeões. E o 18 de maio marca uma das maiores tristezas aos catalães. Dejan Savicevic arrebentou com as ambições do Dream Team, comandando a goleada dos rossoneri por 4 a 0 – em noite memorável que será tema de texto aqui na Trivela neste sábado. Entre o desgosto e os egos inflados demais, o esquadrão começaria a ruir a partir da temporada seguinte.

Já o Super Depor deu frutos. A equipe amargou outro vice-campeonato espanhol em 1994/95, mas sem tanto drama, enquanto se coroou com a conquista da Copa do Rei. Aquele foi o último ano de Arsenio Iglesias no comando do timaço. Além disso, com a idade avançada, seus principais jogadores logo começaram a se dispersar. A confirmação do período áureo aconteceu em 1999/00. Mauro Silva, Fran e Donato eram os remanescentes da decepção em 1994, redimindo o Deportivo com o título inédito da Liga. Uma outra história, mas que elevou o reconhecimento dos galegos ao patamar que mereciam. Seria impossível chegar à glória sem os aprendizados e experiências daquele 14 de maio.