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Erling Braut Haaland é um centroavante que não faz muita cerimônia para apresentar suas credenciais. Foi assim em diferentes momentos da carreira do prodígio, mesmo que esta trajetória possua pouquíssimos meses em alto nível. Anotou nove gols num mesmo jogo de Mundial Sub-20, registrou um hat-trick logo na estreia pela Champions, permaneceu insaciável nas cinco primeiras rodadas do torneio continental. E se existia alguém com dúvidas sobre o impacto inicial do adolescente no Borussia Dortmund, ele não precisou nem de uma partida completa para negar as desconfianças. Bastaram 23 minutos, entre o momento em que saiu do banco e a comemoração de seu terceiro tento, consolidando a incrível virada por 5 a 3 sobre o Augsburg na abertura do segundo turno da Bundesliga.

Aos 19 anos, Haaland oferece uma empolgação que raras vezes se viu nas últimas décadas ao redor de um centroavante em eclosão. A posição costuma exigir tempo até que seus principais peritos aprimorem as técnicas. O norueguês não: parece cada vez mais pronto aos desafios, carregando consigo um punhado de predicados que o tornam completo para o ofício. E a cada nova missão, ele comprova que tem qualidades para almejar mais.

O próprio hat-trick é uma prova das virtudes de Haaland. Num jogo em que seu time perdia por dois gols de diferença e no qual seria natural apostar nos chuveirinhos, o norueguês não precisou em nenhum momento se valer de seu 1,94 m de altura. O camisa 17 ruiu a defesa adversária na base da velocidade (anormal para alguém de seu porte físico) e da precisão. O seu segundo gol eu nem vou levar em conta, um presentaço de Thorgan Hazard para só cutucar às redes vazias. O primeiro e o terceiro, entretanto, combinaram vários detalhes: senso de posicionamento, arrancada para vencer os marcadores, frieza diante do goleiro, arremates bem colocados. A canhotinha estava afiada.

Destaque precoce no Molde, Haaland levou um tempo até ganhar sua primeira chance no Red Bull Salzburg. O centroavante foi contratado em janeiro de 2019 como uma grande aposta, por €8 milhões, mas (em teoria) fazia parte de um processo menos apressado de desenvolvimento na Áustria. Durante os seis primeiros meses, o técnico Marco Rose preferiu mantê-lo fora da azeitada equipe principal, na qual Munas Dabbur era o dono da linha de frente. A venda do israelense ao Sevilla abriu alas ao norueguês, aclamado pela enxurrada de gols no Mundial Sub-20. A partir de então, ele escancarou toda a sua pressa por fazer acontecer, com 28 tentos em 22 jogos nos Touros Vermelhos e o passe livre a qualquer gigante europeu que o desejasse. Segundo seus representantes, 12 times apresentaram propostas.

O Borussia Dortmund pode se dizer privilegiado em conseguir uma contratação tão concorrida e a um preço módico, considerando os €20 milhões pagos na transação. Apesar de sua idade, Haaland já se impõe como uma realidade e, a esta altura, se torna um acréscimo de respeito às pretensões dos aurinegros na Bundesliga. Todavia, a explosão do artilheiro no Signal Iduna Park será inversamente proporcional ao tempo total que a torcida poderá desfrutá-lo. Está claro que o BVB surgiu como uma mera base de lançamento ao foguete norueguês e que ele sairá a novos horizontes em breve, aproveitando o ambiente da Vestfália para se desenvolver. Existe mesmo uma urgência para que Lucien Favre aproveite sua nova estrela ao máximo.

Diferentemente do que aconteceu durante a saída de outros jogadores de peso nos últimos anos, quando o clube foi pego de surpresa e ficou de mãos atadas ante a vontade dos astros, desta vez o Borussia Dortmund sabe desde o princípio que o casamento com Haaland possui seus tratos por conveniência. Os aurinegros só venceram a corrida pelo fenômeno porque aceitaram as exigências de seu empresário – o infame Mino Raiola, campeão de polêmicas quanto aos seus pupilos. Não à toa, outras agremiações se recusaram a apertar as mãos do italiano.

O total da operação para trazer Haaland custará €100 milhões, incluindo também os salários futuros, as luvas ao jogador e as comissão dos representantes. Já o principal sinal da efemeridade na jornada está na imposição de uma multa rescisória, algo que o BVB não vinha fazendo em seus contratos, mas estava entre as demandas de Raiola. Haverá também uma participação na venda futura, já negociada com atleta e agente. Num esporte onde os lucros financeiros sobrepõem cada vez mais as paixões, os interesses ao redor do centroavante ficam bastante às claras.

