A admiração por Rod Stewart é ampla entre os torcedores do Celtic. E não necessariamente porque os alviverdes também são fãs do músico. Há uma identificação que se explica por aquilo que se sente nas arquibancadas, e se evidenciou em uma noite de novembro de 2012. A vitória dos Bhoys sobre o Barcelona por 2 a 1, em plena Liga dos Campeões, levou o britânico às lágrimas nas tribunas do Parkhead. Londrino de nascimento, mas filho de um escocês, o cantor foi atingido pela febre de bola ainda na infância e passou a torcer pelo Celtic inspirado por Kenny Dalglish. Hoje em dia, é conhecido como um dos astros da música mais fanáticos por futebol.

E se a paixão de Rod Stewart já foi tema de texto aqui na Trivela, aproveitamos a deixa pelos 73 anos do músico para relembrar uma das passagens mais marcantes de sua vida como torcedor. Nem apenas de fidalguia nos camarotes é feito o passado do britânico. Mesmo em meio ao seu sucesso, ele não se privava de se juntar à massa nas arquibancadas. Fez isso, inclusive, com a célebre Tartan Army – como é conhecida a torcida da seleção escocesa. A ponto de invadir o gramado de Wembley após um clássico entre Escócia e Inglaterra.

Se você reparar bem na foto que abre esta matéria, ele está lá, com a cabeça acima de todas as outras. O homem carregado nos braços em meio à balbúrdia no gramado de Wembley é justamente Rod Stewart, entre as bandeiras da nação que adotou como sua. A cena aconteceu em 4 de junho de 1977, cinco meses antes que o cantor lançasse “Foot Loose & Fancy Free”, álbum que chegou aos primeiros lugares das paradas britânicas. Mas antes de se dedicar totalmente às gravações, experimentou um pouco da mais pura loucura futebolística.

Aquele compromisso entre as seleções seria disputado pelo Home British Championship, tradicional torneio disputado nas ilhas. Era uma época em que a animosidade entre as torcidas de ambas as nações ganhava espaço, até pelo aumento do hooliganismo. Mas ainda que a confusão tenha marcado aquele jogo em Wembley, prevaleceu muito mais a festa da Tartan Army do que qualquer episódio de violência. Que a polícia não tenha conseguido controlar a multidão, isso não descambou à pancadaria,  e sim a uma insana celebração pelo resultado conquistado pelos escoceses – com Rod Stewart no meio disso tudo.

Antes da festa, houve uma partida. E a empolgação em torno da Escócia era imensa. A seleção contava com um time bastante qualificado, protagonizado por nomes como Kenny Dalglish, Joe Jordan, Willie Johnston e Archie Gemmil. Havia sofrido apenas uma derrota nos 24 meses anteriores e tinha chances reais de faturar a competição britânica, após derrotar a Irlanda do Norte por 3 a 0. Fechando o quadrangular, o duelo com a Inglaterra valia a taça aos visitantes. Após o tropeço de Gales na véspera, uma vitória simples bastava para consagrar os escoceses.

Diante do cenário, a Tartan Army promoveu uma verdadeira invasão em Wembley. Milhares de escoceses fizeram a viagem ao sul da ilha e eram maioria entre os 98 mil presentes nas arquibancadas. Certamente aprovaram o que assistiram. A Escócia abriu o placar aos 42 do segundo tempo, em cabeçada feroz de Gordon McQueen. Já no segundo tempo, coube ao craque Kenny Dalglish ampliar a vantagem aos visitantes. Mick Channon ainda diminuiu aos ingleses no finalzinho, mas a vitória por 2 a 1 já foi suficiente para a seleção escocesa confirmasse o segundo título consecutivo no Home British Championship. Para que a euforia explodisse entre os torcedores.

A Escócia tinha vitórias notáveis no clássico durante os anos anteriores, em especial o triunfo no qual os “Magos de Wembley” carimbaram a faixa dos campeões do mundo em 1967. No entanto, a Inglaterra havia imposto uma dolorosa goleada por 5 a 1 em 1975, que não condizia com o momento das seleções. Ainda que o placar não fosse tão elástico naquele junho de 1977, a vitória por 2 a 1 era o troco que os escoceses aguardavam. E aproveitaram a oportunidade para esfregar na cara de seus rivais o sabor da glória, invadindo o gramado de Wembley. Não houve força policial que contivesse aquela maré de gente, que passou a ocupar o campo e quebrou até mesmo as traves. Todos ávidos por desfrutar, de alguma maneira, aquela conquista irrepreensível.

“Eu me lembro bem desse dia. Eu queria entrar em campo com o resto dos torcedores, mas estava lá com meu pai, e ele disse que não. Eu respondi: ‘Tudo bem, então tente me parar’. Quando eu tentava invadir, a polícia estava tentando conter as pessoas. Levantei meu boné e mostrei meu rosto. O policial viu quem eu era e deixou que eu entrasse no gramado”, relembra Rod Stewart. Outras personalidades fizeram o mesmo – entre elas Gordon Strachan, futuro capitão da seleção, que, aos 20 anos, estava em lua de mel em Londres.

Aquele jogo acabou sendo determinante em diferentes sentidos. Primeiro, pelo embalo que levou a Escócia à Copa do Mundo de 1978. Uma multidão de escoceses viajou à Argentina confiando em uma grande campanha de sua seleção, o que não se cumpriu. A Inglaterra, por sua vez, demitiu o técnico Don Revie e acabou de fora do Mundial, superada pela Itália em sua chave nas Eliminatórias. Foi a segunda Copa do Mundo consecutiva em que os Three Lions viram apenas pela TV. Enquanto isso, a invasão também aumentou as preocupações com a segurança e o hooliganismo nos estádios britânicos. A “algazarra pacífica” da Tartan Army não seria praxe depois disso e, até pela violência, o British Home Championship acabou extinto logo na década seguinte.

Enquanto isso, Rod Stewart não abandonou o seu hábito de se juntar ao exército de escoceses. Viajou ao Mundial da Argentina, assim como fez em outras ocasiões – incluindo a Copa do Mundo de 1998, a última para a qual sua seleção se classificou. Aos 73 anos, o fanático certamente merece uma última oportunidade de fazer jus à sua história ao lado da Tartan Army.


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