Rodrigo Santana permaneceu à frente do Atlético Mineiro por seis meses. De início, o interino cumpriu sua missão. Não evitou as frustrações encaminhadas por Levir Culpi, mas estancou a sangria e trouxe novas perspectivas ao Galo. Porém, a continuidade do treinador no cargo teve outros amargores recentes aos atleticanos. E, em meio a semanas claudicantes no clube, a mudança no comando parecia apenas uma questão de tempo. A derrota acachapante diante do Grêmio neste domingo, dentro do Estádio Independência, culminou em sua demissão.

Após as boas expectativas iniciais, Rodrigo Santana deixa um trabalho insustentável. O treinador não conseguiu reverter a péssima situação na fase de grupos da Libertadores ou a situação na decisão do Campeonato Mineiro. Ainda assim, melhorou a equipe em relação aos problemas visíveis que se notavam com Levir Culpi e manteve o clube com chances em outras frentes. Durante o início do Brasileirão, o Galo parecia time para brigar por vaga na Libertadores. Também caminhava firme na Copa Sul-Americana e eliminou o Santos nas oitavas de final da Copa do Brasil. Apesar das limitações, existia competitividade.

O primeiro golpe veio com a eliminação para o Cruzeiro na Copa do Brasil, graças a um jogo em que tudo pareceu dar certo aos rivais em crise. Depois, os resultados no Brasileirão degringolaram e o time começou a despencar na tabela. Por fim, veio a queda nos pênaltis contra o Colón nas semifinais da Sul-Americana. O Atlético contava com qualidade individual e certa aptidão aos contragolpes, mas a sequência era péssima e a defesa sofria demais. No fim, uma série de atuações ruins na Série A, em que o Galo permaneceu acuado, gerou a demissão.

“Tentamos, realmente, fazer algo diferente do que acontece no futebol brasileiro. Entendíamos que o Rodrigo merecia, até pela forma como ele assumiu o grupo e como desenvolveu seu trabalho, um tempo para recuperar aquilo que já tinha demonstrado. Mas esse tempo não é mais suficiente, porque aí começa a acontecer questões que extravasam a relação profissional. Você começa a afetar a pessoa física, o indivíduo e o grupo também. Agradeço o trabalho dele e a forma como ele sempre se comportou. Por mais profissional que eu seja, esse é um momento muito difícil na função que exercemos”, declarou o diretor Rui Costa.

Rodrigo Santana ganhou uma oportunidade de se afirmar neste início de carreira. Teve dificuldades para reinventar a equipe nos últimos meses, mas não deve ser o único responsabilizado pela derrocada. O Galo possui um elenco envelhecido e que ainda trouxe outros medalhões questionáveis nos últimos meses. Alguns atletas sustentam seu espaço mais por fama do que por serviços prestados nos últimos tempos, com algumas crises de ego para gerir. Além do mais, o planejamento realizado pela diretoria atleticana também deixa muito a desejar. Prova disso vem com o próximo treinador do Galo.

Vagner Mancini foi o escolhido pelo Atlético Mineiro para dirigir a equipe até o final do ano, com contrato de três meses. O substituto possui em seu currículo alguns trabalhos bons, o mais recente destes à frente do Athletico Paranaense em 2013. Além disso, em sua passagem anterior por Belo Horizonte, conseguiu salvar o Cruzeiro do descenso com a histórica goleada por 6 a 1 sobre o Galo. No entanto, parece distante desse “fazer diferente” citado por Rui Costa. É mais do mesmo, em opção que não agradou boa parte da torcida alvinegra.

O histórico recente de Mancini não depõe a seu favor. O treinador participou (ao menos parcialmente) de cinco campanhas rebaixadas no Brasileirão desde 2010. Também saiu chamuscado por problemas de relacionamento em alguns trabalhos recentes, incluindo no São Paulo – apesar da decisão igualmente questionável da diretoria. Num momento em que mais parecia pronto a assumir posições diretivas, Mancini agora vira bombeiro do Galo. Chega por seu renome, no que soa como uma mera aposta no “fato novo” para empurrar o elenco e evitar um saldo ainda pior ao final do Brasileirão.

Com apenas uma vitória nas últimas 11 rodadas, o Atlético Mineiro soma 31 pontos. Vê a distância em relação ao G-6 aumentar para dez pontos, enquanto o Z-4 está a apenas seis. O objetivo será mesmo evitar o rebaixamento e ao menos descolar uma vaga na Copa Sul-Americana. A não ser que Mancini transforme o ambiente no Galo durante os próximos três meses, o que é muito difícil, deve servir como um mero tampão. No máximo, se conseguir iniciar a temporada em 2020, será um treinador que sofrerá pressão ao mínimo deslize.

O entrave do Atlético é parecido com o de diferentes clubes nesta Série A, que vivem sequências ruins e pensam em mudar de técnico: eles precisam realizar um planejamento amplo, que contemple também mudanças no elenco e a contratação de um treinador que traga consigo novas perspectivas a médio prazo. Contudo, as urgências do momento e a falta de opções no mercado mantêm a situação nebulosa. O nome ideal ao Galo não parece estar à disposição no Brasil e a diretoria atleticana nem dá muitas pistas de encontrá-lo, após tantas escolhas criticadas. Obviamente, a parcela de culpa da direção é indiscutível. Os atleticanos deixaram de contar com a equipe forte de alguns anos atrás, muito por causa de insistências e opções ruins. Mas a situação ao redor não favorece.

Com a péssima sequência recente, o marasmo no meio da tabela, se vier, será até um prêmio ao Atlético Mineiro. O atual elenco possui bons nomes (como Jair ou Nathan), mas uma limpa se faz necessária. E o ânimo só deve voltar ao Galo quando a mudança de atitude for além das quatro linhas, também na tomada de decisões. Vágner Mancini não se sugere o melhor passo nesta nova direção, mas é nele que os atleticanos precisarão acreditar para evitar o pior.