“Estamos na Libertadores, porra!”. A frase de euforia saiu da boca de Castor de Andrade, cuja voz mansa não costumava apelar ao baixo calão no vestiário do Bangu. Muito pelo contrário, o patrono dos alvirrubros era conhecido por ser afável com seus comandados e incentivar a fé entre eles. Logo após o palavrão, tratou de puxar a oração para agradecer o resultado obtido em frente a uma imagem de Nossa Senhora Aparecida – doada por seu próprio pai, um amuleto em Moça Bonita desde o título carioca de 1966. A corrente acontecia dentro do Estádio Olímpico, onde o Bangu acabara de vencer o Brasil de Pelotas por 1 a 0, no primeiro jogo da semifinal do Campeonato Brasileiro de 1985. Na volta, dentro do Maracanã, o clube ratificaria a classificação à decisão com o triunfo por 3 a 1.

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Castor de Andrade é o personagem central para se entender o sucesso do Bangu naqueles anos. O magnata cresceu no subúrbio do Rio de Janeiro, mas já em berço de ouro. Seu pai criava gado em grandes latifúndios, além de ser dono de uma transportadora. Já a família de sua mãe estava envolvida com o jogo do bicho havia muito mais tempo. Educado nos melhores colégios cariocas, Castor herdou os negócios dos dois lados. Tinha as suas empresas, incluindo uma metalúrgica, e andava nas altas rodas da sociedade. Mas prosperou mesmo como bicheiro, nas rodas de samba. O contraventor também era acusado de subornar autoridades e outros tantos crimes. Não à toa, gozava de ampla influência e poder impunemente.

A forte ligação com o Bangu, aliás, também teve incentivo do pai. Seu Zizinho era apaixonado pelos alvirrubros e presidiu o clube durante a década de 1960. Sob suas ordens, o time viveu um de seus maiores momentos, recuperando o prestígio perdido no início dos anos 1950 e conquistando o Campeonato Carioca de 1966, o segundo de sua história. E, nesta época, Castor de Andrade também desempenhava um importante papel, como vice-presidente – e mais do que isso, a ponto de invadir o campo com um revólver para contestar a decisão de um árbitro. A família passou a gastar alto para contratar jogadores de renome, apostando em um futebol bonito e no pagamento de gordos bichos para incentivar o time. No final da década, pai e filho deixaram o Bangu justamente por conta de problemas judiciais em relação ao jogo do bicho. No entanto, Castor voltou às sombras do poder em 1980, atuando sem cargo formal, mas com ampla voz de comando.

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Apesar do dinheiro que voltava a jorrar, o Bangu não conseguiu reconquistar o Carioca. Naqueles primeiros anos, a melhor campanha foi em 1983, caindo no triangular final. Já no Brasileiro, o time chegou até as quartas de final em 1982, perdendo para o Corinthians. Isso até o ano histórico vivido em 1985. Castor de Andrade mantinha o seu estilo peculiar de ditar as regras em Moça Bonita. Costumava assistir aos treinos e premiar as jogadas bonitas com uma graninha a mais. Era visto como um padrinho por boa parte de seus comandados, pagando em dia e dando prêmios generosos. Além disso, prezava pelo jogo ofensivo e chegava mesmo a orientar o que a equipe deveria fazer em campo, algo consentido pelos técnicos. Bon vivant, via aos jogos dando goles em seu uísque nos camarotes. Isso quando não saía distribuindo autógrafos aos torcedores. Embora o contraventor tivesse vários processos nas costas, também tinha aura de celebridade. O carisma de um Don Corleone da Guanabara, com poder acima do bem e do mal – como bem definia o artigo de Tim Lopes na Placar de julho de 1985.

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Em 1985, o Bangu começou o ano com uma equipe de alguns nomes conhecidos e outras boas apostas. O destaque era o ponta Marinho, trazido dois anos antes do América de São José do Rio Preto – em negociação que Castor de Andrade chegou a colocar o revolver na mesa do presidente do clube paulista. Com o talento despontando, os alvirrubros fizeram a melhor campanha nos dois turnos da primeira fase, em que estavam em uma chave de “clubes menores”. O cruzamento com os grandes só aconteceu na segunda etapa do torneio. E os suburbanos sustentaram a fama ao eliminarem Inter e Vasco, invictos no quadrangular. Antes de baterem outra surpresa, o Brasil de Pelotas, nas semifinais.

O futebol de Marinho era tão espetacular que Castor de Andrade lhe deu casa e carros de presente, como bonificação. Comparado com Garrincha pela habilidade que exibia na ponta direita. “Agora quero ver quem esconde Marinho da seleção brasileira”, avaliou ninguém menos do que Zizinho, eterno craque da Copa de 1950 e ídolo do Bangu, logo após a atuação magistral contra o Brasil no Maracanã. Além dele, o goleiro Gilmar, o lateral Baby, o volante Israel, o meia Lulinha e o ponta Ado também apareciam entre os melhores do campeonato. A ótima estrutura na Toca do Castor, o CT do clube, também era outro benefício e tanto.

