As especulações rolavam havia algumas semanas, e naquele 17 de julho de 1990 o martelo havia sido batido. O Napoli pagaria US$ 2 milhões ao Corinthians para transformar Neto no sucessor da camisa 10 celeste de Maradona. O argentino ficaria ainda mais uma temporada no clube antes de ser negociado. Enquanto isso, o meia brasileiro seria emprestado para outra equipe italiana para ganhar experiência no futebol europeu.

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Há exatos 25 anos, a notícia não foi encarada com tanta surpresa no Brasil. Neto vivia seu melhor momento na carreira. Havia sido a grande figura do Corinthians desde o meio de 1989 e estava prestes a carregar o time quase sozinho nas costas rumo a seu primeiro título brasileiro. Sua ausência na Copa de 1990, concluída uma semana e meia antes, era tida por parte da imprensa como uma enorme injustiça.

A situação de Maradona também não era das mais confortáveis na Itália. O melhor jogador do planeta enfrentava problemas físicos cada vez mais frequentes, tanto que não estava em suas melhores condições no surpreendente vice da Argentina no Mundial. Além disso, o envolvimento com o crime organizado já estava fora de controle. Apesar de ser o grande ícone napolitano, havia especulações de que o Napoli e o jogador sabiam que a mudança de ares era iminente (acabou forçada pelo caso de doping ocorrido meses depois).

Por isso, Vicente Matheus e Neto não estranharam quando o empresário argentino Alberto Lufriú se apresentou como representante de Guillermo Coppola (empresário de Maradona) em uma negociação para levar o corintiano para a Itália. Houve algumas reuniões e o negócio foi fechado no Parque São Jorge.

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Os problemas começaram a surgir uma semana depois. Lufriú mudou sua versão e passou a se dizer representante do Napoli. No entanto, o clube italiano foi pego de surpresa com a notícia. Luciano Moggi, então diretor esportivo dos napolitanos (ficou famoso 15 anos depois, já como diretor da Juventus, por ser pivô do esquema de manipulação de resultados no futebol italiano), afirmava que Maradona ficaria mais duas temporadas, quando terminaria seu contrato. Não havia interesse em Neto.

Corinthians_Neto no Napoli

O próprio jogador começou a desconfiar. “Liguei para o Careca para ver o que estava acontecendo, e ele me disse que não tinha nada a ver aquela história”, contou Neto. Foi nesse momento que o Corinthians passou a desconfiar, pois Lufriú aparecia com novas histórias sobre o destino do meia. Ele estaria negociando com Lecce e Atalanta, mas mantinha a versão de que seria um empréstimo antes da ida ao Napoli. Segundo ele, o clube celeste não abria o jogo sobre a saída de Maradona porque era o atual campeão italiano e sabia que anunciar a negociação do craque do elenco provocaria grande revolta da torcida.

Corinthians_Neto no Napoli 2

Na virada de julho para agosto de 1990, o destino de Neto seria outro: o empréstimo estaria sendo negociado coma Fiorentina, que precisava de um meia de armação para substituir Roberto Baggio, vendido para a Juventus. O problema é que o time de Florença seria comandado por Sebastião Lazaroni, justamente o técnico que havia preterido o meia corintiano na convocação da Seleção para a Copa do Mundo.

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Para o meio-campo, a preferência da Fiorentina era por Valdo, então no Benfica. Lufriú se revoltou e acusou Lazaroni de ter sujado o nome de Neto para vários clubes italianos e de forçar a compra de Valdo por ter participação no passe (detalhe: o negócio não foi fechado e Valdo seguiu em Portugal). O técnico chamou o empresário de “vigarista” e afirmou gostar da técnica e do poder de finalização do meia corintiano, mas o achava lento e individualista.

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O prazo para inscrição de atletas no Campeonato Italiano se fechou em 8 de agosto e Lufriú não conseguiu encaixar Neto em lugar algum. O jogador renovou seu contrato com o Corinthians e levou o clube a seu primeiro título nacional. Procurado pela Trivela, o agora comentarista da TV Bandeirantes não tem ilusões sobre o que ocorreu há 25 anos. “Fomos enganados por um vigarista. Nem empresário de futebol ele era, mas o Vicente Matheus entrou na onda e acabamos negociando”, comenta. “Claro que fiquei feliz em pensar na ideia de ir para a Itália usar a camisa que era do Maradona, mas não fiquei tão abalado quando o negócio não deu certo, tanto que joguei muito pelo Corinthians naquele final de ano. Abalado eu só fiquei quando fiquei de fora da Copa de 90.”