De um mero figurante na Premier League, o Newcastle se transformou em uma equipe fundamental à disputa do título neste segundo turno. Afinal, os Magpies foram os únicos capazes de roubar pontos do Manchester City no campeonato desde 30 de dezembro. Exceção feita à visita ao St. James’ Park, os Citizens só acumularam vitórias. E o time de Rafa Benítez também seria uma pedra no sapato do Liverpool. A duas rodadas do final, a pressão sobre os Reds era clara, ainda mais depois da derrota contra o Barcelona. De fato, seria uma noite desesperadora na visita ao norte do país. A equipe de Jürgen Klopp permitiu o empate duas vezes, tomou uma bola na trave, perdeu o seu artilheiro por lesão. Já não tinha nem mais ao que recorrer, em uma atuação nervosa. Mas não foi a tensão ou a aflição que impediram o Liverpool de vencer. Na base da garra, com heróis pouco esperados, o triunfo saiu aos 41 do segundo tempo. O placar de 3 a 2 tirou a pedra do sapato e provisoriamente devolve a liderança. Sua parte o time fez. Além da competência, precisa agora contar com a sorte para secar o City.

Ainda sem Roberto Firmino, o Liverpool entrou com Daniel Sturridge no comando do ataque. E os Reds começaram a partida de maneira segura, se impondo no campo ofensivo. As primeiras chances surgiram com Mohamed Salah, mas os visitantes não demorariam a abrir o placar. O gol saiu aos 13 minutos. Trent Alexander-Arnold cobrou o escanteio no capricho, Virgil van Dijk escapou da marcação e deu uma cabeçada soberana para botar sua equipe na dianteira. Até parecia existir a possibilidade de um triunfo sem sobressaltos. Ledo engano a quem pensou assim.

Sete minutos depois, o Newcastle já encontrou o caminho ao empate. Logo no primeiro ataque dos Magpies, o Liverpool percebeu o tamanho da encrenca em St. James’ Park. José Salomón Rondón apareceu na pequena área para arrematar e Alexander-Arnold salvou com o cotovelo em cima da linha. Todavia, a jogada continuou. Christian Atsu aproveitou o rebote e empatou o duelo. Os Reds sentiram o tento. Passaram minutos desatentos na defesa e poderiam ter sofrido a virada. Alisson pegou uma cabeçada de Ki Sung-yueng, pouco antes de Ayoze Pérez carimbar o travessão em um lindo chute. Os visitantes se escoravam nas cordas.

A sorte do Liverpool é contar com Alexander-Arnold. O lateral atravessa uma fase fabulosa, assim como Andy Robertson. A sua segunda assistência na noite recolocou os Reds na partida. Aos 28, após um passe de calcanhar de Sturridge, o defensor realizou outro cruzamento cirúrgico de primeira e encontrou Salah totalmente livre dentro da área. O artilheiro desviou de direita e nem pegou em cheio na bola, mas conseguiu tirá-la do alcance de Martin Dubravka. O time de Jürgen Klopp parecia até se animar ao terceiro. Dubravka salvou uma no mano a mano com Sadio Mané, enquanto Sturridge assustaria em pancada para fora.

O segundo tempo começou bem mais aberto. Alisson trabalhou logo aos três minutos, em giro de Rondón, e Sturridge respondeu ao desperdiçar uma chance clara, mandando para longe. Custou caro. O Newcastle voltou a decretar o empate, aos nove minutos. Após escanteio cobrado em direção à área, a defesa do Liverpool afastou parcialmente e Rondón apresentou sua enorme qualidade na definição. Encheu o pé e mandou no canto, sem tempo de reação para Alisson. A partir de então, a partida mergulhou em uma completa loucura. Os Reds necessitavam da vitória e sentiriam o desespero bater, diante do cenário.

Apesar da pressa, o Liverpool escancarava a sua tensão e não conseguia criar boas chances. O Newcastle era bem mais objetivo quando atacava. Klopp mandou o time para cima aos 21, finalmente utilizando Xherdan Shaqiri, no lugar de Georginio Wijnaldum. Cinco minutos depois, porém, os Reds foram arrebatados pelo mesmo temor do momento decisivo da temporada passada: Mohamed Salah se lesionou, após um choque casual com Dubravka. Saiu de maca, aos prantos, dando lugar a Divock Origi.

A aflição atrapalhava o Liverpool. O time controlava a posse, mas era inócuo no ataque. Pior, qualquer mera subida do Newcastle fazia os torcedores vermelhos pensarem na tragédia, com a área invadida algumas vezes. Os comandados de Jürgen Klopp precisaram confiar no futebol mais rústico possível, de bolas rifadas à área e expectativa por alguma brecha. James Milner foi o último substituto a entrar em campo, no lugar de Dejan Lovren, declarando a postura ofensiva. A explosão, enfim, veio pouco depois. A vitória se concretizou aos 41 minutos.

Shaqiri, justo ele, cobrou uma falta lateral rumo ao pagode. Origi, justo ele, saltou entre os zagueiros e raspou na bola rumo às redes. O herói inesperado em uma vitória épica, para manter a chama vivíssima ao Liverpool. Detalhe ainda para a postura de Van Dijk, que insistiu e ordenou que o suíço fizesse o cruzamento, de pé esquerdo, mais fechado em direção à pequena área. Uma decisão vital na construção do tento. O relógio guardou oito minutos de acréscimos, para aumentar a taquicardia. O Newcastle era valente e não desistia, tentando estragar os planos dos oponentes. No entanto, os lançamentos rumo à área de Alisson não deram resultado. Ao apito final, o drama desencadeou uma vibrante comemoração dos Reds, merecida.

Ao que tudo indica, o jogo mais importante nesta reta final da Premier League acontecerá na segunda-feira. O Manchester City recebe o Leicester, aparentemente o oponente mais capaz de roubar pontos dos celestes – considerando que, na rodada final, eles visitam o Brighton. E o Liverpool depende demais do que as Raposas farão. Os Reds assumem provisoriamente a liderança, com 94 pontos. Ampliam ainda mais sua melhor marca na história da liga. Abrem dois de vantagem sobre os Citizens, na segunda colocação. E respiram reconfortados, depois de uma semana tão dura, que termina com um pouco de esperança. Agora, é reduzir os batimentos cardíacos e se preparar ao reencontro com o Barcelona, sabendo que o duelo contra o Wolverhampton em Anfield no domingo será bem mais importante.