O Bayern de Munique não tem pudor de usar sua superioridade financeira para contratar destaques de outros clubes alemães. Serve a dois propósitos: reforçar seu time e enfraquecer o dos adversários. A crítica é que esse hábito desequilibra ainda mais a Bundesliga, e o sétimo título consecutivo conquistado pelos bávaros, no último final de semana, não nos deixa com muito espaço para discordar. No entanto, o Bayern não é o único que tem feito isso.

Nesta quarta-feira, o Borussia Dortmund anunciou mais duas contratações para a próxima temporada. Depois de Nico Shulz, Thorgan Hazard e Julian Brandt. Os três são jogadores de rivais diretos do Dortmund, respectivamente, Hoffenheim, Borussia Monchengladbach e Bayer Leverkusen, clubes que têm disputado as primeiras posições da Bundesliga nas últimas temporadas.

É natural em qualquer liga que haja negócios entre seus integrantes, e o Dortmund, mesmo na época de Jürgen Klopp, sempre aproveitou bem o mercado interno. Mas o perfil das contratações parece ter mudado, especialmente nas últimas três temporadas. Não são mais apenas apostas a preços módicos, como a situação do clube depois de quase ter falido exigia. Agora, estão chegando jogadores estabelecidos por valores mais altos.

Somando os valores registrados pelo Transfermarkt, site especializado em mercado, as contratações de Neven Subotic (€ 4,5 milhões), Mats Hummels (€ 4,2 milhões), Sven Bender (€ 1,5 milhão), Lukasz Piszczek (de graça) e Ilkay Gündogan (€ 5,5 milhões), peças importantes do bicampeonato alemão e do vice da Champions League que vieram de outros clubes alemães, custaram € 15,7 milhões. A exceção foi Marco Reus, comprado do Monchengladbach por € 17,1 milhões, valor mais alto, mas ainda menor do que dos três mais novos reforços dos aurinegros – todos na casa de € 25 milhões, o que também pode ser explicado pela inflação recente do mercado de transferências.

No entanto, além do preço, há uma clara diferença de experiência. Desses cinco jogadores, o que mais havia disputado partidas de Bundesliga era Piszczek, com 68 rodadas pelo Hertha Berlim. Em seguida, aparecia Gündogan, com 49 pelo Nuremberg. Bender, Hummels e Subotic tinham uma experiência conjunta de dois jogos de primeira divisão alemã. Subotic havia jogado 42 vezes na Ligue 1, e Bender tinha certa vivência na Segundona da Alemanha, enquanto Hummels saiu direto da base do Bayern de Munique.

O contraste é claro com os novos reforços. Schulz soma 122 partidas de Bundesliga por três clubes diferentes (Hertha Berlim, Gladbach e Hoffenheim). Brandt, embora mais jovem, com apenas 23 anos, já tem cinco temporadas como titular do Bayer Leverkusen, com um total de 156 rodadas da elite. Hazard, por sua vez, entrou em campo 147 vezes pelo Gladbach. E, além disso, são jogadores com experiência internacional por suas seleções.

O Borussia Dortmund tentou seguir mais ou menos no perfil anterior durante alguns mercados. Trouxe apostas a preços mais módicos, como Sokratis do Werder Bremen (€ 9,9 milhões), Adrián Ramos, do Hertha Berlim (€ 9,7 milhões), Matthias Ginter, do Freiburg (€ 10 milhões), Julian Weigl, do 1860 Munique (€ 2,5 milhões) e Roman Bürki, do Freiburg (€ 3,5 milhões), além de algumas exceções mais experientes, como Gonzalo Castro, do Leverkusen (€ 11 milhões) e André Schürrle, do Wolfsburg (€ 30 milhões). Mas poucos desses deram certo – Bürki é titular, Weigl ainda tem futuro, mas todos os outros já foram embora.

Nos dois mercados anteriores ao atual, o Dortmund seguiu fazendo suas apostas. Buscou Jeremy Toljan, do Hoffenheim, por € 7 milhões, lateral jovem com 56 partidas de Bundesliga; Mahmoud Dahoud, do Gladbach, cobiçado por outros clubes e com 61 rodadas no currículo, por € 12 milhões; e Marius Wolf, por € 5 milhões, com 31 partidas de primeira divisão pelo Eintracht Frankfurt e duas pelo Hannover. Especialmente, trouxe jovens jogadores garimpados em outras ligas, como Zagadou, da base do Paris Saint-Germain, Sancho, do Manchester City, Dembélé, do Rennes, e Alexander Isak, do sueco AIK. O Dortmund tem a fama de ser um bom lugar para jovens adolescentes se desenvolverem.

