Ajax e Real Madrid possuem uma rica história na Liga dos Campeões. O primeiro confronto aconteceu em 1967/68, quando os Godenzonen ficaram a um triz de eliminar os Merengues na primeira fase. O time de Rinus Michels apresentava sua qualidade à Europa, mas acabou sucumbindo com um gol de Paco Gento na prorrogação. O troco viria cinco temporadas depois, em 1972/73, momento no qual o esquadrão estrelado por Johan Cruyff já havia iniciado seu reinado na competição. Venceram os dois jogos, com direito a míticas embaixadinhas de Gerrie Mühren em Madri. Ainda assim, às gerações mais novas, há outro embate com ares lendários: a ovação ao timaço de Louis van Gaal dentro do Santiago Bernabéu, em 1995/96.

O Ajax vinha em um momento bem melhor que o Real Madrid. Dono de um timaço cheio de jovens destaques, havia conquistado a Champions 1994/95 e se colocava mais uma vez entre os favoritos na temporada seguinte. Que os madridistas tivessem interrompido a sequência de títulos do Barcelona em La Liga, erguendo o troféu em 1994/95, estavam um degrau abaixo dos holandeses. Os duelos aconteceram logo na fase de grupos, em chave que também contava com Ferencváros e Grasshopper. Pois os Ajacieden venceram ambos os encontros diante dos espanhóis. Na Amsterdam Arena, 1 a 0 para os anfitriões, gol de Marc Overmars. O ponta puxou um contra-ataque e, de fora da área, soltou a bomba no canto de Paco Buyo. Mas, apesar da superioridade dos Godenzonen, os Merengues ainda criaram ocasiões para empatar. O baile ficaria mesmo para o Bernabéu, em 22 de novembro de 1995.

E a verdade é que a vitória do Ajax por 2 a 0 foi um tanto quanto mentirosa. Os Ajacieden poderiam ter aplicado uma goleada acachapante desde o primeiro tempo. Patrick Kluivert teve um gol discutivelmente anulado, em lance no qual encobriu Buyo, mas a arbitragem viu uma falta. Além disso, os visitantes estremeceram as traves madrilenas três vezes antes do intervalo – uma com Kluivert, outra com Overmars e mais uma com Litmanen. A do finlandês aconteceu em uma cobrança de falta e a bola ainda tocou dentro da meta antes de sair, embora a arbitragem tenha negado mais um tento aos Godenzonen. O show só alteraria o marcador no segundo tempo.

“Apresentamos um nível muito alto naquele dia. Criamos uma porção de chances, vimos dois gols serem anulados e acertamos a trave mais duas vezes. No intervalo, o empate por 0 a 0 era inacreditável. Estávamos furiosos, mas o Van Gaal pediu para que mantivéssemos a calma e continuássemos naquele ritmo. Ele disse: ‘Nossa situação não é justa, mas se vocês seguirem jogando assim, é impossível que a gente não vença'”, relembrou Ronald de Boer, uma das referências no meio-campo do Ajax, à RTL Nieuws.

O gol inaugural nasceu aos 19 minutos, em uma belíssima jogada coletiva, a partir de Edgar Davids. O volante limpou a marcação na intermediária e abriu os espaços ao companheiros de ataque. Finidi George recebeu na ponta direita e descolou um passe magistral, com a lateral do pé, para dentro da área. Jari Litmanen se infiltrou com total liberdade e bateu por entre as canetas de Buyo. A 15 minutos do fim, veio o segundo. Danny Blind roubou a bola na defesa e entregou a Finidi, arrancando pela lateral. O nigeriano tocou a Kluivert, que então abriu com Overmars na esquerda. O ponta deixou o marcador no chão e logo cruzou rasteiro, para Kluivert só escorar. Apesar dos erros de posicionamento na zaga espanhola, o futebol dos holandeses envolvia. As trocas de passes, as ultrapassagens e a rapidez nas ações abrilhantavam o espetáculo além da bola nas redes.

Ao final da partida, o reconhecimento. A torcida do Real Madrid se rendeu à magia do Ajax e, como em outros momentos célebres no Bernabéu, aplaudiu aos oponentes. “Os espanhóis se levantaram e nos ovacionaram, ovacionaram nosso futebol. Foi fantástico, um momento realmente especial. É algo que continua nas minhas lembranças”, salientou Edwin van der Sar, goleiro daquele Ajax, em entrevista recente à AFP. O Real Madrid, cabe salientar, tinha vários craques à sua disposição. Redondo, Raúl, Zamorano, Luis Enrique e Sanchís foram titulares na equipe de Jorge Valdano. O problema era lidar com a potência do outro lado.

“O Ajax não é apenas o time da década de 1990. Eles estão se aproximando da utopia do futebol. O conceito de jogo que eles aplicam é excepcional, mas ainda possuem uma superioridade física. Eles são a Bela e também a Fera”, analisaria Valdano, na saída do jogo, sempre brilhante com as palavras. Já nas arquibancadas, o lesionado Frank de Boer pôde apenas assistir àquela exibição. Diria sobre os seus companheiros: “Fomos divinais. Este é o Ajax em seu melhor”. Logo após a vitória em Madri, os Godenzonen viajariam a Tóquio e derrotariam o Grêmio nos pênaltis, levando o Mundial Interclubes.

Naquela Champions, o Ajax avançou na liderança do grupo, somando 16 pontos. O Real Madrid ficou em segundo, com 10, fazendo sua parte contra os oponentes mais fracos. A Juventus, porém, seria algoz de ambos nos mata-matas do torneio continental. Eliminou os espanhóis nas quartas de final e evitou o bicampeonato dos holandeses, com o triunfo nos pênaltis durante a final em Roma. Litmanen terminou como artilheiro da competição, autor de nove gols. Uma pena que o desmanche daquele timaço não demoraria a acontecer.

Abaixo, o vídeo com o baile do Ajax, em produção que também possui as lembranças do Mundial: