Por Alexandre Giesbrecht*

Valdir Joaquim de Moraes tem sua história ligada principalmente ao Palmeiras, mas também fez parte de um time do São Paulo que ganhou muito, embora tendo um papel bem diferente (e, a bem da verdade, também fez parte de um time lendário do Corinthians, nesse mesmo papel). Pedro Rocha tem sua história no Brasil ligada principalmente ao São Paulo, mas também chegou a vestir a camisa do Palmeiras, sem grande destaque. Valdir aposentou-se como goleiro em 1969; Pedro Rocha chegou ao futebol brasileiro em 1970. Assim, nunca se enfrentaram defendendo as camisas dos dois rivais. Tiveram, porém, um confronto memorável em outros tempos, e é esta história que vou contar aqui.

Não era nenhum torneio muito importante: o Troféu Quarto Centenário da Cidade do Rio de Janeiro foi criado, como parece óbvio, para comemorar os quatrocentos anos do Rio de Janeiro, comemorados em 1965. Ele tivera uma primeira edição em janeiro, com Atlético de Madri, Flamengo, Vasco e a seleção da Alemanha Oriental; e a segunda edição foi promovida em junho, desta vez com Fluminense, Palmeiras, Peñarol e a seleção do Paraguai.

Os dois quadrangulares amistosos foram disputados no Maracanã e tiveram uma fórmula simples, com semifinal e final. No primeiro, o Vasco eliminou os alemães orientais e depois goleou o Flamengo na final, ficando com a taça. No segundo o Peñarol eliminou o Fluminense com uma vitória por 3 a 1 e o Palmeiras eliminou o paraguaios com uma goleada por 5 a 2.

O Peñarol chegava àquela final ainda invicto naquele ano, enquanto o Palmeiras vinha credenciado pelo título do Rio–São Paulo, conquistado em maio, e também defendendo uma invencibilidade no então maior estádio do mundo naquela temporada. Depois de cerca de vinte minutos em que os dois times se estudaram , o Palmeiras tentou se impor, pressionando bastante, ainda que num ritmo cadenciado que era sua marca registrada.

Só que os uruguaios estavam confortáveis em sua postura defensiva, e o domínio palmeirense era infrutífero, exceto em um lance no último minuto, que começou com o goleiro Ladislao Mazurkiewicz saindo da pequena área para tirar a bola de Tupãzinho. Ela sobrou para Rinaldo, que, de fora da área , driblou seu marcador e chutou forte no travessão. Servílio ainda tentou pegar o rebote de cabeça, mas Mazurkiewicz agarrou a bola e aproveitou para ficar com ela alguns segundos, valorizando sua defesa.

Do outro lado, o Peñarol teve duas chances, que Valdir não teve muita dificuldade para impedir , e pediu pênalti numa bola que Alberto Spencer chutou no braço de Geraldo Scotto — em lance de bola na mão havia muito menos interpretação na época, e o Jornal dos Sports cravou que não foi nada.

Sem a opção de penetrar na área adversária com facilidade, o Alviverde passou a tentar os chutes de fora da área no segundo tempo, mas com pouca pontaria. Quando a bola ia no gol, contudo, Mazurkiewicz (então com apenas vinte anos) demonstrava suas qualidades. A entrada de Julinho Botelho no lugar de Gildo melhorou um pouco o poder ofensivo palmeirense, com seus dribles, mas o máximo que conseguiu foram duas ou três faltas próximas da área.

A barreira uruguaia seguia intransponível, mesmo quando o Palmeiras partiu para o “desespero”, a fim de tentar evitar a primeira decisão por pênaltis de sua história. Tupãzinho perdeu aquela que talvez tenha sido a melhor chance alviverde dentro da pequena área, ao não conseguir driblar Pablo Forlán. Os uruguaios tiveram sua melhor chance com um forte chute rasteiro de Spencer, que Valdir só conseguiu defender com a ponta dos dedos.

“Não houve nada que não tentássemos para vencer o ferrolho do Peñarol”, garantiu o técnico palmeirense, Filpo Núñez. “[Nada] adiantou, pois a retranca do Peñarol anulou tudo, enquanto o público vaiava esse tipo de futebol empregado pelos uruguaios.”

O empate sem gols pareceu ser um resultado justo, como se vê na análise do Jornal dos Sports: “O Peñarol jogou tranquilo e cuidando de surpreender o Palmeiras, a espera de que ele se lançasse todo à frente. O Palmeiras, tranquilo também, tentou tudo para fazer um gol, menos correr o risco de sofrer um […]. [Foi um] jogo entre duas equipes de grande categoria, formadas por jogadores sem nervos e com bastante experiência para saberem que é melhor malhar em ferro frio do que correr o risco de se queimar tentando malhar ferro quente.”

Luiz Bayer, colunista do mesmo jornal, tinha uma opinião diferente: “Não tivesse o Peñarol adotado a retranca para defender-se do seu adversário, e talvez tivesse experimentado um revés com números semelhantes ao que o [Palmeiras] impôs à seleção do Paraguai. A sua superioridade foi indiscutível, mas, infelizmente, perdurou desta vez o mesmo defeito das equipes brasileiras que se perturbam e não sabem como fugir do antipático ferrolho.”

Embora o regulamento do torneio previsse apenas a disputa por pênaltis em caso de empate, o capitão do Peñarol, Julio Abbadie, sugeriu ao árbitro Armando Marques que o título fosse decidido em uma prorrogação de trinta minutos ou mesmo no cara ou coroa. Marques, contudo, não quis nem saber e ordenou que o regulamento fosse seguido à risca. Os uruguaios protestaram, e o árbitro brasileiro correu até o túnel de acesso aos vestiários, em busca de uma cópia do regulamento , para lê-lo aos carboneros.

