Quando o Hamburgo caiu à segunda divisão do Campeonato Alemão, em 2017/18, imaginava que sua crise seria passageira. Sim, havia um peso histórico no rebaixamento, o primeiro dos Dinossauros desde que a Bundesliga foi fundada. A pressão sobre o HSV seria natural. Contudo, o clube do norte do país também possuía um orçamento maior que de seus concorrentes e já tinha demonstrado durante os playoffs dos anos anteriores que os maus momentos ainda não eram suficientes para derrubá-lo contra oponentes mais frágeis. Mas não foi assim que aconteceu. Os hamburgueses estiveram distantes de uma vida tranquila na segundona e, com uma rodada de antecedência, já sabem: seu martírio se ampliará também em 2019/20.

O jogo cabal à derrocada do Hamburgo aconteceu neste domingo. Os Dinossauros enfrentavam o Paderborn, novamente em franca ascensão na pirâmide do futebol alemão. Os nanicos foram a salvo do rebaixamento à quarta divisão em 2017 apenas porque o Munique 1860 não tinha dinheiro para pagar a licença à terceirona. Desde então, emendaram um acesso e engatilham o próximo. Para se aproximarem da promoção, tinham que derrotar o HSV no confronto direto e fizeram isso de maneira humilhante: 4 a 1 na Benteler Arena. Christopher Antwi-Adjei foi o carrasco, com dois gols. Estacionados nos 53 pontos, na quarta colocação, os hamburgueses têm possibilidades praticamente nulas de descolarem mesmo a vaga nos playoffs de acesso. Durante o pedido de desculpas à torcida após a goleada, o promissor Jann-Fiete Arp (já vendido ao Bayern de Munique) não escondeu as lágrimas pela despedida dolorosa.

O fracasso do Hamburgo, porém, não se limita a este domingo. É um processo decorrido ao longo da temporada. Os Dinossauros começaram a campanha com uma péssima atuação, perdendo do recém-promovido Holstein Kiel por 3 a 0 dentro de casa. Ganharam os quatro compromissos seguintes, mas o próximo tropeço seria outro baque: 5 a 0 para o modesto Jahn Regensburg, também dentro do Volksparkstadion. Apesar das humilhações, o HSV se recuperou e entrou na zona de acesso a partir de outubro. Mais do que isso, assumiu a liderança ao derrotar o Colônia. Desta maneira, os hamburgueses pareciam pronto a manter a toada e confirmar o retorno ao lado dos Bodes.

Todavia, a caminhada esteve longe de ser tranquila. Hamburgo e Colônia viveram suas provações na reta final da campanha. Os Effezeh, ao menos, se recuperou a tempo e manteve-se na zona do acesso direto durante todo o returno. Uma sorte que o HSV não teve. A coisa começou a degringolar em meados de março, com a derrota para o Darmstadt. Desde então, o Hamburgo não venceu mais um jogo sequer pela liga. São oito rodadas em jejum, com três derrotas consecutivas. Duas semanas atrás, o revés na visita ao Union Berlim permitiu que o time da capital e o Paderborn ultrapassassem os Dinossauros, fora da zona de acesso pela primeira vez desde outubro. Depois, os 3 a 0 engolidos em casa contra o Ingolstadt pioraram mais a situação. Até que a goleada do Paderborn neste domingo fosse a pá de cal.

Os 53 pontos do Hamburgo, em teoria, ainda permitiriam buscar os playoffs. O HSV está a três pontos do Union Berlim, que ocupa a terceira colocação. Porém, as goleadas sofridas ao longo da campanha cobram o seu preço. Os berlinenses possuem uma vantagem de 21 gols no saldo em relação aos hamburgueses. A Bundesliga é pródiga a reviravoltas, mas nem o torcedor mais otimista imagina uma reversão do quadro neste caso. É bem mais compreensível aceitar a realidade, de mais um ano na segundona. O encontro com o Duisburg, no domingo que vem, providenciará um melancólico fim de temporada.

O Hamburgo montou um elenco bastante voltado às categorias de base, mas também possuía jogadores experientes. Entre os remanescentes da primeira divisão estão Douglas Santos, Gotoku Sakai, Julian Pollersbeck, Pierre-Michel Lasogga e Christoph Moritz. Também chegaram alguns reforços pontuais, como Léo Lacroix e Hwang Hee-chan. E vale até ponderar que os Dinossauros perderam nomes importantes por lesão, como Jairo Samperio, Aaron Hunt e Kyriakos Papadopoulos. Ainda assim, é pouco para justificar o desempenho de um time com 15 vitórias e 10 derrotas, sendo seis delas com três ou mais gols sofridos. Para se ter uma ideia, os hamburgueses possuem saldo negativo como mandantes nesta campanha. A caminhada até as semifinais da Copa da Alemanha é pouco para salvar o ano desastroso.

Um sinal da bagunça está no comando. O Hamburgo chegou a mudar seu treinador no meio da temporada, em outubro. Deu uma oportunidade a Hannes Wolf, antigo técnico da base do Borussia Dortmund que subiu com o Stuttgart em 2017. A recuperação no meio da campanha valeu a aposta, mas a derrocada recente coloca a continuidade em xeque. Além disso, Lewis Holtby escancara os entraves internos. O meia, que fez juras de amor ao renovar seu contrato para a segunda divisão, se recusou a entrar em campo durante a derrota para o Union Berlim e, além de ser suspenso, também acabará dispensado.

A rodada final da segundona guardará a disputa particular entre Paderborn e Union Berlim. Um ponto à frente, o Paderborn encarará a pressão fora de casa contra o Dynamo Dresden. Já o Union visita o Bochum, precisando torcer por um tropeço dos concorrentes para conquistar a última vaga no acesso direto. O Colônia, vale lembrar, já subiu no final de semana passado. Enquanto isso, o terceiro colocado terá que encarar um mata-mata contra o antepenúltimo da primeira divisão – que quase sempre prevalece nestes duelos.

Já o Hamburgo, acompanhando tudo de longe, precisará repensar seu planejamento. É de se imaginar que alguns jogadores importantes não desejarão seguir na divisão de acesso durante a próxima temporada. O “ato nobre” de reerguer o clube perde o propósito quando as perspectivas são tão ruins. E, mais do que dar espaço à base, é preciso investir em atletas tarimbados para as provações da segundona. Estreante no nível abaixo, o HSV precisa aprender com os erros para tentar retornar rapidamente. A pressão no Volksparkstadion será bem maior após o vexame de 2018/19.