Estádio Olímpico de Atenas, Grécia, 18 de maio de 1994. Naquele dia, duas potências do futebol europeu se encontravam. O Milan, de Fabio Capello, tentava restabelecer o domínio na Europa depois do bicampeonato europeu sob o comando de Arrigo Sachi. Em 1993, já com Fabio Capello, perdeu do Olympique de Marseille na final. Em 1994, o adversário era pesadíssimo: o Barcelona, campeão em 1991/92 com Johan Cruyff no banco de reservas e um craque absurdo no ataque: Romário. Há 25 anos, completados no dia 18, na final da Champions League, o Milan passou como um trator sobre os rivais naquele dia, venceu por 4 a 0 e conquistou a sua quinta taça da Europa.

Dias antes, o Barcelona de Romário e Cruyff tinha conquistado o tetracampeonato nacional depois de um final emocionante. Era um período glorioso da história do clube e uma temporada que vinha sendo mágica de Romário pelos blaugranas. Na noite anterior à final, dia 17 de maio, o técnico do Barcelona, o lendário Johan Cruyff, disse que era impossível que eles perdessem. Era a noite que aquele time, apelidado de Dream Team, o Time dos Sonhos, se consagraria, definitivamente.

Vale lembrar que o Barcelona vivia um momento de glória, mas ainda dava pequenos passos dentro da sua história europeia. Quando olhamos hoje para a galeria de troféus cheia de taças da Champions League, por vezes esquecemos que a primeira só veio em 1992 e a segunda só 14 anos depois, em 2006, quando o rival, Real Madrid, já tinha nove. É nesse contexto que o Barcelona de Cruyff parece ver uma oportunidade de criar uma história de uma certa hegemonia conquistando o segundo troféu europeu em três anos, além de dominar o campeonato local de forma categórica.

Havia motivos para o entusiasmo. Cruyff era um revolucionário e o seu modo de jogo mexia demais no futebol do clube, de várias formas interessantes. O time era repleto de bons jogadores, tinha talento, tinha estratégia. “O Barcelona é o favorito”, afirmou Cruyff. “Nös somos mais competitivos e experientes do que éramos em Wembley [na final de 1992]. O Milan não é nada fora desse mundo. Eles têm o seu jogo baseado na defesa e o nosso é baseado no ataque”.

Cruyff, com o seu jeito confiante e com aquela dose de arrogância que o caracterizava, trouxe um dado que ele acreditava comprovar o que dizia. Ele citou que o Barcelona contratou Romário, autor de 30 gols em 33 jogos, enquanto o Milan tinha gasto algo similar com Marcel Desailly, um jogador de defesa. “Isso já diz muito”, afirmou o técnico holandês. Palavras que reverberaram forte do outro lado daquela final.

“As palavras de Cruyff foram inapropriadas e realmente impressionaram o time”, afirmou Alessandro Costacurta, um dos membros daquele time do Milan. “Se não tivessem sido, as coisas poderiam ter sido diferentes”, admitiu o zagueiro. E não era só Cruyff que tinha palavras, digamos, pouco elogiosas ao Milan.

O jornal Mundo Deportivo amanheceu no dia da final com uma avaliação que ratificava como aquela não era uma impressão apenas de Cruyff. Dizia que o Barcelona vivia seu melhor momento e jogaria contra o “pior Milan da era Berlusconi”. Ia além: “Cruyff é um vencedor. [Fabio] Capello, ao contrário, não esteve à altura da tarefa internacional”. Uma lembrança que o Milan tinha perdido a final anterior para o Olympique de Marseille. O Milan não tinha mais o seu trio de holandeses, Ruud Gullit, Marco van Basten e Ffrank Rijkaard. Costacurta e Franco Baresi não poderiam estar em campo. “Não éramos favoritos”, admitiu Paolo Maldini.

Charly Rexach, assistente técnico do Barcelona na época, traz um pouco do panorama de como o clube se sentia naquele momento. “Nós não nos preparamos, faltou concentração. Atenas foi o começo do fim”, admitiu. Um membro daquela comissão técnica afirmou, em anonimato, ao jornal Guardian que a confiança era enorme. “Fomos a Atenas buscar o troféu, não competir por ele”, disse. Um diretor do Barcelona ainda foi além, explicando com uma comparação. “Como técnico, Pep Guardiola tem os princípios de Cruyff, mas com um rigor, seriedade e nível de estudo que Cruyff simplesmente nunca teve”.

Curiosamente, Guardiola estava em campo naquele jogo. Vestindo a camisa 3, Guardiola estava no centro do campo, o ponto baixo do triângulo no meio-campo ao lado de José Maria Bakero, o capitão, e Guillermo Amor. Cruyff tinha se gabado da contratação de Romário, contrapondo com Desailly. O francês foi dominante no meio-campo do Milan. Jogando ao lado de Demetrio Albertini, foi a força defensiva que permitiu ao companheiro criar jogadas.

O badalado ataque do Barcelona, com Txiki Begiristain, Hristo Stoichkov e Romário sequer viu a cor da bola. O meio-campo do Barcelona foi atropelado e o ataque blaugrana não recebia bola alguma. “Não foi que nós jogamos mal”, afirmou Cruyff depois do jogo. “Nós sequer jogamos”. Um dos erros de Cruyff naquele dia, na visão de Capello, foi na escolha de estrangeiros. Em todos os jogos, o técnico tinha que deixar um dos seus quatro estrangeiros fora do time, porque só três eram permitidos. Ele tinha Romário, Ronaldo Koeman, Stoichkov e Michael Laudrup. Decidiu deixar o último fora. “Quando eu vi que Laudrup não jogaria, eu relaxei. Ele era o que me preocupava”, afirmou Capello.

Daniele Massaro marcou dois gols no primeiro tempo, aos 22 minutos e outro aos 47 minutos, pouco antes do intervalo. Um gol que certamente tornou a montanha ainda mais íngreme para um excelente time do Barcelona. Por ser excelente, ainda era possível. Só que o início do segundo tempo veio de forma cruel e implacável. Logo a dois minutos, uma saída de bola errada resultou na bola cair nos pés de Dejan Savicevic, que tocou por cobertura, um golaço. O quarto gol veio com Desailly, aos 13 minutos, fechando a conta de uma vitória histórica.

“Quando aconteceu o terceiro gol, nós sabíamos que tinha acabado”, afirmou Andoni Zubizarreta, goleiro do Barcelona e histórico jogador da seleção da Espanha. “Aquela foi a pior noite da minha carreira”, afirmou ainda o goleiro. E olha que ele viveria um dia terrível na Copa do Mundo de 1998, falhando diante da Nigéria naquela que era a sua última competição pela Roja. A Espanha caiu na primeira fase daquele mundial. Massaro, um dos destaques do Milan, recebeu a medalha de campeão com a camisa do Barcelona. E de Stoichkov, com quem tinha trocado e de quem era declaradamente um fã. O Milan levantava a quinta taça europeia da sua história.

Jogadores do Milan comemoram o título da Champions League de 1994, sobre o Barcelona (Foto: Getty Images)

O que era para ser uma noite de sonhos se tornou um pesadelo, que deixou marcas que não seria facilmente superadas pelo Barcelona. Os problemas no vestiário ficaram maiores. Laudrup, insatisfeito, decidiu deixar o clube. O dinamarquês considera que a Copa do Mundo também foi um fator daquela derrota. Para ele, muitos jogadores estavam com a cabeça em suas seleções. Talvez ele tivesse razão: Romário foi o craque daquela Copa, sendo o principal nome do Brasil que ganharia o título. Stoichkov comandou uma campanha histórica da Bulgária, que foi até a semifinal. Outros tantos jogadores estariam na Copa.

A Copa do Mundo cobrou um preço alto do Barcelona. Romário voltou ao clube só muito tarde depois da conquista do tetra. Soitchkov também. As fricções no elenco foram ficando maiores. Stoichkov chegou a dizer que Romário jamais voltou da Copa. O corpo voltou, mas a sua alma não. O relacionamento entre o búlgaro e o brasileiro piorou, assim como o técnico. Stoichkov chegou a dizer: “É Cruyff ou eu”. As rachaduras estavam enormes àquela altura e o Dream Team tinha se tornado só uma lembrança. “Nós descansamos nos nossos louros”, disse o auxiliar Rexach. “Nós não planejamos apropriadamente para o futuro com cuidado”.

Zubizarreta tinha recebido a promessa que teria o seu contrato renovado. Um dia depois da final, porém, voltando da Grécia, o goleiro foi informado que deixaria o clube. Guardiola, conta o Guardian, caiu em lágrimas por isso. Era um jogador que era seu companheiro desde que subiu para o time principal. Zubizarreta iria para o Valencia. Michael Laudrup, deixado de lado por Cruyff, anunciou pouco tempo depois da final para onde iria, depois de não querer renovar com o Barcelona: o rival, Real Madrid.

Cruyff pareceu causar uma ruptura que tiraria o time do rumo definitivamente sob o seu comando, que acabou em meio a uma briga com a diretoria, já em 1996. Ele seria amado para sempre, mas nunca mais voltou ao banco de reservas para ser técnico, exceto por jogos em que foi técnico da seleção da Catalunha, nos poucos amistosos que a nação fazia. Sua contribuição como técnico estava terminada. O defensivo Milan tinha mostrado sua capacidade e muitos dos jogadores ali presentes estavam na seleção italiana que foi à final da Copa de 1994. Um título que marcaria para sempre a história de Fabio Capello no futebol.