Decisões por pênaltis ainda eram uma relativa novidade nos anos 1960. Fórmulas diferentes eram usadas, e a maneira escolhida pelos organizadores do Troféu Quarto Centenário soa bem estranha aos olhos de hoje: três cobranças para cada lado, feitas pelo mesmo jogador e sem alternância.

Foi assim que, após sorteio, o Peñarol ficou encarregado de cobrar as três primeiras penalidades, e o escolhido para executá-las foi… bem, inicialmente foi Spencer, depois a escolha mudou para Abbadie e, finalmente, para o jovem Pedro Rocha , do alto de seus 22 anos de idade. O meia tinha sido discreto em campo, apesar de boa parte das jogadas do Peñarol terem passado por seus pés. No segundo tempo, ele tinha dado um chute rasteiro, de fora área, que Valdir teve trabalho para defender e em seguida impedir que Spencer marcasse no rebote.

Novamente cara a cara com o goleiro palmeirense, Rocha chutou forte no canto direito, mas Valdir conseguiu defender a cobrança. Para a segunda cobrança, Rocha deu um chute quase idêntico, e o resultado foi o mesmo: Valdir voando no canto direito para defender. Os jogadores palmeirenses, que estavam na lateral da área, pularam de alegria. O meia alterou o canto para sua terceira cobrança, mas o chute saiu muito para o lado, passando rente à trave esquerda. O time todo foi abraçar Valdir. “Apenas infelicidade”, classificou o técnico Roque Máspoli.

Charge do Jornal dos Sports

Já o goleiro, bastante procurado pela imprensa após o jogo, agradeceu a sorte: “Escolhi um canto e fiquei esperando que a bola fosse para onde eu fui. Deu certo. Peguei duas, e a outra, quando Rocha quis mudar de direção, saiu por fora.” Para ele, todos os atacantes tinham um canto preferido para chutar, exceto Pelé: “A gente não sabe onde ele vai chutar. Ele chuta depois que o goleiro pula para defender. É o fenômeno.”

Rinaldo precisaria apenas acertar uma de suas três cobranças para dar o título ao Palmeiras, e ele não precisou ir além da primeira: chutou rasteiro e forte no canto direito. Mazurkiewicz não teve chance alguma, porque escolheu o lado errado. “Tive muita sorte em ter feito o gol”, comemorou Rinaldo. “Posso garantir que fui certo de dar o título ao Palmeiras, mesmo porque o outro jogador havia perdido suas chances. Assim, ficou mais fácil para acertar logo. Era preciso somente ter muito cuidado e chutar com precisão.”

A taça, oferecida pelo Governo do Estado da Guanabara — após a mudança da capital do País para Brasília, em 1960, a cidade do Rio de Janeiro, originalmente o Distrito Federal, passou a ser também o Estado da Guanabara, até este ser fundido com o Estado do Rio de Janeiro, em 1975 —, valeu a cada jogador um bicho de quinhentos mil cruzeiros, valor que, corrigido pelo IPC-SP, corresponderia a cerca de 2,8 mil reais hoje. Era um bom valor para a época. Ele já foi pago pela diretoria ainda naquela noite, durante um banquete oferecido pelo Fluminense em sua sede.

No dia seguinte, o presidente do Palmeiras, Ferruccio Sandoli, ainda chamou um convidado ao hotel onde a delegação estava hospedada no Rio de Janeiro. Era ninguém menos que Nílton Santos. Aposentado desde o ano anterior e com quarenta anos recém-completos em maio, ele recebeu uma oferta para jogar no Parque Antarctica, que foi acompanhada por argumentos de Valdir, Rinaldo e Djalma Santos.

“Eu estou por aí enganando”, brincou Djalma. “Você pode enganar também. Você ainda é um homem de boa condição física, com alguns treinos vai readquirir seu melhor estado e não terá muito com que se aborrecer ali na defesa do Palmeiras. O timezinho é seguro e bem armado. De quarto-zagueiro, você ainda enganaria ali no meio direitinho.” Nílton Santos, entretanto, não aceitou o convite, especialmente por se orgulhar de ter defendido apenas um clube ao longo de sua carreira.

Mas e Valdir e Rocha? Seus caminhos voltariam a se cruzar nas semifinais da Libertadores de 1968, e novamente o goleiro levou a melhor: o Palmeiras venceu as duas partidas e ficou com a vaga nas finais, mas perderia o título para o Estudiantes, da Argentina. A derrota por 2 a 0 no jogo-desempate seria o último dos 482 jogos de Valdir com a camisa palmeirense. Ele ganharia passe livre, encerrando a carreira no ano seguinte, pelo Cruzeiro de Porto Alegre.

Rocha, pretendido pelo São Paulo no mínimo desde 1968, só seria contratado em setembro de 1970 e construiria no Morumbi uma trajetória vencedora ao longo daquela década. Essa trajetória, entretanto, não impediu que o técnico Rubens Minelli o deixasse fora da campanha do título brasileiro de 1977 (ele não foi nem sequer relacionado para nenhum dos jogos), tornando-o dispensável. Depois de uma passagem rápida pelo Coritiba, em 1979 Rocha chegaria ao Parque Antarctica. Mas essa já é outra história.

*Alexandre Griesbrecht é autor dos livros “São Paulo Campeão Brasileiro 1977“, “São Paulo campeão da Libertadores 1992”, “São Paulo Campeão da Sul-Americana 2012” e “1968: o Campeonato Paulista que não acabou”. Também escreve no site Jogos do São Paulo.

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