Mas jogadores do outro perfil, mais experientes ou mais conhecidos que exigiram valores altos, dominaram as novidades. Em 2017/18, o Borussia Dortmund contratou Ömer Toprak, zagueiro do Bayer Leverkusen, por um preço módico, € 12 milhões, mas ele já tinha 28 anos e 192 partidas de Bundesliga. Depois, pagou € 20 milhões por Maximilian Philipp, o que parece ser um meio termo, porque foi caro, mas jovem e com apenas 51 jogos de primeira divisão.

A mesma coisa no mercado seguinte com Abdou Diallo. Ele havia feito apenas uma temporada pelo Mainz, depois de sair do Monaco, mas custou € 28 milhões. Thomas Delaney, por outro lado, saiu do Werder Bremen por € 20 milhões, aos 27 anos, com 45 partidas da Bundesliga na carreira, mas 172 na primeira divisão dinamarquesa. Além de jogadores experientes de outros países, como Witsel, que veio da China, e Paco Alcácer, do Barcelona. Na atual janela, a evolução se acentuou, com as chegadas de Shulz, Hazard e Brandt, que são jovens, mas não exatamente apostas.

Antes de ser bicampeão alemão, o Borussia Dortmund, nas palavras do diretor esportivo Michael Zorc, “era visto como um clube de Champions League, e se sentia um clube de Champions League”, mas, em campo, não parecia mais um clube de Champions League. “Nós nos perguntamos: como podemos ser bem sucedidos sem recursos econômicos?”, relatou Zorc. A resposta foi garimpar jovens talentos para serem lapidados por um técnico especial, sob a liderança do chefe de recrutamento Sven Mislintat. Deu bastante certo.

No entanto, nos últimos anos, muita coisa mudou. Mislintat foi para o Arsenal, no qual passou alguns anos antes de voltar à Alemanha para trabalhar no Stuttgart. Klopp também saiu, e os seus sucessores, embora talentosos (alguns mais que outros), ainda não demonstraram a mesma capacidade de melhorar jogadores do atual treinador do Liverpool. E a situação financeira é outra. Anos de Champions League estruturam as contas do Dortmund. No relatório da Football Money League, o faturamento do clube em 2017/18 foi de € 317 milhões, o 12º da Europa.

Mas ainda com menos da metade do faturamento de Real Madrid (€ 750 milhões), Barcelona (€ 690 milhões), Manchester United (€ 660 milhões) e Bayern de Munique (€ 629 milhões) e bem longe de Manchester City (€ 568 milhões) e Paris Saint-Germain (€ 541 milhões). “Seria inocente pensar que as finanças não influenciam o que acontece em campo. É por isso que gostamos de trabalhar com jovens jogadores que estão em um patamar que podemos pagar e gerar dinheiro para, de alguma maneira, diminuir a distância”, afirmou Zorch, em reportagem da ESPN no último mês de janeiro.

Por um lado, as contratações mais caras desta janela são frutos dessa estratégia: depois de muito lucro vendendo atletas que garimpou e lapidou, o dinheiro está sendo reinvestido em jogadores mais estabelecidos, uma maneira de “diminuir a distância” entre os faturamentos. A venda de Pulisic para o Chelsea praticamente banca essas três contratações, e o Dortmund não parou de tentar garimpar jovens.

Por outro, as posições de um time de futebol ambicioso precisam ser preenchidas por bons jogadores, e como nem sempre é possível encontrar um Robert Lewandowski nos rincões da Polônia, ou formar um Mario Götze, o mercado é a solução.

E nada disso é uma crítica. Equipes de sucesso geralmente misturam jogadores experientes com jovens promessas, e o modelo de administração do Borussia Dortmund segue sendo um dos mais sustentáveis da Europa. Mas é curioso como o clube que sofreu tanto assistindo a estrelas como Lewandowski, Götze e Hummels indo embora para o seu maior rival agora faz o mesmo com outros adversários da Bundesliga.