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Por mais que Castor de Andrade não fosse unanimidade, o Bangu tornou-se o segundo time dos cariocas. “É um clube proletário, dos operários. É um time do povo, no sentido de povo trabalhador”, dizia Jorge Amado, que engrossava o coro como admirador alvirrubro desde os tempos de Domingos da Guia. A massa dos quatro grandes abraçou os banguenses e 90 mil assistiram à decisão contra o Coritiba. O alvirrubro estava presente em todos os cantos, com as bandeiras e faixas doadas pela fábrica de tecidos que originou o clube. Já a animação vinha no ritmo da bateria da Mocidade Independente de Padre Miguel, a outra paixão do bicheiro. O samba Ziriguidum 2001, campeão do carnaval, tornou-se símbolo da campanha. Só que o Bangu parou no Coxa. Mesmo criando mais chances, não escapou do empate por 1 a 1, com um gol de Marinho anulado pelo árbitro e muito reclamado pelos suburbanos. O título acabou perdido nos pênaltis, na cobrança para fora de Ado – o paraibano que chegou ao Rio no pau-de-arara com dez irmãos e pensou em abandonar o futebol depois do erro. Após o jogo, surgiu até mesmo um boato de que o árbitro Romualdo Arppi Filho pediu um apartamento a Castor de Andrade e, diante da recusa do magnata, resolveu prejudicar os cariocas.

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Ao menos o vice-campeonato não enfureceu Castor de Andrade. Pelo contrário, o bicheiro passou a colocar ainda mais a mão nos bolsos, e buscou de volta os veteranos Cláudio Adão e Arturzinho para a disputa do Carioca no segundo semestre. Só que a fama de jogo ofensivo acabou substituída pela violência, com muitas críticas ao técnico Moisés. Durante aquele estadual é que aconteceu o carrinho de Márcio Nunes em Zico, que mudou a carreira do camisa 10. Já Assis também se machucou seriamente após dividida com Jair. Sem a mesma simpatia, o clube fez a melhor campanha entre a Taça Guanabara e a Taça Rio, disputando o triangular decisivo. Acabou vice-campeão carioca, perdendo o troféu para o Fluminense, em virada até hoje contestada por causa da arbitragem de José Roberto Wright.

Para a Libertadores de 1986, Castor de Andrade reforçou a base finalista da Taça de Ouro. Entre os novatos, trouxe o zagueiro Márcio Rossini, com passagem pela Seleção, e o meia Toby, um dos destaques do Coritiba campeão. Entretanto, o time do técnico Moisés degringolou. Sem Marinho, servindo a Seleção por um bom tempo, começou muito mal no Carioca. E sequer venceu na fase de grupos do torneio continental. Foram quatro derrotas e dois empates, em uma chave que também tinha Coritiba, Deportivo Quito e Barcelona. Sem a mobilização de meses antes, apenas 148 pessoas viram o empate contra o clube da capital equatoriana, no recorde negativo do Maracanã. Já em Moça Bonita, a realidade também não era tão animadora, com os públicos quase sempre na casa dos 5 mil pagantes.

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A tentativa de se reerguer veio no Brasileiro de 1986, a partir do segundo semestre. Castor de Andrade contratou o técnico Paulo César Carpegiani, campeão da Libertadores e do Mundial com o Flamengo. Também buscou Mauro Galvão, ídolo do Internacional e um dos melhores zagueiros do país naquele momento, além do jovem meia Neto, então revelação do Guarani. Só que, apesar de um bom início de trabalho, o novo time não deu liga. Mesmo Marinho, deixado de fora da Copa de 1986, caiu de rendimento. Os alvirrubros acabaram eliminados na segunda fase da Taça de Ouro.

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Já o último ano de grandes sucessos do Bangu veio em 1987. Trazendo Paulinho Criciúma para o ataque, e com outros destaques como Mauro Galvão, Toby, Márcio Rossini e Ado, a equipe do técnico Pinheiro conquistou a Taça Rio. Bateu na decisão o Botafogo, com grandes atuações de Marinho e Arturzinho na vitória por 3 a 0 – e taça entregue por Mauro Galvão a Castor de Andrade, que invadira o campo com a faixa de campeão logo após o apito final. Contudo, a pausa para a Copa América tirou o embalo dos banguenses, que perderam o título mais uma vez no triangular final, agora para o Vasco de Roberto Dinamite, Geovani e Romário. Para fechar o ano, o Bangu ainda chegou até as semifinais do módulo amarelo da Copa União, perdendo ao Sport – pouco tempo depois, proclamado campeão pela CBF.

Por fim, o ostracismo do Bangu ganhou força a partir de 1988. O cerco a Castor de Andrade se apertava e o bicheiro, de uma só vez, vendeu Marinho, Mauro Galvão e Paulinho Criciúma ao Botafogo. Zagallo era o contratado para comandar o clube na sequência, mas o time fez uma campanha mediana no Carioca e terminou rebaixado no Brasileiro. Para nunca mais voltar. Sem dar a mesma atenção ao clube, Castor voltou os seus esforços à Mocidade Independente. E, preso em 1993, o criminoso foi obrigado a abandonar a sua influência de vez em Moça Bonita. O Bangu também acabou condenado. Cada vez mais distante da elite do futebol brasileiro e mero coadjuvante no Rio, viu-se obrigado a apenas relembrar sua grandiosidade. Dos tempos em que ajudou a trazer o futebol ao Brasil, em que abriu suas portas aos negros e triunfou, em que teve o craque da Seleção na Copa de 1950. Especialmente, dos tempos em que disputou a final do Brasileiro e representou o país na Libertadores.