É como se o Dortmund assinasse um trato com o demônio, ciente que os problemas podem existir no futuro, sobretudo se Raiola adotar o seu expediente tradicional para forçar saídas. Em contrapartida, dentro de campo, os aurinegros ganham o seu novo assassino com cara de bebê. O acerto tende a se bancar muito mais durante os jogos, com os ganhos esportivos, o que já começou a acontecer. Resta saber o que o BVB conseguirá alcançar, diante das limitações da equipe de Lucien Favre – e do próprio treinador.

O Dortmund não é um clube que romperá o seu planejamento e fará loucuras na janela de transferências. Contudo, precisa ter autocrítica para saber que a chegada de Haaland, por mais incrível que seja, não se faz suficiente. Os aurinegros permanecem com carências em uma equipe desequilibrada. O hat-trick do norueguês, afinal, nasceu a partir das necessidades de uma zaga vazada pelo Augsburg três vezes em míseros 55 minutos de bola rolando. Além do mais, as muitas chances não capitalizadas pelos companheiros aumentavam as súplicas ao estreante a partir de sua entrada.

Favre até apresentou sua inventividade neste retorno à Bundesliga, ao modificar alguns detalhes no 3-4-3 utilizado desde o final do primeiro turno. Não segurou os anfitriões e o time melhorou, a partir da entrada de Haaland, também readaptado ao 4-1-4-1. O sistema com três zagueiros, se oferece passe livre aos alas, com mais propensão a atacar, também os exime de um esforço maior na marcação e expõe a lenta linha defensiva. Por mais que as falhas de Roman Bürki costumem chamar mais atenção, não são poucas as vezes em que o goleiro precisa salvar a equipe em suas saídas do gol.

Não há muita margem de manobra ao Dortmund se o clube sonha mesmo em perseguir o RB Leipzig e recuperar a Salva de Prata nesta temporada. Reforços pontuais seriam bem-vindos à defesa, especialmente diante da falta de confiança apresentada por alguns jogadores que não engrenam e pela queda física de veteranos. De qualquer maneira, a maior bomba está nas mãos de Favre, que não consegue montar um sistema sólido o suficiente com o que tem à disposição e insiste num estilo de posse de bola, que mantém a retaguarda desguarnecida. Os espaços excessivos concedidos tantas vezes ficaram evidentes contra o Augsburg e se refletem nos números. O BVB é o segundo time mais vazado entre os que ocupam a metade de cima da tabela.

Numa equação que nem sempre é favorável, o ataque precisa demonstrar uma fome de gols superior à fragilidade da defesa. Neste ponto, ao menos, a adição de Haaland ajuda e até sobram opções a Favre. O treinador possui um leque muito grande com Marco Reus, Jadon Sancho, Thorgan Hazard, Julian Brandt, Mario Götze e o agora escanteado Paco Alcácer – que, além dos problemas físicos e da queda de rendimento, entrou em rota de colisão com seus superiores. Ao mesmo tempo, surge também Giovanny Reina, que carrega muitas expectativas desde a base. Filho de ex-jogador, assim como Haaland, o meia americano de 17 anos fez sua estreia contra o Augsburg e, elogiado internamente, tende a receber mais minutos durante o semestre.

A base do ataque tende a mudar com a participação de Haaland. Reus, o preferido como homem de referência desde a temporada passada, já não atravessa um momento tão produtivo e pode recuar para a entrada do novo centroavante. Até indicou sua preferência quanto a isso, ao declarar sua admiração com o novato antes mesmo da estreia bombástica. Isso significa, muito provavelmente, realinhar a formação e adotar um novo esquema tático para comportar melhor os valores ofensivos.

Quem sabe, a readaptação permita ao Dortmund aproveitar mais a verticalidade de suas peças, o que nem sempre é a preferência de Favre. A teoria de manter a posse, adotada pelo treinador, não explora da melhor forma as características de alguns de seus melhores atletas. Este será o principal desafio do Dortmund nas próximas semanas, sem muito tempo para testes. A distância em relação ao Leipzig continua de sete pontos, com Bayern de Munique e Borussia Mönchengladbach no meio desse caminho.

A ansiedade, agora, é por ver como Haaland segue produzindo depois desse cartão de visitas espetacular. Quando o contratou, o Dortmund trazia um homem para matar partidas, o que tantas vezes faltou ao clube desde a chegada de Lucien Favre. O camisa 17 conseguiu superar as esperanças já altas, criando praticamente do zero uma vitória difícil e potencializando o serviço do trio de meias. Se vai manter uma média tão alta quanto a vista na Áustria é uma questão. Mas, depois do que aconteceu em Augsburg, dificilmente sobraram céticos para apostar contra a empreitada do novato no Signal Iduna Park. E, por isso mesmo, a consciência de que tende a ser breve precisa existir desde já. É melhor aproveitar.