O dia em que o Ferencváros derrotou a Juventus e levou o primeiro troféu continental ao Leste Europeu

Ferencváros e Juventus se enfrentam em Budapeste, num jogo que remonta até mesmo a uma final continental esquecida no passado. Em 1965, húngaros e italianos se encararam na decisão da Taça das Cidades com Feiras – o torneio precursor da Copa da Uefa, que reunia clubes que não haviam vencido na temporada anterior a liga ou a copa nacional. E, apesar da força dos representantes da Serie A naquele momento histórico, o troféu serviu para consagrar pela primeira vez uma equipe do Leste Europeu. O Ferencváros terminou como campeão, coroando Florián Albert, grande lenda do clube e um dos maiores craques da Europa na década de 1960.

A Juventus atravessava um momento de transição. Os bianconeri perderam a hegemonia construída na virada dos anos 1960, quando faturaram três Scudetti em quatro temporadas consecutivas. Além disso, o clube também convivia com as glórias de Internazionale e Milan na Champions. A Taça das Cidades com Feiras, então, era o que estava ao alcance dos juventinos para se consagrar. A equipe seguia estrelada por Omar Sívori, grande ídolo da torcida naquele período. Treinado pelo paraguaio Heriberto Herrera, a equipe tinha outros nomes relevantes, como Luis del Sol, Sandro Salvatore, Ernesto Castano, Benito Sarti e Giampaolo Menichelli.

O Ferencváros, de qualquer maneira, merecia respeito. O clube era uma das grandes forças do Leste Europeu na primeira metade do século, acumulando títulos na Hungria e vencendo por duas vezes a antiga Copa Mitropa – que reunia as forças da Europa Central. Entretanto, por estarem ligados a uma elite nacionalista e fascista, os alviverdes perderam representatividade nos primeiros anos do regime comunista e precisaram ceder seus craques após a formação do Honvéd, o time do exército – Sándor Kocsis e Zoltán Czibor foram os dois principais jogadores transferidos compulsoriamente. A reconstrução demorou a acontecer.

O renascimento do Ferencváros como uma potência nacional aconteceu nos anos 1960, quando o futebol húngaro não mais se centrava apenas no Honvéd. O ótimo trabalho de formação impulsionou os alviverdes. A equipe era liderada por Sándor Mátrai, referência na defesa da seleção desde 1956. Outros jogadores importantes à equipe nacional eram Gyula Rákosi e Máté Fenyvesi. De qualquer maneira, o astro era Albert, um atacante de enorme elegância dentro de campo e capacidade letal para anotar gols. Nunca vestiu outra camisa na carreira. E, naquela Taça das Cidades com Feiras, levou seu maior título coletivo pelos alviverdes – indo além de sua Bola de Ouro, faturada em 1967. Vale mencionar ainda outros jovens talentos que despontavam nas Águias, como István Géczi, István Juhász e Zoltán Varga.

Em sua caminhada até a final, o Ferencváros derrotou adversários de peso. Começou superando Spartak Brno e Wiener, antes de encarar os representantes das grandes ligas a partir das oitavas. Foram duas vitórias sobre a Roma, antes de despachar o Athletic Bilbao num jogo-desempate. Já o grande embate aconteceu contra o Manchester United, nas semifinais. Os Red Devils ganharam por 3 a 2 em Old Trafford, mas perderam por 1 a 0 no Népstadion. A classificação sobre os ingleses só seria confirmada com um terceiro jogo em Budapeste, vencido pelos alviverdes por 2 a 1. A Juve, num caminho mais fácil, eliminou Union Saint-Gilloise, Stade Français, Lokomotiv Plovdiv e Atlético de Madrid.

A decisão, em teoria, deveria acontecer em duas partidas. Por conta do conflito de datas, os clubes acabaram acertando a final em jogo único. E o Ferencváros não teve problemas para buscar a taça no Estádio Comunale de Turim. A Juventus, extenuada pelo desgaste físico do final da temporada, precisaria se virar sem dois de seus principais jogadores. Sívori e Sandro Salvatore foram desfalques sentidos. Já os húngaros estavam no meio da liga nacional e vinham com força máxima, liderados por Mátrai na defesa e Albert no ataque.

O primeiro tempo em Turim foi intenso, mas sem grandes chances de gol. A decisão realmente se abriria na segunda etapa. A Juventus flertou com a vitória com boas chegadas ao ataque, mas não passou pelo goleiro Géczi. Foi quando o Ferencváros realmente despertou e partiu ao triunfo. Melhor e mais inteiro da reta final da partida, por suas condições físicas, o representante húngaro garantiu seu triunfo a 15 minutos do fim. O lateral Dezsõ Novák cruzou da direita e Máté Fenyvesi apareceu na área para concluir de cabeça. Determinou a conquista.

Um ano depois, o Ferencváros era uma das bases da Hungria que eliminou o Brasil ainda na primeira fase da Copa do Mundo. Seis jogadores alviverdes estiveram presentes naquele Mundial, incluindo Albert e Mátrai. Já a Juventus cederia três nomes à Itália eliminada pela Coreia do Norte, além de Del Sol à Espanha. Quanto aos clubes, o Ferencváros voltaria a uma final europeia em 1975, quando deixou a Recopa escapar diante do Dynamo Kiev. Já a Juventus, vice da Champions em 1973, precisaria esperar até 1977 para faturar pela primeira vez um troféu continental, superando o Athletic Bilbao na decisão da Copa da Uefa.