O Estádio Poljud recebia um clássico quentíssimo em 4 de maio de 1980. O Hajduk Split era o atual campeão iugoslavo, mas perderia o seu trono para o Estrela Vermelha, dono da taça nas duas temporadas seguintes. Um bom momento dos clubes que tornava ainda mais explosiva a atmosfera do jogo, algo natural diante da rivalidade histórica entre croatas e sérvios. Até que as lágrimas interrompessem tudo. Enquanto o placar ainda estava zerado, aos 41 minutos do primeiro tempo, três homens invadiram o campo para cancelar a partida. A multidão começou a chorar quando foi anunciada a morte do presidente Josip Broz Tito.

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A cena dá uma enorme noção do culto de personalidade que o ditador recebia na Iugoslávia. Apesar do autoritarismo e das controvérsias em relação aos seus métodos, Tito possuía uma enorme reputação no país. Durante a Segunda Guerra Mundial, o general liderou os partisans, um dos principais movimentos de resistência aos nazistas e aos fascistas na Europa. Para depois ascender ao poder absoluto no recém-formado país comunista, mesmo sem se alinhar à União Soviética. A despeito dos conflitos históricos nos Bálcãs, sua figura é apontada como o principal motivo da coexistência das etnias que compuseram a Iugoslávia por quase cinco décadas. O choro coletivo por sua morte representa a alienação, mas, de certa forma, também os temores por uma guerra futura que parecia inescapável ao país.

Após o prefeito de Split anunciar nos microfones do estádio a morte, muitos dos jogadores e até mesmo o árbitro foram às lágrimas, enquanto um silêncio assustador imperava na atmosfera. Pouco depois, os torcedores começaram a entoar “Druže Tito, mi ti se kunemo”, tradicional canção nacionalista em que os iugoslavos juravam seguir o caminho do presidente. Os ultras dos dois clubes, que haviam se preparado para aquele clássico com tacos de beisebol, coquetéis Molotov, pedras e barras de ferro, deram uma trégua nos confrontos comuns fora do estádio. O jogo acabou cancelado e redisputado duas semanas depois, com vitória do Estrela Vermelha por 3 a 1.

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Curioso é que exatos 10 anos e 11 dias depois da morte de Tito, outro jogo de futebol se fez decisivo para os rumos da Iugoslávia. Em 13 de maio de 1990, jogadores e torcedores de Dinamo Zagreb e Estrela Vermelha protagonizaram uma batalha sangrenta no Estádio Maksimir, na futura capital croata. Para diversos historiadores, um episódio capital na cronologia da Guerra da Iugoslávia, iniciada em 1991 com as lutas de independência da Croácia e da Eslovênia. Uma década depois da morte de Tito, as lágrimas entre os rivais já não tinham mais significado.